Terça-feira, 28 de Abril de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 18 - nº 848

ARMAZéM LITERáRIO > ANOS DE CHUMBO

Desaparecidos, mas não olvidados

Por Maria Victoria de Mesquita Benevides em 31/10/2011 na edição 666
Apresentação de K., de Bernardo Kucinski, 184 pp., Editora Expressão Popular, São Paulo, 2011; intertítulos do OI

Ditadura militar, 1974. Um jovem casal, ela química, professora na Universidade de São Paulo, ele físico trabalhando em uma empresa, desaparece sem deixar o menor sinal. Pânico na família e nas amizades, buscas incansáveis, qualquer fiapo de informação reacendendo esperanças, sofrimento indizível com a agonia da incerteza. Mais tarde a realidade se impôs, trágica e definitiva: eram militantes da resistência e tinham sido sequestrados, torturados e assassinados. Talvez na “Casa da Morte”, em Petrópolis? Nada foi confirmado e eles continuam na lista dos “desaparecidos”.

Desaparecidos, mas não olvidados. Este livro não veio para registrar fatos do terrorismo do Estado, mas, sim, para nos colocar dentro da dor e da memória. O senhor K. é o protagonista, dilacerado em seu amor paterno e os sentimentos de culpa: como não percebera o que acontecia com a filha, ele que também fora um resistente judeu na Polônia natal? Na leitura, convivemos com as providências desesperadas da família, apelando no país e no exterior, e aqui tendo que lidar com agentes da repressão, com informantes, com extorsões, com a mentira, o escárnio, a humilhação, a covardia, a crueldade.

Verdade e justiça

O tema é abordado equilibradamente, com concisão, firmeza e emoção, a delicadeza dos sentimentos ao lado da denúncia e da relação com a continuidade ainda hoje. O autor conseguiu manter, de toda essa viagem ao coração das dores e da revolta, a qualidade literária de um jornalista-escritor. De todos os livros que já li sobre esse período de horror, este é o que mais me emocionou. Lembro-me de ter visto o rosto devastado de K. na Cúria Metropolitana, quando ficou até amigo de dom Paulo Evaristo. Minha emoção ao ler K. é primeiro de compaixão (solidariedade com a dor), depois de enorme raiva e indignação… pela indiferença de tantos; pela hipocrisia de alguns rabinos que negaram apoio à “impura” (!); pelo “perdão” aos torturadores e demais responsáveis, garantido pelo STF; pela canalhice dos que, até hoje, martirizam a família com “informações”; pelo papel repugnante da USP, que demitiu a professora por “abandono do emprego”; pelos políticos que têm ojeriza do tema porque não dá voto – pode até tirar; pelos “ex-combatentes” que falam não querer revanchismo… a lista é longa. Este livro vai marcar um espaço importantíssimo em nossa bibliografia sobre o que muitos ignoram ou escondem.

E a luta continua. Há que se desvelar a verdade para que não se repita, há que se exigir justiça para que a dignidade das vítimas seja respeitada e a criminalidade das “autoridades” esclarecida e punida. [setembro de 2011]

***

“Maldade, indiferença e cumplicidade”

“…poucos relatos de meu conhecimento me impressionaram tanto pela força trágica do que as letras tecem como quadros escritos e pela revolta que despertam no leitor ante a crueldade das ações que as promoveram… K. consegue transformar a história real vivida pelo pai, ao tentar a todo custo descobrir o paradeiro da filha vitimada pela barbaridade da ditadura no Brasil, numa metáfora e num libelo contra a desumanidade e a vilania do regime de opressão, da máquina de repressão que alimentava os seus grilhões e dos interesses que lhe davam apoio descarado ou nele se acomodavam. Das linhas que o compõem emana com fria lucidez um grito de dor – os fantasmas vivos da lembrança que agonizam na sua invocação” (J. Guinsburg, São Paulo).

“Uma obra-prima em termos de seriedade, profundidade e literatura… Magistral, magistral… de uma dignidade ímpar – mais que isto, singular” (Alípio Freire, São Paulo).

“O autor conseguiu humanizar os protagonistas com nuances e silhuetas que nem de longe perfilam o estereótipo… Mesmo o sistema, que em Kafka é impessoal e alienante, nesta obra se revela em suas variantes hierárquicas, violentas, indiferentes, malvadas e sofisticadas. O principal protagonista, K., foi magistralmente exteriorizado com seus pensamentos e sua dor… Os relatos de B. Kucinski refletem maldade, indiferença, cumplicidade, oportunismo e prostração moral manifestadas num ambiente aparentemente simpático e dócil de uma sociedade sob ditadura militar… o conjunto destas qualidades os converte naquilo que denominamos de universal, visível e identificável em qualquer cultura” (Avraham Milgram, Museu do Holocausto, Jerusalém)

***

[Maria Victoria de Mesquita Benevides é socióloga e professora da USP]

