Segunda-feira, 21 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Onde o rádio começou

Por Regina Casé em 20/11/2012 na edição 721

Casé é uma coisa que a pessoa é ou não é.

Eu sou Casé.

Meu avô viveu 90 anos, 60 e tantos deles com minha avó Graziella.

As bodas de prata, de ouro, de diamante, a que assistimos, nos ensinaram muito sobre a vida, sobre o amor.

E principalmente sobre a diferença.

Como puderam conviver, tantos anos, pessoas tão diferentes? Como podem, quaisquer homem e mulheres, conviver tantos anos? Ou pior, como podem um homem e uma mulher, duas coisas tão diferentes, se amar tantos anos? E que amor…

Ele, do norte. Ela do sul.

Ela, a pessoa mais calma que já conheci em toda a minha vida. Ele, a pessoa mais agitada, impaciente e esquentada que já vi.

Ela, mariana fervorosa. Nunca vi tanta intimidade com Nossa Senhora. Ele, ateu convicto. Só foi batizado adulto, e logo tornou-se o “chefe da paróquia”, indo à missa todos os domingos, comungando, organizando das finanças à fogueira das festas de São João da igreja.

Os dois trabalharam desde criança e sabiam como era difícil e bonito o Brasil.

Enquanto ela, professora primária, trabalhava com Cecília Meireles e Anísio Teixeira, na primeira biblioteca infantil (“Fiquei tão triste, ‘eles’ estragaram tudo dizendo que Anísio era comunista, logo ele, tão bonzinho”), ele virava camisa verde, equivocado, pensando ter chegado de Caruaru sozinho e vencido. Era um caso comum de mobilidade social, daqueles que, mesmo nos Estados Unidos, só acontecem nos filmes de Frank Capra.

Achava que, pra ficar rico, era só trabalhar, que só é pobre quem é vadio e preguiçoso. Não conseguia ver que sua história era atípica, rara, e sua ascensão, fruto de um talento, uma criatividade, uma determinação e uma capacidade de trabalho quase sobre-humanos.

“Árvore pedrenta”

Brigamos muito por causa disso na minha adolescência.

Nós dois, com a mesma cabeça chata e dura. Eu não conseguia entender a sua dureza e me revoltava e brigava. Não que isso fizesse muita diferença, porque um beijo do vovô era um tranco. (Até nisso ele mudou. Com o tempo, tivemos momentos lindos de carinho.)

Ele queria uma revolução. Qualquer uma. Ela, a caridade no seu sentido mais nobre.

Eles moraram quase toda a vida nas imediações da Rua Santa Clara, em Copacabana, e eu tenho a nítida lembrança dos mendigos, dos aleijados, dos cegos, das feridas sensíveis expostas até hoje na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Naquele tempo, quando saía às compras com meus avós, lembro como era difícil encarar aquelas pessoas quando minha avó (que dava esmola para absolutamente todos os pedintes) me dizia: “Leve o dinheiro para ele, mas não jogue na cuia, olhe para ele, converse com ele, pergunte o nome dele. Você não pode fingir que ele não está lá…”

Meu avô, mais ainda, me ensinou a ver tudo. Ir à pescaria com ele era enfiar a mão na vida. Ou então, ir à feira ou ao mercado. (Ele ia sozinho até os 90 anos, fazer as compras da casa). Me lembro dele, no ano de sua morte, passando com suas sacolas carregadas, e eu, no carro. Não tive coragem de chamá-lo, para não estragar o ritual tão bonito.

Ele, que sempre amou o mercado, a feira de Caruaru, a de Copacabana, o sol, a carne de sol feita em seu apartamento. Ele, que no seu programa fazia o que, hoje, um prédio inteiro faz. Do comercial ao artístico.

Vinha pensando na música que ia sugerir ao artista; andando pela rua tinha uma ideia, entrava na Drogaria Granado e oferecia o patrocínio (melhor, arrumava o dinheiro para pagar o pianista) e, assim, ia fazendo todo o possível.

Não é à toa que eu faço a feira toda sexta-feira, que vou ao mercado em toda cidade a que chego, que eu tenho um cachorro grande, um coelho, um gato, um cágado, um altar para Nossa Senhora, um presépio caprichado. Adoro fogos de artifício, trabalho que nem uma louca, do figurino ao texto, passando pela divulgação e o comercial. Gosto de carro grande, faço caderno com papel velho (minha avó fazia com papel de pão passado a ferro e amarrado com barbante). Não é a toa que eu gosto de rezar, gosto de ensinar, gosto de inventar, gosto de brigar e, pra mim, não tem festa como a de São João.

