Segunda-feira, 18 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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ARMAZéM LITERáRIO >

Respeitosa discórdia

Por Ricardo Lessa em 18/06/2013 na edição 751

Ninguém mais improvável para ocupar um posto de guarda-costas de Luiz Carlos Prestes, então líder máximo do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do que um magricela de escassos 52 quilos distribuídos em 1,75 metro de altura – e reflexos tão rápidos quanto os celebrizados pelo lendário baiano Dorival Caymmi. O trabuco Taurus 38 que lhe deram quase não parava dentro das calças. Mas foi para esse cargo, que acumulava com o de assistente, que o PCB, em 1945, indicou o baiano de Mucugê Armênio Guedes. Na época, estava com 27 anos, 10 de militância. Prestes acabara de ser libertado de 9 anos de prisão, beneficiado por uma anistia de Getúlio Vargas.

Nascia ali uma respeitosa discórdia, que permearia por décadas toda uma geração de intelectuais, como diz o poeta Ferreira Gullar em seu prefácio do livro “Sereno Guerreiro da Liberdade”, de Sandro Vaia, que a editora Barcarolla lança na segunda-feira, a partir das 18h30, na Livraria da Vila da alameda Lorena, em São Paulo.

A biografia de Armênio, hoje com 95 anos, vale “como retrato de um cidadão brasileiro do século XX que concebe a ação política como um meio de chegar à sociedade justa, fraterna, igualitária”, escreve Gullar.

A personalidade de Armênio, “mais flexível, de fala mansa e trato delicado”, na descrição do poeta, iria se confrontar com a de quem deveria guardar as costas: o rígido militar gaúcho Prestes, que já entrara para o partido como dirigente, pelas mãos dos então poderosos soviéticos.

Torcida militante

Entre 1945 e 1983, Armênio viveu como assalariado do Partido Comunista – do “ouro de Moscou”, como ele lembra, brincando – e se especializou em espalhar jornais e revistas pelo Brasil: “Seiva”, “Revista Continental”, “Tribuna Popular”, “Estudos Sociais”, “Novos Rumos”, “Voz Operária”, entre tantos títulos, até a “Voz da Unidade” nos anos 1980. Na direção do PCB, foi suplente, entre 1943 e 1954, do Comitê Central (CC), de onde foi afastado por “atitudes antissoviéticas”. Voltou para o CC em 1967, para organizar o partido no exílio, com sua primeira mulher, Zuleika Alambert.

O pano de fundo para essa biografia escrita pelo ex-diretor de Redação de “O Estado de S. Paulo” é o desenrolar do confronto dessas personalidades tão diferentes. Mas o embate era também de valores. O principal deles, do qual Armênio não abria mão, segundo Gullar, seu companheiro e amigo, “era a noção de liberdade, mais compatível com o regime democrático”. Isso poria Armênio em conflito permanente com Prestes.

O embate ficaria mais agudo nos anos 1970. Naquela época o mundo era dividido, grosseira e rigidamente, em dois blocos: o capitalista e o comunista. Os comunistas costumavam associar o conceito de democracia ao qualificativo burguesa, como se democracia fosse um modo de dominação inerente ao capitalismo. Depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, a divisão do mundo se esfumaçou, junto ao bloco comunista. E o ideal da democracia se espalhou pelo mundo. Sem adjetivos, como esperança universal.

Antes, porém, que a primeira pedra rolasse da muralha alemã, intelectuais europeus haviam começado a desmontar a barreira ideológica entre democracia e comunismo. Na vanguarda, os italianos de Enrico Berlinguer (líder do PCI) arriaram a bandeira “rossa” e hastearam a da esquerda democrática. Outros partidos europeus seguiriam o mesmo caminho.

Os ventos dessa mudança foram captados na Europa e trazidos para o Brasil pelo militante Júlio ou André ou tantos outros nomes que Armênio Guedes adotou durante 48 anos de militância, condensados por Sandro Vaia.

No livro, ele mostra de que forma Júlio – como Cecília Comegno, sua mulher, o chama até hoje – funcionou como uma antena no exílio parisiense, onde editava a “Voz Operária”, órgão oficial do PCB. Captava, ampliava e retransmitia as convulsões vividas pela esquerda europeia para atentos ouvidos de intelectuais brasileiros que passavam por lá ou estavam aqui, no outro lado do Atlântico.