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ARMAZéM LITERáRIO > ANOS DE CHUMBO

Desaparecidos, mas não olvidados

Por Maria Victoria de Mesquita Benevides em 31/10/2011 na edição 666
Apresentação de K., de Bernardo Kucinski, 184 pp., Editora Expressão Popular, São Paulo, 2011; intertítulos do OI

Ditadura militar, 1974. Um jovem casal, ela química, professora na Universidade de São Paulo, ele físico trabalhando em uma empresa, desaparece sem deixar o menor sinal. Pânico na família e nas amizades, buscas incansáveis, qualquer fiapo de informação reacendendo esperanças, sofrimento indizível com a agonia da incerteza. Mais tarde a realidade se impôs, trágica e definitiva: eram militantes da resistência e tinham sido sequestrados, torturados e assassinados. Talvez na “Casa da Morte”, em Petrópolis? Nada foi confirmado e eles continuam na lista dos “desaparecidos”.

Desaparecidos, mas não olvidados. Este livro não veio para registrar fatos do terrorismo do Estado, mas, sim, para nos colocar dentro da dor e da memória. O senhor K. é o protagonista, dilacerado em seu amor paterno e os sentimentos de culpa: como não percebera o que acontecia com a filha, ele que também fora um resistente judeu na Polônia natal? Na leitura, convivemos com as providências desesperadas da família, apelando no país e no exterior, e aqui tendo que lidar com agentes da repressão, com informantes, com extorsões, com a mentira, o escárnio, a humilhação, a covardia, a crueldade.

Verdade e justiça

O tema é abordado equilibradamente, com concisão, firmeza e emoção, a delicadeza dos sentimentos ao lado da denúncia e da relação com a continuidade ainda hoje. O autor conseguiu manter, de toda essa viagem ao coração das dores e da revolta, a qualidade literária de um jornalista-escritor. De todos os livros que já li sobre esse período de horror, este é o que mais me emocionou. Lembro-me de ter visto o rosto devastado de K. na Cúria Metropolitana, quando ficou até amigo de dom Paulo Evaristo. Minha emoção ao ler K. é primeiro de compaixão (solidariedade com a dor), depois de enorme raiva e indignação… pela indiferença de tantos; pela hipocrisia de alguns rabinos que negaram apoio à “impura” (!); pelo “perdão” aos torturadores e demais responsáveis, garantido pelo STF; pela canalhice dos que, até hoje, martirizam a família com “informações”; pelo papel repugnante da USP, que demitiu a professora por “abandono do emprego”; pelos políticos que têm ojeriza do tema porque não dá voto – pode até tirar; pelos “ex-combatentes” que falam não querer revanchismo… a lista é longa. Este livro vai marcar um espaço importantíssimo em nossa bibliografia sobre o que muitos ignoram ou escondem.

E a luta continua. Há que se desvelar a verdade para que não se repita, há que se exigir justiça para que a dignidade das vítimas seja respeitada e a criminalidade das “autoridades” esclarecida e punida. [setembro de 2011]

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“Maldade, indiferença e cumplicidade”

“…poucos relatos de meu conhecimento me impressionaram tanto pela força trágica do que as letras tecem como quadros escritos e pela revolta que despertam no leitor ante a crueldade das ações que as promoveram… K. consegue transformar a história real vivida pelo pai, ao tentar a todo custo descobrir o paradeiro da filha vitimada pela barbaridade da ditadura no Brasil, numa metáfora e num libelo contra a desumanidade e a vilania do regime de opressão, da máquina de repressão que alimentava os seus grilhões e dos interesses que lhe davam apoio descarado ou nele se acomodavam. Das linhas que o compõem emana com fria lucidez um grito de dor – os fantasmas vivos da lembrança que agonizam na sua invocação” (J. Guinsburg, São Paulo).

“Uma obra-prima em termos de seriedade, profundidade e literatura… Magistral, magistral… de uma dignidade ímpar – mais que isto, singular” (Alípio Freire, São Paulo).

“O autor conseguiu humanizar os protagonistas com nuances e silhuetas que nem de longe perfilam o estereótipo… Mesmo o sistema, que em Kafka é impessoal e alienante, nesta obra se revela em suas variantes hierárquicas, violentas, indiferentes, malvadas e sofisticadas. O principal protagonista, K., foi magistralmente exteriorizado com seus pensamentos e sua dor… Os relatos de B. Kucinski refletem maldade, indiferença, cumplicidade, oportunismo e prostração moral manifestadas num ambiente aparentemente simpático e dócil de uma sociedade sob ditadura militar… o conjunto destas qualidades os converte naquilo que denominamos de universal, visível e identificável em qualquer cultura” (Avraham Milgram, Museu do Holocausto, Jerusalém)

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[Maria Victoria de Mesquita Benevides é socióloga e professora da USP]

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