Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

A TRAGéDIA DOS REFUGIADOS > O caso da repórter húngara

Um pontapé na consciência de todos nós, jornalistas

Por Carlos Castilho em 11/09/2015 na edição 867

A era digital está cobrando um preço alto dos repórteres e correspondentes destacados para cobrir eventos como a crise dos refugiados na Europa. A repórter Petra Lazlo, do canal N1TV , de Budapest, que o diga. Ela foi demitida depois de ser filmada dando uma rasteira num refugiado que carregava um filho no colo, quando ele tentava escapar da polícia húngara.

Petra Lazlo

Foto: Reuters/Marko Djurica

Não é a primeira vez que um/a jornalista assume uma atitude prepotente em relação a protagonistas de um evento trágico ou interfere num acontecimento que ele deveria cobrir com a maior isenção possível. Mas a visibilidade imediata proporcionada pela internet e pelas redes sociais tenderá a torna-los menos frequentes, do que no passado quando eram ocultados pela falta de provas visuais ou pela cumplicidade de colegas de profissão.

Um repórter em situações tensas ou conflitivas nem sempre age de acordo com as normas éticas profissionais. Eu fui correspondente estrangeiro em áreas de conflito bélico e a convivência com colegas me permitiu testemunhar alguns incidentes que colocam a prova os princípios, que em teoria, deveriam orientar a nossa preocupação com a busca da isenção e da objetividade.

Numa guerra, por exemplo, tornou-se praxe os exércitos exigirem que os repórteres usem uniformes. No meu caso, numa cobertura na fronteira de Angola com a Namíbia, em 1985, chegaram a exigir que eu usasse uma metralhadora ao acompanhar ações militares em áreas sujeitas a ataques de comandos sul africanos. Minha recusa criou um dilema para o chefe da operação e só não fui mandado embora porque seria muito arriscado tirar-me do local. Acabei ficando, mas tive que concordar que nenhum soldado iria me defender em caso de emboscada.

Na América Central, em 1983, integrei um grupo de correspondentes estrangeiros formado em sua maioria por europeus, viajando pela fronteira entre Nicarágua e Honduras, com um guia militar nicaraguense. Numa aldeia onde iriamos passar a noite, o chefe local (um civil) preparou um jantar e colocou sobre a mesa uma garrafa de champanhe francesa que logo atraiu a atenção de um repórter da BBC que imediatamente tentou abri-la . O guia militar impediu a abertura alegando que a garrafa fazia parte, há anos, do ritual de boas vindas a visitantes estrangeiros e era apenas decorativa.

O repórter inglês protestou alegando que se a champanhe estava ali é porque era para ser bebida e ele já estava sem botar um pingo de álcool na garganta há uma semana. Disse que se quisessem preservar uma tradição local, não colocassem a garrafa na mesa de jantar. Para encurtar a historia, o rapaz teve que ser contido pelos jornalistas latino-americanos no grupo, gerando uma situação super embaraçosa entre os repórteres.

A posição de um/a repórter em situações muito tensas é bastante complicada porque ele/ela está submetido a vários condicionamentos, quase todos conflitantes. Suas atitudes são influenciadas pela sua cultura, pelo veículo que representa, pela natureza da cobertura e pelos hábitos ou tradições locais.

Nós profissionais, normalmente avaliamos o contexto que estamos cobrindo em função dos nossos valores e comportamentos porque não temos condições, tempo e muitas vezes, nem vontade, de tentar entender situações, povos e culturas muito diferentes. No Irã tive muita dificuldade para convencer meus superiores no Rio de Janeiro de que a associação entre política, religião e negócios no islamismo não era algo despropositado, fruto de culturas inferiores a nossa.

O caso da repórter húngara remete a outra situação muito comum num trabalho em situações complexas. Um jornalista deve ou não denunciar à polícia ou militares um fugitivo escondido? A resposta não está nos manuais de redação e sim na consciência do profissional. Não há regras em situações como esta, porque cada caso é um caso. Em situações críticas, o repórter quase sempre não tem muitas escolhas, geralmente resumidas a um sim ou não. Antes, ele pagava sozinho pela opção errada. Agora, ele pode até ter justificativas, mas será julgado por um público que levará em conta fatores totalmente alheios às circunstâncias concretas em que a escolha teve que ser feita.

Petra Lazlo, cujo canal foi apontado como ultraconservador pelo jornal britânico The Guardian, provavelmente achou que deveria colaborar com as autoridades para impedir a fuga de um pai desesperado. Mas a imagem caiu na internet e foi julgada por milhões de pessoas com valores e comportamentos totalmente diferentes. Para a esmagadora maioria dos internautas a rasteira no refugiado e seu filho foi covarde e reveladora da insensibilidade e hostilidade da jornalista aos protagonistas do drama que ela presenciava.

A repercussão foi tamanha e tão rápida que o canal não teve muitas alternativas senão anunciar a demissão da repórter, apesar a Hungria ser governada por um político autoritário sem a menor simpatia pelos milhares de refugiados que buscam a Alemanha e os países nórdicos na esperança de um emprego e segurança pessoal.

O caso do pontapé da repórter húngara mostra que os jornalistas também não estão isentos do tribunal planetário formado pelos usuários da internet, capaz de julgar de forma implacável e quase instantânea, um deslize profissional, mostrado em imagens virais. Esta nova circunstância, acaba com a sensação de impunidade e invulnerabilidade que facilitavam a despreocupação com os valores e costumes locais demonstrada de muitos correspondentes estrangeiros. O caso Petra Lazlo é uma daquelas situações em que os jornalistas são obrigados a parar e pensar, mesmo pressionados por uma maquina frenética de produção de novidades a todo custo

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