Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

ARMAZéM LITERáRIO > MESTRE DO TRAÇO

Misteriosos caminhos de Steinberg

Por Janet Maslin em 24/12/2012 na edição 726
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 21/12/2012, tradução de Celso Paciornik; intertítulos do OI

O que dizer de uma biografia quando a descrição da autora sobre seus métodos de trabalho são mais reveladores que seu texto? Essa é a situação de Saul Steinberg – A Biography (Nan A. Talese/Doubleday, 732 págs., US$ 40), um livro árido, erudito, repleto de informações, mas absolutamente inerte. Sua autora, Deirdre Bair, fez trabalhos muito melhores antes, incluindo seu livro sobre Simone de Beauvoir e sua biografia de Samuel Beckett, agraciada com o National Book Award. Mas, no que toca a Steinberg (1914-1999), ela é inapelavelmente constrangida pelas circunstâncias em que fez sua pesquisa e escreveu.

Como muitos antigos leitores da The New Yorker, Bair foi cativada pela arte imensamente inteligente, enigmática, de Steinberg, que apareceu em tantas capas da revista. Mas ela não pensou realmente em Steinberg até ver duas exposições de sua obra em 2007.

Isso a colocou no caminho do livro, para o qual começou a fazer uma vasta pesquisa. E ela acabou tendo acesso a 177 caixas de documentos, centenas de entrevistados e mais de 400 desenhos. Infelizmente, boa parte desse material não é aproveitada em Saul Steinberg. A ultrazelosa Saul Steinberg Foundation prestou um enorme desserviço a Steinberg ao obrigar Bair a parafrasear documentos e negar-lhe o direito de reproduzir mais do que alguns exemplos de sua arte.

Imagem chocante

Esses obstáculos poderiam não ter sido totalmente insuperáveis, mas Bair fez um trabalho raso na paráfrase e mostrou pouco discernimento crítico sobre os muitos tiques, motivos e obsessões que percorrem a obra de Steinberg. Ela também não conseguiu transmitir nenhum senso do alardeado carisma de Steinberg – embora, como diz num posfácio, os entrevistados tipicamente sorriam ante sua memória e diziam coisa como, “Que homem maravilhoso ele era, e ah, a falta que sinto dele!” O homem maravilhoso está ausente de Saul Steinberg. Em seu lugar, está um misantropo áspero e turrão, que de alguma forma se fez popular entre muitos figurões descartáveis.

Mesmo quando tem alguma pepita de informação provocativa, Bair tende a anexá-la à sua biografia sem comentários. Por exemplo, ela menciona que quando Steinberg fez uma viagem memorável à União Soviética, em 1956, houve uma noite em que “ele foi para a cama cedo para ler Os Irmãos Karamazov e ficou encantado de ler na introdução que o pai de Dostoievski havia sido assassinado durante uma revolta camponesa”. A viagem é importante, como muitas das viagens incansáveis de Steinberg, por causa das vistas que observou e das imagens que mais tarde surgiriam em sua arte. Mas Saul Steinberg oferece listas de lavanderia, itinerários e minúcias (“mais tarde ele comprou uma gravata da qual não gostou e um chapéu bobo contendo uma bússola”), em vez de análises incisivas.

Este livro muito longo começa com a infância de Steinberg na Romênia, onde estava agudamente antenado para o antissemitismo que o acabaria obrigando a deixar a Europa. O livro descreve um exemplo extremado de mãe judia, que o incomodou até seus anos adultos – “Fiz um grande arranha-céu com algumas pessoas saltando do telhado”, ele escreveu, um dia. “Famílias inteiras caindo com dignidade.” Bair trata isso quase como um aparte. Ela não tem virtualmente nada a dizer sobre essa imagem chocante.

Problemas dentários

O livro descreve Steinberg estudando arquitetura em Milão, emigrando para a República Dominicana e depois chegando aos Estados Unidos em 1942, a tempo de ser alistado na Marinha e, por ordem de Wild Bill Donovan, o diretor do Departamento de Serviços Estratégicos, criar desenhos que serviriam para instrução e propaganda. Descreve também sua atração por Hedda Sterne, a colega artista romena com quem ficaria casado até o fim de sua vida, apesar da separação e do caráter mulherengo dele.

Hedda, cujas entrevistas a Bair fornecem o melhor material do livro, lança luz sobre a atração e as razões pelas quais sobreviveu a todas as provações. Quando já eram mais velhos, Hedda explicou a Saul a base de sua amizade duradoura: “É porque somos as duas pessoas no mundo que mais amamos você.” Há também um relato desalentadoramente vago sobre a “guerra de 35 anos” de Steinberg com Sigrid Spaeth, a beldade alemã, muito mais jovem, que ele começou a cortejar em 1960. O livro cita a poderosa atração entre eles; a ansiedade de Steinberg para esconder ou modificar Sigrid depois que ela desenvolveu um estilo hippie, de drogada; suas intermináveis rupturas e reatamentos; e a profunda depressão que afligiu a ambos, sendo que Sigrid tornou-se uma alma especialmente perdida (numa era em que qualquer celebridade de terceira mão está presente na internet, Spaeth, que cometeu suicidou em 1996, não existe na Wikipédia).

Mesmo aqui, com um longo e conturbado caso de amor a descrever, Saul Steinberg é frustrante. Sigrid nunca entra no foco, apesar de ficarmos sabendo que “ela gostava de brincar que a única participação de seus pais em atividades nazistas talvez tivesse sido atirar uma ou duas pedras na janela de uma empresa judia na Noite dos Cristais”. Uma anedota sobre seu mau comportamento numa festa tem algo a ver com um Giacometti num banheiro, mas Bair se recusa a dar detalhes. Saul Steinberg também oferece muito – demais – sobre os persistentes problemas dentários de Steinberg.

Entre a percepção e a compreensão

O livro lista as muitas encomendas comerciais e publicitárias lucrativas que ele assumiu sem nem sequer descrever que tipo de cartões Hallmark ele criou. Ele se esforça para captar o senso de humor de Steinberg na vida real (uma brincadeira: plantar flamingos ornamentais em gramados de amigos, depois declarar: “Agora é uma marca de distinção ter um flamingo plantado por mim!”) sem reconhecer as imagens mordazes, provocadoras, enganosamente decorativas que ele criou.

“É com isto que eu estou brincando”, disse ele uma vez argutamente invocando os espíritos afins de Stendhal e Joyce, “a viagem entre percepção e compreensão”. Nenhum dos pensamentos obsequiosos de Bair sobre Steinberg chega perto desse inspirado resumo.

***

[Janet Maslin, do New York Times]

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