Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > FOFOCAS DO COTIDIANO

Confissões de uma ex-funcionária do Facebook

Por Tiago Dória em 17/07/2012 na edição 703
Reproduzido do blog do autor, 11/7/12; The Boy Kings: A Journey into the Heart of the Social Network, de Katherine Losse (256 páginas, editora Free Press); intertítulos do OI

Os funcionários do Facebook preferem beber uísque a vodca. A bebida perde somente para os energéticos tomados a esmo durante as madrugadas de programação. Daft Punké a banda preferida dos engenheiros da plataforma de rede social. E Robot Rocké quase um hino interno. Como símbolo de seu prestígio, a mesa de Mark Zuckerberg, cofundador do Facebook, é rodeada de presentes (raquetes de tênis, games que ainda não foram lançados, camisetas autografadas) dados por parceiros, contatos empresariais e puxa-sacos de plantão. Essas são algumas das fofocas sobre o Facebook que Katherine Losserevela no recém-lançado The Boy Kings: A Journey into the Heart of the Social Network(256 páginas/ Editora Free Press).

Ex-funcionária do Facebook (número 51), Losse foi durante anos responsável pela expansão internacional do site e por ser ghostwriter de Zuckerberg. Era Losse quem escrevia posts, respondia a emails e atualizava o perfil de Zuckerberg no Facebook. Vai dizer que você acreditava que ele realmente escrevia e respondia a tudo aquilo? No livro, a ex-funcionária comenta os bastidores do site.

The Boy Kings tem um apelo especial para os brasileiros. Losse revela detalhes da viagem de Zuckerberg ao Brasil, em agosto de 2009. Poucos dias antes de embarcar para as terras brasileiras, o cofundador do Facebook ainda tinha dúvidas se valia a pena tal empreitada. Um andar inteiro de um hotel em São Paulo foi reservado para a equipe que acompanha Zuckerberg nas viagens de negócios. E foi contratada a mesma equipe de segurança que fez a escolta de Britney Spears e do ex-vice-presidente dos EUA, Richard Cheney, quando o mesmo esteve no Iraque.

Coleta de dados passou a ser obsessão

Segundo Losse, existia a imagem de que o Brasil era um país emergente – sem leis e onde você poderia ser sequestrado a qualquer momento. Percepção que deve ter mudado posteriormente, pois Zuckerberg voltaria ao Brasil anos após esta primeira viagem para passar o Ano Novo em Florianópolis. Em uma churrascaria paulistana, Zuckerberg mal aguentou tomar uma dose de caipirinha (não é de beber). E no caminho para gravar a exclusiva entrevista concedida à MTV Brasil, a comitiva do Facebook foi obrigada a parar numa praça, pois Zuckerberg teve que responder a uma importante “ligação sigilosa”, relevante para o futuro do site.

Participei da produção da entrevista na MTV Brasil (na época era colunista de tecnologia do programa Notícias MTV) e, curiosamente, não me lembro de Losse. Ela devia estar em meio a algumas pessoas que ficaram no canto da sala e falaram pouco com os demais. O centro das atenções era, naturalmente, Zuckerberg e a sua assessora de comunicação. No entanto, Losse aparece sem querer numa das fotos que tirei na época.

Foi no Brasil que Zuckerberg sugeriu a produção de um livro sobre o Facebook. E foi também por aqui que a ideia de sair do Facebook ficou mais clara para Losse. Sua saída foi efetivada em 2010. Apesar de ser uma das primeiras funcionárias e de fazer parte da equipe de confiança de Zuckerberg, Losse decidiu pedir demissão por um motivo simples, mas, ao mesmo tempo, nobre – não acreditava mais na missão nem nos rumos que o Facebook tomou nos últimos anos. Segundo Losse, a partir de 2009, o Facebook começou a perder a sua cultura inicial. Desde o início, o objetivo da plataforma sempre foi adquirir dados sobre os hábitos das pessoas. Contudo, a partir do momento em que o site conquistou um crescimento meteórico e foi incensado pela imprensa, a coleta de dados passou a ser uma obsessão. Quanto mais dados coletados, melhor.