Minha avó me ensinou o mel, a rebuçar a pedra. Meu avô, a educação pela pedra. Agora, eu sou grande. Eu sei achar o mel no oco da árvore. “Dessa árvore pedrenta (o sertanejo) incapaz de não se expressar em pedra”, como diz seu conterrâneo João Cabral de Melo Neto, outro pernambucano terrível.

***

Introdução

Rafael Casé *

O ano é 1942. O dia, um domingo. É cedo, mas estão todos reunidos em volta de um aparelho de rádio: pai, mãe, crianças, avó, vizinhos e até aquela tia solteirona que mora no subúrbio, mas que não perde um almoço domingueiro, nem a oportunidade de se deleitar ao som dos grandes astros do broadcast nacional.

As válvulas esquentam e o chiado toma a sala, enquanto o dono da casa gira o botão da sintonia. De repente, uma longa sireno corta o silêncio da sala e deixa todos em polvorosa. Em seguida, surgem os acordes do pasodoble Gallito (1) e o speaker anuncia:

“A PRA 9, Rádio Mayrink Veiga, 1220 quilociclos, tem a honra de apresentar…o Programa Casé!!! O mais tradicional programa radiofônico do Brasil, comemorando, hoje,dez anos de existência. De agora, nove da manhã, até a meia-noite, os senhores vão poder acompanhar a mais incrível reunião de estrelas da música, do humor e do rádio-teatro. Vão viajar aos mais suntuosos salões dos palácios austríacos com o quadro Valsas Inesquecíveis. Vão se deleitar com a melodia brejeira dos Arranjos de Pixinguinha e com o horário dedicado às Imagens Sonoras do Brasil.”

E o locutor não para por aí.

“Para os irmãos lusos, um momento de emoção em Cantigas de Portugal. O riso vai nos tomar de assalto nos horários dedicados a Alvarenga e Ranchinho, a Lauro Borges e na Hora do Pato. E, num oferecimento do sabonete Vale Quanto Pesa, vamos acompanhar o desenrolar de mais um caso policial verídico adaptado pelo brilhante Berliet Junior, na série que já é uma febre em todo o país: Defensores da Lei. Podem acreditar, distintos radio-ouvintes, as atrações ainda não terminaram. As composições de Grieg, um dos gênios da música clássica, vão estar representados por um concerto para piano e orquestra, tendo como solista o virtuose Geraldo Rocha. E é lógico, diletos senhores, que os maiores nomes da música brasileira estarão cantando no Casé, até mesmo artistas exclusivos das rádios Nacional e Tupi já se encontram em nossos estúdios. Os senhores vão poder aproveitar ao máximo interpretações de Almirante, Sílvio Caldas, Francisco Alves, Lamartine Babo, Marília Batista e tantos outros. Será sem dúvida alguma, um dia de glória para o rádio brasileiro. E os senhores são nossos convidados de honra. No ar: o Programa Casé!!!”

Trilha de surpresas

O Programa Casé, um dos pioneiros do rádio brasileiro, chegava aos dez anos de vida com força total. Numa emissora importante como a Mayrink Veiga, Ademar Casé demonstrava dinamismo e mantinha seu ritmo de constantes inovações que, desde a década de 30, mudaram a cara do rádio nacional e fizeram com que ele se transformasse num meio de comunicação moderno e dinâmico, nos mesmos moldes das emissoras norte-americanas ou europeias. O Casé deu novo ritmo à sonolenta programação radiofônica dos anos 30, abriu espaço para músicos e intérpretes brasileiros, levou a música clássica e o teatro para frente dos microfones e revolucionou a história da propaganda com a criação de jingles e peças publicitárias destinadas apenas ao rádio.

Durante aqueles últimos dez anos, tinha sido assim. O Casé fazia escola. As novidades que surgiam no programa eram imediatamente adotadas por outras emissoras. Por isso mesmo, o rádio chegou aos anos 1940, mais atuante do que nunca.

Os programas reuniam esforços para tentar superar de todas as formas a concorrência. A audiência era maciça. Não ter um rádio ou, pelo menos, não ouvir os programas, nem que fosse na casa de vizinhos, amigos ou parentes, era estar fora de sintonia com a sua época.

No início da década, mais precisamente no ano de 1942, Ademar teve a certeza de que trilhava o caminho certo. Um caminho que, vinte anos antes, não lhe parecia proporcionar grandes ambições, mas que se mostrou cheio de surpresas e acontecimentos que mudaram o destino desse pernambucano que, como tantos outros irmãos nordestinos, um dia, sonhou em ganhar a vida na cidade grande.

Convido vocês, então, para, como eu, soltar a imaginação e viajar nas ondas do rádio até o começo de nossa história no, já distante, ano de 1922. (* Rafael Casé é jornalista)

***

[Regina Casé é atriz e apresentadora de TV]

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