Terça-feira, 28 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº938

ARMAZéM LITERáRIO > ENTREVISTA / SILVIA BITTENCOURT

A história do jornal que desafiou o nazismo

Por Paulo Lima em 23/07/2013 na edição 756
A cozinha venenosa – um jornal contra Hitler, de Silvia Bittencourt, 373 pp., Editora Três Estrelas, São Paulo, 2013, R$ 49,90

Na história da imprensa ocidental, é provável que poucos jornais tenham demonstrado tamanha bravura na defesa intransigente da democracia como o Münchener Post. Na conturbada Munique da década de 1920, esse pequeno diário foi o primeiro jornal alemão a enxergar nas entrelinhas dos discursos de Hitler o perigo que este representava, quando ainda fazia suas primeiras aparições na cena política da cidade. Numa matéria de 14 de maio daquele ano, o Post mencionou pela primeira vez o futuro ditador, identificando-o como “um certo senhor chamado Hitler”. A partir daquele momento, o jornal passou a cobrir com regularidade as ações da organização nazista, denunciando seus métodos violentos como um caso de polícia – o jornal tinha tradição nesse tipo de cobertura –, numa cruzada para abrir os olhos da opinião pública.

Apesar do furo histórico, a trajetória do jornal é muito pouco conhecida dentro e fora da Alemanha. No entanto, um livro recém-lançado no Brasil pela Editora Três Estrelas vem suprir essa lacuna. A cozinha venenosa – um jornal contra Hitler, da jornalista brasileira Silvia Bittencourt, é o primeiro a falar com profundidade sobre a trajetória do Post. Silvia, que mora na Alemanha desde 1991, descobriu seu tema no livro Para entender Hitler, do norte-americano Ron Rosenbaum. Em um de seus capítulos, o livro faz uma referência à luta dos jornalistas do Münchener Post.

O título do livro de Silvia Bittencourt diz respeito ao modo como Hitler costumava chamar de forma depreciativa seu maior adversário na imprensa alemã – “cozinha venenosa” – pois o genocida dizia que o jornal preparava seus textos com veneno. Também o chamava de “peste de Munique“. O vespertino combateu sem tréguas o líder nazista ao longo de mais de uma década, de 1920 a 1933, quando Hitler se torna chanceler da Alemanha e determina a destruição do jornal, depois de anos de intimidação e violência contra seus repórteres. Muitos conseguiram fugir e se salvar. Alguns deles, como a fênix, renasceram das cinzas e retornaram à imprensa, ao final da guerra. Foi o caso do ex-editor de política Edmund Goldschagg, que se tornou em 1945 o fundador do Süddeutsche Zeitung, que circula até hoje na Alemanha. O próprio Post voltaria a funcionar em 1946 com alguns membros da antiga redação. Acabou fechando as portas em 1948.

O engajamento a partidos era uma característica de boa parte da imprensa alemã da época. O Post era o principal jornal socialdemocrata da Baviera. Tratava-se de uma publicação com poucos recursos e baixas tiragens, mas que em 1926 já contava com quarenta anos de existência. “É impossível entender as origens do Münchener Post sem considerar a história da social-democracia na Alemanha, que remonta à primeira metade do século 19”, escreveu Silvia Bittencourt. O livro traz um amplo histórico desse processo, situando a ascensão do nazismo no contexto geral da grave crise por que passava a Alemanha, com profunda fragilidade das instituições democráticas. “O Post abominava tudo que representasse uma ameaça à democracia que vigorava naquela época”, explicou Silvia nesta entrevista concedida por e-mail. Foi nesse cenário de ódios e paixões extremas que o Münchener Post atuou e imprimiu seu nome na história.

 

Em seu livro, você informa que a história do Münchener Post é pouco conhecida não só na Alemanha, mas fora dela. Você enfrentou muitas dificuldades para realizar essa pesquisa?

Silvia Bittencourt – Não muitas. Em Munique você encontra quase toda a coleção do Post em microfilme – e os textos do jornal formaram a matéria-prima do livro, trazendo não só informações sobre os acontecimentos, mas também mostrando a opinião do jornal e o seu desespero à medida que a luta contra Hitler se acirrava. Além disso, os arquivos são superorganizados. Lá tive acesso a vários documentos importantes, como atas de processos, depoimentos, boletins policiais etc.

O fato de seu livro ser o primeiro a abordar o tema em profundidade pela primeira vez a intimidou?

S.B. – Absolutamente. Como tinha estudado vários anos de história na Alemanha, sabia bem onde procurar as fontes e como mexer em arquivos. E o tema, unindo jornalismo e história, caiu como uma luva para mim.

Quais foram as reações de seus interlocutores alemães ao saberem que você estava buscando essa história?

S.B. – No início, enfrentei um certo ceticismo, sobretudo dos historiadores. Nenhum entendia como a história de um jornal desconhecido pudesse interessar ao leitor brasileiro. Pareciam não entender que justamente isto tornava a história superinteressante: um jornal pequeno e indefeso, lutando contra o nazismo, um movimento perigoso, violento, que varria a Alemanha. Mas devo dizer que estes mesmos historiadores me apoiaram do início ao fim, o que foi essencial para o meu trabalho.