Queixas de usuários não eram bem recebidas

As experiências individuais dos usuários ficaram em segundo plano, escalar tornou-se um mantra, privacidade e bem-estar passaram a ser vistos como empecilhos para o futuro do Facebook. No começo da história da plataforma, Zuckerberg dizia que queria criar um “novo fluxo de informação”. Depois, passou a seguir ideias totalitárias. Para o cofundador da plataforma de rede social, não devem existir várias formas de se expressar e se comunicar na internet. Deve existir somente uma – via Facebook. “Assista ao seriado West Wing” (sobre o poder nos EUA), era uma recomendação que Zuckerberg fazia a todas as pessoas próximas. Durante as All Hands, reuniões gerais que acontecem toda sexta-feira à tarde, o clima passou a ser de campanha para uma guerra. Palavras como “conquistar” e “dominar” tornaram-se comuns. Dizia-se que o Facebook não tinha funcionários, mas soldados.

A ordem era sempre incorporar à plataforma de rede social qualquer coisa que poderia vir a ser um concorrente. Surgiu o Fourquareque permite fazer checkins? Tenta-se emular a mesma funcionalidade e embuti-la no Facebook. Foi aí que nasceu o Places. A ideia era engolir a concorrência o mais cedo possível e não deixar o “mercado respirar”. Um estilo de gestão competitivo e agressivo, não muito diferente do adotado pela Microsoft em seus tempos áureos.

Zuckerberg chegou a pedir que Losse escrevesse um post em que ele afirmava que, se você quisesse conquistar o mundo, deveria fazer isso por meio de uma empresa e não governando uma nação. Segundo Losse, outros funcionários do Facebook tinham a mesma percepção negativa que ela, porém, havia o medo de torná-la pública. Críticas ao Facebook eram vistas como uma traição, como se o funcionário estivesse cuspindo no prato que comia. As próprias reclamações dos usuários não eram bem recebidas. O “usuário que reclama” era visto como uma pessoa que não entendeu a “missão da empresa”.

Mensagens de teor erótico

Para a ex-funcionária, essa situação aversa a críticas acontece por uma razão simples. Muitas vezes o que você tanto critica é justamente o que deseja ser. O Facebook surgiu como um contraponto às fraternidades exclusivas e fechadas da Universidade de Harvard. Por ironia, o Facebook acabou se tornando uma, tendo Zuckerberg como o seu criador. The Boy Kings não tem o alcance do filme Social Network(A Rede Social), mas também promete contribuir para aumentar as especulações em torno da plataforma e da imagem do cofundador do Facebook.

O Facebook é guiado por uma meritocracia. Funcionários da área técnica têm mais relevância e definem as regras. Internamente há uma nítida divisão social. Engenheiros oriundos de Harvard e Stanford ganham mais e têm cargos de diretores. Poucos colocam a mão na massa. Enquanto que funcionários de origem asiática e latina são os que ganham menos e mais trabalham até horas mais tarde, programando e fazendo outras atividades mais rotineiras. Semelhante a outras fraternidades, as garotas são poucas. Segundo Losse, o Facebook é administrado como um escritório dos anos 50 – mulheres, principalmente as que não são da área técnica, ficam em segundo plano.

No aniversário de Zuckerberg, garotas foram obrigadas a utilizar camisetas com o rosto dele estampado (neste dia, Losse faltou de propósito ao trabalho). Há ainda situações como a de um engenheiro ser conhecido por propor ménage à troiscom novas funcionárias e de outro ter uma postura nitidamente agressiva com gerentes de produto do sexo feminino. O IM (instant messenger) era o principal meio de comunicação interno. Era comum durante o trabalho, garotas receberem mensagens de teor erótico. Alguns programadores enviam a esmo convites para sair. Caso uma garota aceitasse, seria lucro.

Um poder que “meros mortais” jamais teriam

Em um churrasco com engenheiros, Zuckeberg disse em alto e bom som que saiu com uma garota que era modelo e muito gostosa, no entanto era burra. E que agora preferia namorar uma garota que realmente fosse inteligente (mas feia). Enfim, para a ex-funcionária, o Facebook era um clube do bolinha. A vida não era fácil para quem era do sexo feminino. A situação começou a mudar um pouco com a entrada de Sheryl Sandberg, atual vice-presidente de operações (considerada a babá do Facebook).

