Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > ENTREVISTA / ANNALENA MCAFEE

Confissões no gravador

Por Raquel Cozer em 03/07/2012 na edição 701
Reproduzido do suplemento “Ilustríssima” da Folha de S.Paulo, 1/7/2012

O respeitado jornalista inglês Simon Jenkins arriscou, em 4 de janeiro de 1997, um exercício de futurologia no jornal The Times. “A internet”, ele escreveu, “é mais uma febre que as forças de mercado mais cedo ou mais tarde colocarão no devido contexto. […] Ela terá seu momento em cena e então assumirá seu lugar na fileira das mídias inferiores.”

Àquela altura, prestes a se casar com o escritor Ian McEwan – que conhecera em 1994, numa entrevista para o Financial Times –, a jornalista Annalena McAfee trabalhava na editoria de cultura do vespertino Evening Standard. De dentro de redações de jornal ela testemunhou, desde então, a velocidade com que a internet pôs por terra os devaneios de Jenkins.

“Em março daquele ano, já estava claro que a rede seria o lugar em que as pessoas buscariam informações. Só quis mostrar esse último momento antes da queda”, disse ela à Folha, por telefone, de Londres. Não por acaso, é naquele ano que se desenrola a ação de seu romance de estreia, Exclusiva [trad. Angela Pessoa e Luiz Araújo, Companhia das Letras, 424 págs., R$ 54], uma sátira ao jornalismo.

O uso da palavra “queda” para descrever o cenário pós-web não deixa dúvida quanto ao conceito de McAfee sobre a imprensa hoje. Principalmente em relação a uma especialidade britânica, os tabloides sensacionalistas, fenômeno dos anos 90 cujos procedimentos culminaram, em 2011, com o fechamento do principal deles, News of The World, após escândalo envolvendo escutas ilegais.

O romance coloca Honor Tait, uma ex-correspondente de guerra, frente a frente com Tamara Sim, especializada em listas de “dez mais” com celebridades. À beira dos 80 anos, Honor amarga a percepção de que seus feitos não interessam a mais ninguém. Aos 27, Tamara vê na chance de entrevistá-la a oportunidade ser alçada a um posto mais nobre no The Monitor, jornal onde trabalha como repórter da revista Pssit!.

Com humor, tendo como inspiração assumida a crítica mordaz que Evelyn Waugh (1903-66) fez ao jornalismo no clássico Furo!, McAfee escancara a formação deficiente da jovem repórter. Mas a veterana não sai ilesa. Suas culpas vêm à tona, com mais sutileza, depois que ela e Tamara têm o primeiro estranhamento.

O mea-culpa de Honor decorre de questionamentos que a própria McAfee faz ao pensar em suas três décadas como jornalista – ela editou o suplemento literário do Guardian até 2006, quando deixou o ambiente das redações. “Não é de hoje que o jornalismo tem suas ambiguidades morais”, diz a autora, que vem com o marido a Paraty.

Em Exclusiva, a sra. critica o jornalismo atual, mas, na trama, a veterana Honor Tait questiona seus métodos do passado. Que velhos vícios se mantiveram e o que piorou?

Annalena McAfee – O velho jornalismo não era livre de problemas. Não é de hoje que o jornalismo tem suas ambiguidades morais. No sentido de, por exemplo, o profissional viver esse limiar entre ser um observador ou um provocador. E, no sentido de alheamento, uma espécie de negação da humanidade, uma capacidade de olhar para as tragédias sem se envolver ou, ainda pior, de torcer por elas.

Dito isto, é inevitável considerar a pressão do tempo, as pressões crescentes do jornalismo moderno como um agravante. Décadas atrás, alguém poderia ter duas, três semanas para escrever uma reportagem. Hoje, as pessoas são enviadas para uma pauta em cima da hora, sem falar que nem todas têm capacidade de pesquisa, independentemente do tempo. Os jornais também dão mais importância ao trivial, às celebridades.

O livro começa com Honor retirando da sala tudo o que possa dar à repórter pistas sobre sua personalidade. Depois, Honor lembra que se enganou ao tirar conclusões precipitadas sobre entrevistados. A sra. passou por alguma situação parecida como jornalista?

A.MC. – Enquanto escrevia o livro, o que aconteceu por dois anos e meio, tive a experiência de entrevistar alguém e ter uma primeira impressão errada. Assim que isso aconteceu, coloquei Tait relembrando experiência similar. Ela se lembra de quando entrevistou um escritor e, pela casa dele, pela forma como contava histórias antigas, deduziu que a vida dele estava acabada. E só depois de publicar o perfil soube que ele tinha como amantes duas gêmeas idênticas, de 20 anos.

A questão é que jornalistas acreditam que podem decifrar a vida da pessoa no espaço de uma hora, que tiveram um insight psicológico, quando na verdade são necessários anos para conhecer alguém realmente bem, em nível pessoal.

Isso tem a ver com a vaidade dos jornalistas, como você mostra com suas personagens?

