Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > SENHOR

Revista inaugurou a era dos editores e do design nas revistas

Por Paulo Werneck em 14/08/2012 na edição 707
O melhor da Senhor, Ruy Castro e Maria Amélia Mello (orgs.), Imprensa Oficial de São Paulo, 2012; R$ 120,00; reproduzido da Folha de S.Paulo, 7/8/2012; título original: “Senhor inaugurou era dos editores e do design nas revistas”; intertítulo do OI

Aos 33 anos, Nahum Sirotsky liderou o grupo que fez das 59 edições da revista Senhor (1959-64) uma obra de arte. A equipe, em média, não passava dos 30 anos e era composta por gente como Carlos Scliar, diretor de arte, e Paulo Francis, editor. Falar da Senhor é, fatalmente, desfiar uma enxurrada de nomes que sempre parece incompleta. “Todo mundo que sabia escrever no país passou pela Senhor”, resume Ivan Lessa.

Dois de seus leitores mais empolgados – o colunista da Folha Ruy Castro e Maria Amélia Mello, editora do selo Civilização Brasileira, do Grupo Record – editaram um best of da revista, hoje tão cult quanto desconhecida. De quebra, há um making of com ex-integrantes. A palavra-chave, mostra o livro, era edição. Ou seja, a conversa de alto nível entre texto, ilustração e design. “A palavra ‘editor’ foi popularizada pela revista”, assinala Francis em seu texto, artigo de 1992 publicado no jornal O Estado de S. Paulo.

Sirotsky chegou a dizer que, até então, “não existia a tecla de deletar” nas revistas brasileiras. Nem a palavra design. Diagramação, como se dizia, hoje é um termo quase pejorativo. E como “não há diagramação brilhante que salve matéria chata”, na definição de Scliar, os editores não se acanhavam em passar a borracha em textos de medalhões.

“O ponto alto da revista era o almoço”

“Clarice [Lispector] reagia com a maior naturalidade e às vezes reescrevia passagens que terminava reconhecendo obscuras”, anotou Francis. Virou folclore a negativa que Erico Verissimo, já um senhor escritor, levou de Nahum. “Rejeitei até a mim mesmo!”, disse o editor. “Eu não era bom o bastante para a Senhor.” Francis confirma o rigor que imperava: “Às vezes ‘perdíamos’ os artigos de colaboradores ilustres que nos infligiam parlapatices.” “Não é que sempre tinham cópia, prontinha, que mandavam por chofer? Então só havia o recurso do engavetamento e a conquista da inimizade de gente importante.” Exceto pelos já tradicionais problemas com autorizações (Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues), O Melhor da Senhor faz jus ao nome e contém poucas “parlapatices”.

Ruy Castro registra o embate entre Francis e Newton Rodrigues, “que ameaçou tornar Senhor uma revista mais pesada e sisuda”. Não era para menos: com a radicalização política, a coabitação de figuras como o então esquerdista Ferreira Gullar e o liberal Roberto Campos estava com os dias contados.

A luta entre os textos chatos, “mas importantes”, e as delícias como as de Ivan Lessa no livro (“o ponto alto da revista, para este criado que vos fala, era o almoço”), prossegue na nossa imprensa cultural, sabe-se lá até quando.

***

[Paulo Werneck é editor da “Ilustríssima”]

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem