Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ARMAZéM LITERáRIO > ESTANTE

Uma escritora de gana

Por Érico San Juan em 31/07/2012 na edição 705
Fresta por onde olhar, Ana Elisa Ribeiro, 64 pp., Editorial Interditado, 2008

Impregnado de uma aura suína, que os analfabetos funcionais chamariam de “espírito de porco”, sempre me borrei de medo de poetas. E fujo deles como o diabo da cruz. Fosse este escriba um poeta, jamais declamaria um verso-clichê envolvendo diabos e cruzes. Mas passemos ao próximo parágrafo, para me livrar um pouco da pecha de medroso.

Na percepção imbecilizada dos não-leitores de poesia, o poeta não passa de um bicho amorfo e lamentoso. Escondido e suspirante no seu cantinho abandonado da casa: o quarto de despejo transformado em escritório. O incapacitado a aceitar as segundas intenções de um praticante da poesia não passa de um ingênuo. Na sua ignorância presunçosa, pensa que é superior ao senhor das torres de marfim, ao rei das metáforas do ser e do estar.

Os poetas tradicionais, que a Geração Y fez o favor de transformar em autores de frases de efeito fast-food, foram devidamente devorados por este cartunista. Como muitos leitores de poesia erráticos e ocasionais, li Vinicius de Moraes e Fernando Pessoa. Arrisquei leituras esparsas de Mario Quintana, “poeta-fofo” da vez. Sorvi hai-kais de Millôr Fernandes à cowboy. Encarei João Cabral de Melo Neto com a garganta seca. E espiei a expiação bem-humorada de Manoel de Barros num documentário que só vendo. E só.

Petardos poéticos

A verdade é que fujo de poetas por convicções capricornianas. Porém, dotado de uma cara de pau superior ao meu cagaço, finalmente encarei um livro de poesia sem neuras preventivas. O livro se chama Fresta por onde olhar. A autora é Ana Elisa Ribeiro. Com esse nome de professora, Ana só podia ser uma mestra, de vasta carreira acadêmica em suas Minas Gerais. Antes dos dois pós-doutorados, das atividades literárias e do filho, teve curta carreira de vocalista de banda de rock. O que talvez explique a fúria, a ironia e o vigor de sua poesia.

A cada poema do livro Fresta por onde olhar, parei para respirar fundo, contar até dez e seguir em frente. Ana Elisa expõe sentimentos intensos e complementares, dignos de uma alma feminina legítima. Não que almas femininas não tragam o imprimatur de sua condição essencial. Mas a autora nada tem de dissimulada. E dá-lhe tapa na cara do leitor. Haja tapa no homem amado sem luva de pelica. E durma-se com um barulho desses. Barulho de uma mulher que confessa a necessidade de compartilhar-se. E suporte-se tal furacão de ironia incontida. Ironia que, longe de humilhar o parceiro de vida, coloca-o no seu devido lugar.

Certos petardos poéticos deveriam vir com adicional de insalubridade no preço final, feito um imposto revoltante, mas necessário. Com o riso vitorioso de uma artista nada previsível, Ana talvez concedesse licença poética a tamanho absurdo.

***

[Érico San Juan é cartunista, Piracicaba, SP]

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