A.MC. – O jornalismo é uma profissão incrivelmente privilegiada, não? Você tem contato com pessoas que as pessoas comuns não têm oportunidade de conhecer, você vive situações importantes. E isso pode dar ilusões de grandeza, se você não tomar cuidado.

Por que escolheu 1997 como data para situar a trama?

A.MC. – Aquele foi o último momento em que ainda era possível alguém acreditar que a internet era uma moda passageira que não iria interferir em nada. No começo do livro há uma frase de um importante jornalista, Simon Jenkins, dizendo que a internet teria seu momento e então assumiria seu lugar na fileira de mídias inferiores. Que era preciso tomar cuidado com os fanáticos defensores da internet.

Ele escreveu aquilo em janeiro de 1997. Em março daquele ano, já estava claro que a internet seria o lugar em que as pessoas buscariam informações. Houve grandes histórias americanas naquele primeiro semestre, o ataque terrorista que matou mais de 150 pessoas em Oklahoma, o suicídio em massa de membros da seita Heaven's Gate em Los Angeles.

As pessoas iam caçar informações na internet, e alguns jornais perceberam que aquilo ia acontecer. Em janeiro ainda se podia dizer que a internet não iria significar nada. Eu só quis mostrar esse último momento antes da queda.

Que mudanças a sra. percebe nos jornais depois da internet?

A.MC. – Bem, fico feliz por poder ler jornais no meu Kindle, na internet, e, quando chega o jornal impresso, é inevitável a sensação de que você já leu aquilo antes. Mas há algo ainda atraente no papel, há algo de 'serendipity' [descobertas felizes e casuais] que a internet não dá. Quando busca notícias na internet, você já as seleciona de antemão segundo seu interesse.

A sra. acha que o jornalismo impresso mudou editorialmente após a internet? Os textos devem ser mais analíticos?

A.MC. – Há essa busca pelo analítico, por debates, mas os impressos também mantêm a trivialidade, o interesse pelas celebridades. Você encontra na internet tanto uma coisa quanto a outra, então acho que essa não é a resposta sobre os diferenciais do impresso.

Jornais oferecem análises e reflexões certamente valiosas, mas o principal é que permitem a você experimentar uma história fora da sua área de interesse natural. Ao folhear as páginas de esportes, que você nunca lê, seus olhos podem se deixar atrair pela história de um jogador do qual nunca ouviu falar. A forma de editar as imagens, tudo isso pode fazer a diferença.

Quando descreve no livro a repercussão internacional do escândalo envolvendo Honor, a sra. é bastante crítica ao citar o jornalismo no Reino Unido. Por que acredita que os tabloides sensacionalistas se tornaram predominantes no país?

A.MC. – Os jornais britânicos sabem fazer sensacionalismo extremamente bem ou extremamente mal, depende do ponto de vista. Uma qualidade que pode ser, talvez, admirável, é a irreverência. Talvez isso seja uma boa qualidade. Um aspecto negativo é o bullying. Nós vemos a evidência de um aspecto pernicioso desfilar à nossa frente, como aconteceu com a descoberta de que tabloides estavam grampeando telefones de pessoas comuns, o que é ilegal, imoral.

O impacto do digital sobre os jornais é mostrado de dentro de uma redação também em Os Imperfeccionistas[Record], que saiu recentemente no Brasil e que, como o seu livro, foi muito elogiado. Por que os bastidores do jornalismo despertam interesse?

A.MC. – Li esse livro, gostei muito. E conheci Tom Rachman, o autor, um homem charmoso com quem estive em um debate sobre jornalismo.

Acho que as descrições dos ambientes das redações não são de interesse só de jornalistas, mas de qualquer um que trabalhe em equipe, que conheça políticas de escritórios. Jogos de poder são universais, assim como a questão de velhice versus juventude, da qual trato no meu livro.

Os limites éticos do jornalismo são ultrapassados algumas vezes pelas personagens do romance. Como a sra. vê a discussão em torno da regulação da mídia?

A.MC. – Prestar contas é uma coisa importante, porque certamente a tecnologia vem permitindo uma excessiva invasão de privacidade. Mas ficaria muito preocupada se, por exemplo, fossem aprovadas leis restringindo a liberdade de imprensa. Acho que na Inglaterra precisamos de mais regulação, que somos muito fracos nisso, o que permite que jornalistas se comportem muito mal, sem limites. Mas a maneira para isso é a autorregulação, os jornalistas serem convocados a prestar depoimentos sobre seus métodos, eles e os jornais serem responsáveis pelo que escrevem e publicam.

Essa é uma discussão que também acontece no Brasil no momento. Como está isso agora na Inglaterra?

A.MC. – Desde a descoberta dos grampos pelos tabloides, há essa certeza de que a regulação é necessária, e está sendo discutido qual o próximo passo. Há dois meios: um é fortalecer a autorregulação, o outro, criar uma legislação.

Se há essa discussão no Brasil, você deve saber: uma vez que você tem o governo envolvido na regulação da imprensa, você está a um passo da censura.

***

[Raquel Cozer, da Folha de S.Paulo]

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