Domingo, 17 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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ARMAZéM LITERáRIO >

O homem que coleciona entrevistas

Por João Máximo em 26/02/2013 na edição 735

Simon Khoury não entrevista – “desnuda os atores entrevistados”, disse o crítico Sábato Magaldi ao comentar os livros da série “Bastidores” iniciada em 1983. Nada menos de cinco novos volumes, lançados na segunda-feira (27/2), na Travessa do Leblon, acrescentam 15 entrevistas às mais de 500 que já realizou, a maioria em gravações inéditas.

Radialista, jornalista, pesquisador, colecionador, ator, a grande paixão de Simon Khouri, 77 anos, é mesmo o teatro. Mas sua carreira de entrevistador começou no rádio, veículo que é parte de uma tradição familiar. Para a Rádio Jornal do Brasil, ele ouviu quem se possa imaginar, de Pixinguinha a atores, cineastas, músicos, personalidades de outras artes, base de sua coleção. Suas entrevistas são marcadas por indiscrições inteligentes, perguntas que por vezes desmontam o entrevistado, versando sobre amor, sexo, arte, vida, tudo, jamais faltando o humor. Poucos são os que, ouvidos por ele, deram em nada. Um deles, Baden Powell (“A mulher do homem se meteu na conversa e me fez desistir no meio”). Outra, Marília Pêra (“Ela quis censurar 40 por cento do que tinha me dito”). Outra mais, Maria Bethânia (“Quando lhe pedi a entrevista, ela me respondeu: ‘Vou ver o que posso fazer pelo senhor’. Nunca mais nos falamos. Além do que, prefiro Gal Costa, que me deu o prazer de entrevistá-la e, além de tudo, não semitona”).

Política e humor

A tradição familiar procede. Sua mãe, Anna Khoury, foi fundadora da Rádio Eldorado e da primeira FM do Brasil. Já o era militar em Trípoli, no Líbano. Com ordem para fuzilar três desertores, preferiu fugir com eles para o Brasil. Foi parar em Salvador e, depois, em São Paulo, onde conheceu um comerciante de antiguidades. Tanto Khoury como a filha do comerciante estavam noivos. Apaixonaram-se, romperam os respectivos noivados e se casaram.

Sobre os novos livros, no primeiro dos cinco há uma Lucélia Santos revisitada (Khoury garante ser, por causa de Escrava Isaura, uma das atrizes brasileiras mais conhecidas no exterior), uma Walderez de Barros que viveu sempre “no mundo da fantasia” e um Bemvindo Sequeira cauteloso ao receber pessoas obsessivas como o seu próprio entrevistador: “Morro de medo dessas pessoas que sabem tudo da gente, teria medo de que você fizesse comigo o que Glenn Close fez com Michael Douglas em Atração fatal”.

A nova coleção segue com Juca de Oliveira, Tânia Alves e Maria Pompeu. A política pontua a entrevista de Juca: “Fui iludido, magoado, espezinhado pelos políticos. Todos eles que tiveram meu voto se transformaram em batedores de carteira”. Tânia fala de sua fase mística (“…terminou quando tentei fazer um paralítico andar e dei com os burros n’água”) e recorda relacionamento com Madame Satã. Maria critica a imprensa. Acha que, mesmo que venha a lotar o teatro, “a imprensa vai preferir comentar com destaque um show dos Titãs ou do Capital Inicial”. No terceiro volume Khoury se reaproxima de outra de suas paixões, a música popular, através de Marlene. Ela divide espaço com Everton de Castro e Stella Freitas.

– Everton me telefonou da Flórida para se queixar de que o teatro está morrendo – conta Khoury. – Para ele, o Brasil de Renan, Collor, “gente que deveria estar na cadeia”, é o país de hoje. Stella lembra que o pai era do Dops. “Eu morava com o perigo. Amava meu pai e não concordava com ele em nada.”

Um livro para Paulo Autran

Ary Fontoura, Sílvia Bandeira e Francarlos Reis estão no quarto volume. Khoury refere-se ao último dos três como um grande homem de teatro que morreu cedo sem ter o reconhecimento que merecia, inclusive pelo humor, como nesta citação: “Perguntaram a Lula se ele gostava de Kafka e ele respondeu que preferia esfirra”. O quinto volume é dedicado a Ítalo Rossi, Teresa Amayo e Hélio Ary. De quem é esta confissão: “Os atores coadjuvantes são os melhores. Mas não sou interessante. Feio, bunda mole, braços compridos. Nunca amei ninguém e ninguém me amou. Graças a Deus”.

– Pedi ao Ítalo algumas palavras sobre o livro. Resposta: “O que você quer é elogio”. E desancou comigo. Elogio, mesmo, só às sobremesas do jantares em minha casa.

O maior ator brasileiro para Simon Khoury era e será sempre Paulo Autran, que figura num volume lançado em 2001. Está entre seus próximos trabalhos, talvez o mais acalentado, um livro inteiramente dedicado a ele. Que lhe revelou, entre outras coisas, que o ator é, basicamente, um solitário.

– Descobri isso viajando com ele pelo Brasil no elenco de Dr. Knock – lembra. – Tônia Carrero era sua grande paixão. Quando se descobriu com câncer na garganta, ficou arrasado. No dia em que viu Fernanda Montenegro brilhar num musical, o que ele já não se sentia capaz de fazer, pensou em se matar. Chegou a tentar. Não o conseguindo, desabafou: “Que falta de sorte! Não morri”. Mas se reergueu e, aos 85 anos, ainda fez Molière. Estava no auge.

***

[João Máximo, de O Globo]

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