Em 1979, uma entrevista de Armênio ao “Jornal do Brasil” (reproduzida no livro) serviu como senha para quem pretendia aposentar a velha cartilha partidária leninista e adotar a democracia como princípio, meio e fim.

Nessa entrevista, Armênio faz uma afirmação que serve como autocrítica da história do PCB: “Houve um certo tempo em que nós identificávamos liberdades democráticas com o poder da burguesia. Mas a verdade é que, pouco a pouco, a vida foi-nos mostrando que a democracia é algo importante, permanente, para o avanço da sociedade”. Era a pedra que faltava para fazer ruir a muralha ideológica. Mas ela se alojaria diretamente no sapato de Prestes, defensor, até a morte, do sistema liderado pela finada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Ele se deu ao trabalho de escrever uma “Carta aos Brasileiros”, em março de 1980, criticando aqueles que queriam se integrar, sem pretensões de dirigir, na luta pela ampliação da democracia no Brasil.

A relação com os soviéticos sempre opôs os dois dirigentes. Embora admirador da língua russa, que ainda arranha, Armênio jamais gostou da rigidez de hábitos adotados na extinta URSS, onde passou longas temporadas. Achava chatíssimas as excursões culturais programadas; recusava a visita a museus e a subserviência recomendada pelos dirigentes brasileiros. Permitiu-se até a gaiatice temerária de roubar uma taça da “dacha” de Stálin, que guarda como suvenir.

O conflito mais grave, porém, estourou entre os camaradas durante a Copa do Mundo de 1954. Os pró-soviéticos achavam que tinham de apoiar os times comunistas, enquanto Armênio defendia o Brasil. “Futebol está acima ou abaixo da luta de classes… de maneira que torço pelo Brasil”, justificou.

Gostos presentes

Quando o assunto era o Botafogo, o clima ficava ainda mais belicoso. Era o time do coração dele e de seu irmão Célio, o Celito, como era carinhosamente apelidado, o mais novo entre 11 irmãos, a quem lhe coube tutorar, de acordo com a tradição da família Guedes.

O caçula era ligado em esportes, cultuava a beleza física e aprendeu com o pai a lapidar diamantes, ofício que exerceu para ajudar a família depois da morte do patriarca. Celito também serviu a Prestes como motorista e guarda-costas. A morte, em 1972, desse irmão tão próximo, causou uma das maiores dores da vida de Armênio. Estava no Chile, quando soube da notícia, contou a Vaia: “… me mostraram um telegrama de Prestes. Ele me avisava que o motorista de uma missão – não falava o nome de Célio – tinha sido liquidado. Foi um choque tão violento que eu cheguei a ter um começo de pneumonia. Fiquei de cama quase um mês. Nesse período eu balancei… tive vontade de me afastar de tudo”.

Na versão oficial, Célio teria pulado do 7º andar do Cenimar. A da família é a de que ele foi morto sob tortura, no I Distrito Naval, em 15 de agosto de 1972. A lembrança da morte do irmão fica ainda mais dolorida para Armênio, porque ela poderia ter sido evitada. A direção do partido já sabia que Célio corria sério risco de ser pego pelos agentes da repressão, mas nem por isso teria cancelado a missão, conta o livro.

A frieza do telegrama de Prestes para seu companheiro fala muito das diferenças entre os dois. O livro dedica um capítulo especialmente a elas. Hoje o quase centenário Armênio comenta com tranquilidade e elegância: “As personalidades que mais admirei no partido foram João Saldanha e Oscar Niemeyer”. Sobre Prestes diz apenas: “Foi um grande lutador, mas péssimo político”.

Avesso a grandiloquências, Armênio talvez não se sinta confortável no papel de opositor histórico ao muitas vezes biografado “Cavaleiro da Esperança”. Mas certamente não vai se preocupar muito com isso. Atualmente prefere se dedicar à escolha entre ouvir Billie Holiday ou Prokofiev. Sem dispensar um bom papo de padaria.

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Ricardo Lessa, autor de “Brasil e Estados Unidos, o Que Fez a Diferença”, é jornalista e assessor de imprensa da Amcham Brasil

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