No melhor estilo fraternidade, o Facebook adota a política “ou você segue a nossa linha ou cai fora”. É uma quase religião. Funcionários recebem subsídios para morarem perto da sede do Facebook e assim poderem trabalhar mais vezes até tarde. Sair mais cedo não é bem visto. Publicar pouco no Facebook também não. Falar mal da plataforma, nem pensar.

Losse percebeu o quanto o Facebook era uma fraternidade quando anunciou a sua saída. Zuckerberg e Sandberg passaram a olhá-la com um ar frio e pararam de falar com ela. Semanas antes de sua saída, sua mesa e pertences foram retirados do andar onde ficava Zuckerberg. A sensação era de ser uma traidora. A sua saída foi um susto para o cofundador do Facebook, pois mostrou que ele não tem o controle de tudo. Losse tinha o importante papel de fazer com que as pessoas acreditassem que o Facebook era o suprassumo da existência humana.

As memórias positivas de Losse vêm do tempo em que entrou no Facebook, em 2005. O que deixava os funcionários de ressaca era a sensação de estar mudando o mundo. Trabalhar no Facebook dava uma percepção de poder, mas um poder que era somente seu, os usuários e os “meros mortais” jamais o teriam.

Tecnologias estéreis

Por muitos anos, Losse teve o super access, o qual permite acessar as informações – mensagens, fotos, vídeos – de qualquer usuário, independente do nível de privacidade configurado pela pessoa. O acesso é utilizado para fazer pesquisas de perfil, deletar certos conteúdos e evitar ações fora da política de uso.

A ex-funcionária acompanhou de perto o desenvolvimento de funcionalidades que nunca foram ao ar. O Dark profile pretendia transformar o Facebook numa espécie de “wikipedia de pessoas”. Independente de estar ou não cadastrado, como padrão todo mundo teria um perfil e mural de mensagens no site. Você poderia ativar ou não oficialmente esse perfil. Já o Facebook credits seria uma forma de retribuir uma mensagem. Em vez de um “curtir”, poderia enviar dinheiro virtual, que teria o correspondente em dólar, para uma pessoa.

Após a leitura de The Boy Kings, duas coisas ficam bastante evidentes em relação ao Facebook.

** O Facebook caminha para ser um two sided business

Da mesma forma que a Casas Bahia se apresenta ao mercado como uma loja de móveis, mas é uma financiadora; ou a Boticário, que se expõe como uma perfumaria/cosméticos, mas, na realidade, está no mercado de presentes, o Facebook caminha para ser uma empresa de dados, mas que se apresenta ao mercado como uma plataforma de rede social.

** O Facebook entra na categoria de tecnologias estéreis

Os usuários do Facebook não têm muita escolha. São obrigados a utilizar o produto como o fabricante deseja. No relato dos bastidores de lançamento de diversas funcionalidades, Losse revela que as reclamações dos usuários não guiam muito as decisões do Facebook. É claro, existem vantagens e desvantagensem utilizar um tipo de tecnologia que é considerada estéril.

Muitos chamados e poucos escolhidos

The Boy Kings não é o melhor livro da nova safra escrita por ex-funcionários de empresas. The Confessions of Google Employee Number 59é bem mais completo e menos repetitivo. O livro de Losse versa mais sobre fofoquinhas do trabalho do que um rigoroso raio-x de como funciona o dia-a-dia do Facebook.

“Desglamourizar” talvez seja a expressão que melhor resume The Boy Kings. Losse tira todo o verniz de se trabalhar no Vale do Silício. Mostra que, na realidade, a grande maioria trabalha muito, ganha pouco, come mal e não tem nenhuma estabilidade. A história de milhões de dólares faz parte da biografia de somente alguns. As empresas badaladas de tecnologia não diferem de outros setores da economia. Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos.

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[Tiago Dória é jornalista]

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