A constatação de que a batalha de um pequeno jornal contra Hitler foi pouco explorada pela literatura sobre o nazismo é uma prova de que o tema inesgotável?

S.B. – Certamente. A quantidade de livros publicados todo ano aqui e no resto do mundo sobre o nazismo mostra que ainda há muitas perguntas, muita coisa para ser esclarecida. E muitas histórias. Nestes três anos, descobri só em Munique tantos casos curiosos!… Acho que cada um deles daria um livro.

Você conta no livro que conversou com alguns descendentes de jornalistas que trabalharam no diário e que nenhum deles sabia direito a história de bravura de seus avós e bisavós. Como essas pessoas reagiram ao tomar conhecimento desse passado?

S.B. – Eles ficaram muito surpresos. Mas não os critico por saberem pouco de seus avós. Afinal, vários deles, como o ex-editor do Post, Edmund Goldschagg, e o advogado do jornal, Max Hirschberg, fizeram trabalhos importantíssimos depois da II Guerra Mundial, tornando-se conhecidos mais tarde – e não tanto por suas atuações junto ao Post. Goldschagg, por exemplo, se tornou em 1945 o fundador do que é hoje o maior jornal da Alemanha, o Süddeutsche Zeitung. Ao mesmo tempo, os descendentes dos jornalistas e advogados do Post ficaram muito agradecidos e acho que ainda mais orgulhosos de seus avós.

O Münchener Postera um jornal filiado aos valores da social-democracia. Isso por si só explicaria o “faro” especial que desenvolveu contra os riscos que Hitler representava? Por que outros jornais igualmente de esquerda não despertaram em tempo para o perigo?

S.B. – Como um jornal socialdemocrata, o Post abominava tudo que representasse uma ameaça à democracia que vigorava naquela época. Era uma democracia fragilizada, sem dúvida, mas a Constituição do país garantia a liberdade de reunião, de opinião e de expressão. Por isso o jornal alertava sempre para os perigos que vinham da extrema direita, como os nazistas, e também da extrema esquerda, como os comunistas, que queriam fazer uma revolução no país. Realmente, outros jornais de esquerda também tentaram impedir a ascensão de Hitler. Mas isto só mais tarde, no final dos anos 20, quando viram a popularidade de Hitler crescer. O Post, por estar em Munique, frente a frente com ele, foi o primeiro a alertar, desde 1920 – e não abrandou sua luta nenhuma vez, até sua destruição definitiva, em 1933. Também os comunistas de Munique tinham um jornal e esbravejavam contra todos, contra Hitler, contra o governo bávaro e contra os próprios sociais-democratas. Mas eles eram tão radicais que viviam sendo censurados e proibidos.

A imprensa alemã daquela época, como você mostra no livro, tinha a característica de ser abertamente partidária. Com cada jornal defendendo suas próprias “verdades”, a informação jornalística não acabava contribuindo para tornar os fatos ainda mais confusos?

S.B. – Certamente era uma época de caos político, econômico e informativo. Eram poucas as publicações apartidárias e o momento era de tanta radicalização política que o povo acabava sendo levado para as manifestações e os eventos políticos. Não deve ter sido fácil ser leitor de jornal naqueles anos. Para se informar mesmo, ele deveria ler vários jornais por dia.

Você fez várias viagens a Munique, tendo visitado pontos chaves dos acontecimentos citados em seu livro, incluindo o local onde funcionaram as instalações do Münchener Post. Que importância tiveram essas visitas para você e que efeito exerceram sobre sua narrativa?

S.B. – Por sorte, muitas construções daquela época estão lá, as ruas e avenidas mantiveram o mesmo nome, então é possível fazer hoje os mesmos percursos que os jornalistas do Post, ou mesmo Hitler, fizeram oitenta anos atrás. Por isso achamos importante incluir no livro um mapa de Munique, mostrando como as redações dos principais jornais, as cervejarias, os cafés ficavam relativamente próximos. Munique era uma cidade provinciana na época, Hitler e seus homens certamente cruzavam frequentemente com os jornalistas do Post nas ruas e cervejarias. Conhecer a geografia de Munique, visitar as instalações do Post e os grandes salões das cervejarias foram fundamentais na hora de escrever o livro. As cenas estavam muito claras na minha cabeça.

É possível extrair lições da história do Münchener Postpara o jornalismo atual? Que lições seriam estas?

S.B. – Mesmo frente a todas as crises e injustiças que somos obrigados a noticiar tanto no Brasil como aqui na Alemanha, acho que nós, jornalistas, devemos valorizar as nossas democracias e cuidar para que elas jamais sejam ameaçadas. As jovens gerações de jornalistas – e aqui falo apenas dos brasileiros e alemães – não sabem o que é trabalhar sob uma ditadura, vendo seus textos serem censurados, suas publicações proibidas e sofrendo retaliações. O que hoje para nós é natural, criticar as ideias de um partido ou as medidas de um governo, podia custar a vida de um jornalista na Baviera dos anos 20. É incrível que hoje isto ainda aconteça em vários países, como na Rússia.

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Paulo Lima é jornalista e editor da revista eletrônica Balaio de Notícias

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