Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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ARMAZéM LITERáRIO > ABÍLIO COUCEIRO

Enquanto ainda é tempo

Por Lúcio Flávio Pinto em 23/10/2012 na edição 717
Reproduzido do Jornal Pessoal nº 523, 2ª quinzena/outubro 2012; intertítulos do OI

A história de Abílio Diogo Couceiro se confunde com a história do rádio, da televisão e da publicidade no Pará – e do Paissandu, com o qual nenhuma outra família se identificou mais. Por meio século Abílio espalhou seu talento, seu humor, sua simpatia e sua generosidade por todos esses setores da vida no Estado, sobretudo em Belém.

Infelizmente, escreveu pouco a respeito dessa rica e multifacetada experiência, como tem sido a regra na biografia dos personagens históricos da terra. Para recuperar a memória desses tempos, marcados pela força das individualidades, Abílio ainda teve saúde e lucidez, aos 77 anos, para dar um testemunho oral sobre esse período rico, desconhecido e já arquivado pelos contemporâneos.

O jornalista e sociólogo José Carneiro transformou suas conversas com Abílio no livro Tempo de Lembrar (Marques Editora, 316 páginas). Talvez a amplitude de interesses e participações do personagem não tenham permitido aprofundar cada segmento tratado nos limites do espaço e do tempo disponíveis para a empreitada. Ficou, ainda assim, um roteiro para novas abordagens específicas que tomarão o livro como referência indispensável.

Crise da borracha

O tema provavelmente mais importante é o nascimento da televisão no Pará. A TV Marajoara começou a funcionar em 1961, 10 anos depois da chegada da nova mídia no Brasil, atrasada de uma década em relação aos Estados Unidos. A defasagem, contudo, foi mais temporal e tecnológica do que exatamente de qualidade. A Marajoara começou com um padrão raro no país.

Esse nível se deve a Péricles Leal, um paraibano mandado da TV Ceará para Belém por Assis Chateaubriand, o Cidadão Kane nacional, sob certo ângulo ainda mais influente em sua época do que Roberto Marinho viria a ser. Depois de ter lançado os jornais A Província do Pará e Vanguarda e a Rádio Marajoara, nos anos 1950, Chatô deu o pulo para o meio de comunicação mais moderno no seu feudo paraense.

A presença de Péricles foi tão marcante que Abílio admite: “isso daria um livro que um dia – quem sabe – ainda possa escrever”. Tomara que escreva logo. Poderá assim desenvolver as observações e enriquecer as informações que fornece nas conversas com Carneiro. Desde o Curso de Preparação de Equipes de Televisão, que adestrou tecnicamente todos os contratados, até a formação da nova dramaturgia, reunindo nomes como Maria Sylvia Nunes, Maria Helena Coelho, Valdyr Sarubi de Medeiros, Raymundo Mário Sobral e o próprio Abílio.

O auge da TV Marajoara aconteceu até o início do fechamento político no Brasil. Os militares planejaram substituir o império dos Associados pelo da Globo, o que acabou por liquidar arbitrariamente a primeira televisão paraense, fechada sem fundamento legal em 1980. Os tempos já não eram arejados.

Abílio relata as aventuras exigidas dos integrantes da emissora para cumprir a programação definida pelo diretor geral. Seus parâmetros eram tais que a Marajoara esteve na linha de frente do teleteatro nacional, graças aos criadores e intérpretes que reuniu. Eles vieram do rádio e do meio intelectual.

A Rádio Clube do Pará foi a quinta emissora do broadcast brasileiro, por puro impulso da vontade. Vivendo as dificuldades do vácuo deixado pela crise da borracha, que acentuou seu isolamento do restante do país, a emissora se valia da improvisação e criatividade dos seus integrantes. Eles aproveitavam melhor a chegada de líderes como Péricles Leal.

Registro impresso

Abílio dá um exemplo das dificuldades que os publicitários tinham para criar sob um regime político controlador e repressor da criatividade, do livre exercício da imaginação. O produto que nascia da prancheta com uma concepção era recebido de outra maneira pelo crivo do censor ou da autoridade militar.

Foi o que aconteceu quando ele fez um anúncio para a primeira página da Folha do Norte, em 1970, na comemoração do 7 de setembro. O anúncio continha o desenho de uma bandeira tremulando e os dizeres da homenagem à pátria, tudo perfeitamente enquadrado no espírito da época (ou na falta dele), ainda mais porque à frente da Folha estava o marechal Augusto Magessi.

Abílio não podia imaginar qual a razão de ser chamado ao SNI pelo general Gama, que comandava o Serviço Nacional de Informações em Belém. Muito gentil, ele queria saber “como surgiu a interferência da Esso na campanha que eu tinha feito”. O anúncio nada tinha a ver com a Esso: era da Olpasa (fábrica de óleos comestíveis), de Nelson Souza, que fez fortuna no regime anterior, mas ainda conseguiu manter-se nos primeiros anos do regime militar, apesar de reservas ao seu nome .

O general pegou então o anúncio e o mostrou para Abílio, destacando a frase que podia ser lida: “ordem e esso”. De fato, era isso, mas como efeito do tremular da bandeira, que engoliu o “progr” da divisa. “Ele pediu que eu fizesse a explicação por escrito, o que acabei fazendo, a despeito do absurdo que me pareceu aquele pedido”. Não tanto: afinal, Abílio recebeu um ofício do general Darci Lázaro, comandante da 8ª Região Militar, “agradecendo a homenagem”.

Só agora o episódio tem seu registro impresso. Como ele, muitos outros fatos aos quais Abílio Couceiro se reporta nessa indispensável fonte de referência sobre a história recente no Pará.

***

[Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)]

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