Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

ARMAZéM LITERáRIO > HISTÓRIA DA IMPRENSA

Notícias de São Paulo

Por Matías M. Molina em 10/04/2012 na edição 689
História da Imprensa Paulista: Jornalismo e Poder de d. Pedro I a Dilma, de Oscar Pilagallo, 368 pp., Editora Três Estrelas, São Paulo, 2012, R$ 59,90; reproduzido do suplemento “Eu&Fim de Semana” do Valor Econômico, 5/4/2012, intertítulos do OI

A História da Imprensa Paulistade Oscar Pilagallo, nasce como obra de leitura e consulta obrigatória para estudantes e estudiosos do jornalismo. É a herdeira direta de uma historiografia que começou com Lafayette de Toledo em 1898, quando publicou Imprensa Paulista na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, continuou em 1914 com Affonso A. de Freitas, autor de A Imprensa Periódica de São Paulo, na mesma revista, e passou pela História da Imprensa de São Paulo, de Freitas Nobre em 1950, e pela História da Imprensa em São Paulo, em 1954, obra que Paulo Duarte publicou como parte dos “Ensaios Paulistas”, dedicados ao IV Centenário da cidade.

Mas o livro de Pilagallo, publicado mais de meio século depois do último deles, se diferencia substancialmente das obras de seus antecessores. A maior parte do trabalho dos três primeiros é uma lista comentada das publicações editadas no Estado de São Paulo. Paulo Duarte é mais analítico, mas sua obra é, lamentavelmente, demasiado curta. Pilagallo, sem a preocupação de fornecer uma relação exaustiva de jornais e revistas, publica uma narrativa longa, fluente e bem escrita de mais de 300 páginas sobre a imprensa da capital, desde seus primórdios até 2011, o que torna o livro mais atraente e mais fácil de ler. Deixa de fora, porém, a imprensa do interior. A também breve obra de Gastão Thomaz de Almeida, de 1983, continua sendo o único trabalho abrangente sobre os jornais interioranos, que ainda esperam por seu historiador.

Embora reconheça que não se baseia em depoimentos, mas em material já publicado, o que significa que tem poucas novidades, o autor põe em perspectiva questões interessantes, como as reportagens de Euclides da Cunha sobre Canudos para O Estado de S. Paulo, o papel digno e corajoso do jornal monarquista O Commercio de São Paulo nessa mesma campanha, a participação da imprensa na Semana de Arte Moderna, e o Collorgate, que não teria acontecido sem a participação crucial das revistas, dos jornais e até da televisão. O livro mostra a evolução da imprensa de São Paulo, que, de provinciana e periférica, passou a ter expressão nacional – substituindo nesse papel a imprensa do Rio –, mas sem deixar de ser paulista.

Editoriais contundentes

É inevitável que uma obra abrangente e dessas dimensões contenha alguns erros factuais. A primeira obra sobre a imprensa paulista não foi de Affonso A. de Freitas, mas, como indicado acima, de Lafayette de Toledo. José Maria Lisboa não era o principal redator do Correio Paulistano quando foi contratado como gerente de A Província de São Paulo; era, como ele mesmo escreveu, “o gerente ou antes o faz-tudo, desde a caixa à remessa” da Gazeta de Campinas. Américo de Campos e José Maria Lisboa não saíram de A Província de São Paulo inconformados com a campanha antilusitana de Alberto Salles num momento em que o jornal beirava a falência. Foram demitidos no mesmo dia em que Salles entrou no jornal, antes portanto da campanha antilusitana e antes de este colocar realmente o jornal à beira da falência. Baseado na primeira versão de suas memórias, Minha Razão de Viver, de 1987, o livro não deixa claro que Samuel Wainer nascera realmente na Bessarábia, como consta na segunda versão, publicada em 2005. Mas essas e outras falhas, de pouca relevância, não afetam a consistência do conteúdo e serão fáceis de corrigir numa segunda edição, que certamente virá.

O livro já indica no título que trata de jornalismo e de poder; este é, na verdade, o foco da obra: a interligação da imprensa com a política. O leitor, porém, tem a sensação de estar ante um quadro no qual uma grande e bem elaborada moldura ocupa parte do espaço que deveria ser da pintura. Talvez tenha sido dada muita atenção aos eventos históricos e à política e falte detalhar a trajetória de alguns jornais incluídos no livro, como Correio Paulistano, Diário Popular, A Gazeta, a edição paulista do Jornal do Commercio, Notícias Populares. Ou incluir outros que não foram mencionados, como o Diário Mercantil, um dos jornais mais admirados de São Paulo no século XIX; O Tempo, lançado em 1948, bem cuidado e benfeito, cuja redação fora chefiada por Hermínio Sacchetta; Fanfulla, o principal jornal da colônia italiana e o primeiro jornal paulista a fazer a composição com linotipo – o segundo foi O Estado de S. Paulo.

Pilagallo procura ser isento. Informa, em nome da transparência, que trabalhou mais tempo na Folha de S.Paulo do que em qualquer outro lugar; que Otavio Frias Filho, o diretor de redação do jornal, fez o convite para escrever o livro; que esse foi publicado por uma editora do Grupo Folha. Por isso acha natural que “o leitor atilado arqueie uma sobrancelha de dúvida sobre a isenção destas páginas”. Sua esperança é que, “ao fim da leitura, tal suspeita se desfaça”. Ele se esforça em desfazer a suspeita. Faz duras críticas ao jornal e não evita questões polêmicas.

O livro deixa em evidência que em 1931, durante o começo do governo de Getúlio Vargas, a Folha da Manhã e a Folha da Noite tiveram uma atitude pusilânime e subserviente ante o poder, justificando a falta de liberdades e só lamentando a censura à imprensa quando a sentiram na própria pele. Nesse período, os dois jornais continuaram dando apoio à oligarquia do Partido Republicano Paulista.

Recentemente, a empresa foi acusada de dobrar-se à censura e de colaborar com o regime militar, tanto nas colunas da Folha da Tarde como cedendo veículos às forças da repressão para prender militantes de grupos de esquerda na clandestinidade.

Pilagallo não deixa de tocar em nenhum desses assuntos. Afirma que o jornal aplaudiu o golpe e a implantação da ditadura, que teve nesses episódios uma atuação discreta, limitada basicamente ao plano editorial, mas com editoriais contundentes contra o governo de João Goulart, e que ficara à margem da conspiração em marcha. Nos primeiros meses da ditadura, a Folha apoiou o regime, fez apenas críticas periféricas e pontuais ou adotou um silêncio tático. Mas apoiou.

Espaço desproporcional

A respeito da censura, afirma que a maioria da imprensa se submeteu a ela e lembra o depoimento de Cláudio Abramo, que chefiava a redação, dizendo que não havia na época espaço político para o jornal, que não tinha condições de resistir a pressões do governo e, por isso, não provocava: “Foi uma política muito sábia que Frias aplicou ao jornal”.

Sobre a Folha da Tarde escreve que, ao ser relançada em outubro de 1967, foi editada por jornalistas de esquerda, alguns dos quais entrariam na clandestinidade, e depois por jornalistas de direita, que eram também policiais ou ligados à polícia ou “terroristas arrependidos”; foi conhecida como o “Diário Oficial da Oban”, o órgão de repressão política. Nas palavras de Abramo, era “o jornal mais sórdido do país”. O leitor se pergunta o que teria levado a empresa a publicar um jornal tão sórdido. Pilagallo expõe a “sordidez” da FT, mas toma o cuidado de esclarecer que o jornal “foi acusado de crimes que não cometeu ou, pelo menos, não cometeu sozinho”, como ter informado antes que o resto da imprensa a morte de guerrilheiros presos quando ainda estavam vivos; na verdade, a notícia foi publicada simultaneamente por todos os jornais. São também lembradas as ligações de outro jornal do grupo, Notícias Populares, com a polícia e os militares.

O autor afirma que, com toda probabilidade, veículos da Folha foram cedidos aos órgãos de repressão, e que os caminhões usados pela polícia carregavam sacos de areia como proteção contra eventuais ataques. Ele já tinha escrito sobre o assunto na edição de 90 anos do jornal, em fevereiro de 2011, e aqui repete algumas das informações. Menciona que Otavio Frias Filho também acredita que os caminhões de transporte da Folha foram usados por equipes da polícia, mas ele tem a convicção de que isso foi feito à revelia de seu pai, Octavio Frias Oliveira, e até de seu sócio, Carlos Caldeira Filho, ambos donos da empresa. Ele diz “até”, porque Caldeira era a pessoa que tinha mais afinidade com esse setor do regime militar.

Mas um editor ou um chefe de reportagem perguntaria: se a Folha cedeu caminhões aos órgãos de repressão à revelia dos donos, quem deu a ordem?

Pilagallo mostrou, realmente, isenção ao escrever sobre a Folha – como ele pretendia e como esperava dele quem o conhece. O jornal, ao encomendar e editar o livro, deu uma abertura para falar de seu passado raramente encontrada nas obras sobre outros órgãos de imprensa no Brasil.

Cabe registrar, porém, que talvez tenha sido dedicado um espaço desproporcional à Folha – possivelmente por ser o jornal que o autor melhor conhece e sobre o qual já escreveu, e pela necessidade de levantar, com detalhes, alguns aspectos de seu passado. Mas há um evidente desequilíbrio quando a Folha da Tarde tem um destaque maior que o Jornal da Tarde, um diário mais importante e influente, embora com um passado menos controvertido.

“Destino remoto”

O livro não se limita a acompanhar a evolução e opiniões dos jornais. Dá atenção, também, para as revistas semanais e para sua cobertura dos principais eventos políticos das últimas décadas; relata a meteórica ascensão e o declínio de Realidade; a interessante trajetória da imprensa alternativa – Opinião foi, possivelmente, junto com Marcha do Uruguai, uma das publicações semanais mais interessantes e inteligentes da América Latina em meados do século XX –; e trata pontualmente do rádio e da televisão.

As páginas finais registram os empreendimentos que surgiram com a chegada da internet, como Terra, UOL, iG. O avanço da tecnologia digital leva Pilagallo, no último parágrafo, a enfrentar a inevitável pergunta que angustia a imprensa: os jornais vão acabar? Ele se mostra otimista. Escrevendo em meados de 2011, diz que “tal destino parece cada vez mais remoto”. Acredita que, quando chegar o bicentenário da imprensa paulista, em 2023, as chances são de que o evento seja noticiado “por jornais, revistas, TVs, rádios, blogs, celulares, redes sociais, tablets – e o que mais for inventado até lá”. Efeméride que, certamente, merecerá uma edição atualizada da História da Imprensa Paulista.

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Um livro que nasce clássico– Caio Túlio Costa

***

[Matías M. Molina é autor do livro Os Melhores Jornais do Mundo, em segunda edição]

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