Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > IMAGEM & INVENÇÃO

Carlos Manga ri por último

Por Amir Labaki em 06/08/2013 na edição 758
Reproduzido do suplemento “Eu & Fim de Semana” do Valor Econômico, 2/8/2013; intertítulos do OI

Quando em 1989 Sérgio Augusto colocou definitivamente a chanchada em seu devido lugar entre os momentos mais importantes da história do cinema brasileiro, com Este Mundo É um Pandeiro – A Chanchada de Getúlio a JK, que a Companhia das Letras relança em breve com a merecida pompa, parecia questão de tempo para que a contribuição individual de seus protagonistas ganhasse uma a uma o reconhecimento de um perfil biográfico. Mas, para variar, demorou.

O quadro bibliográfico só foi mudar mesmo já no século 21. Primeiro veio Grande Otelo, por Sérgio Cabral (Editora 34), seguido por José Carlos Burle – Drama na Chanchada, por Máximo Barro (Imprensa Oficial), e Oscarito – O Riso e o Siso, de Flávio Pinheiro (Record). Com o lançamento da biografia de Carlos Manga por Sérgio Cabral, Quanto Mais Cinema Melhor (Lazuli, 238 págs., R$ 42,90), o grupo essencial está finalmente quase coberto, com exceção dos diretores Watson Macedo e Moacyr Fenelon, este ao menos celebrado por um catálogo lançado em 2002 também por Máximo Barro.

Manga é o único a ter o gostinho de rir por último ainda em vida, aos 85 anos. O livro complementa as atrasadas homenagens que colheu já no fim da carreira, incluindo dois prêmios especiais no Festival de Gramado, o primeiro em 1983 e o segundo o Troféu Oscarito de 1995, na qual recebeu o mais longo aplauso que testemunhei na serra gaúcha, e o ciclo especial, com longo perfil e tudo, realizado pelo Canal Brasil para celebrar seus 80 anos em 2008.

“O maior ator do Brasil”

Quanto Mais Cinema Melhor apresenta uma visão panorâmica das quase seis décadas de uma das mais brilhantes carreiras dedicadas ao audiovisual brasileiro. Carlos Manga dirigiu 24 longas-metragens, entre os quais vários dos verdadeiros clássicos da fase áurea da Atlântida (Nem Sansão nem Dalila, Matar ou Correr, O Homem do Sputnik), realizou pelas próprias contas mais de dois mil filmes publicitários premiados mundo afora e colaborou com momentos marcantes da televisão brasileira, para a qual foi levado pelo amigo Chico Anysio, como o pioneiro Chico Anysio Show na TV Rio, os programas musicais Jovem Guarda e Show do Dia 7, na TV Record, e minisséries como Agosto, Memorial de Maria Moura e Engraçadinha em sua última casa profissional, a Rede Globo.

Como estão disponíveis em DVD não apenas essas três obras televisivas, mas também seis de suas principais chanchadas, no pacote Atlântida 65 Anos, da Europa Filmes, é possível conferir em sua poltrona favorita ao menos parte do vigor da obra de Manga celebrada por Sérgio Cabral. O ápice para mim são quatro das 21 comédias que dirigiu em sua década na Atlântida, Nem Sansão nem Dalila (1953), Este Milhão É Meu (1958), O Homem do Sputnik (1959) e Os Dois Ladrões (1960).

Não por coincidência, todas estreladas por Oscarito. O coração do livro de Cabral, assim como o de Pinheiro, é dedicado a essa colaboração de raríssima intensidade, em nada menos que 13 filmes em dez anos de parceria, incluindo aí duas peças teatrais de sucesso do cômico (O Golpe e Papai Fanfarrão) registradas no calor da hora pelo cineasta. Uma das chaves da sintonia parece ter sido o talento histriônico do próprio Manga ao demonstrar nos ensaios como imaginava uma cena tanto a Oscarito como ao conjunto do elenco. Não surpreende saber que Chico Anysio, um dos maiores atores brasileiros do século 20, considerava Manga “o maior ator do Brasil”.

Quem tem é para mostrar

Sérgio Cabral frisa a formação autodidata do garoto carioca, sócio empenhado do Sinatra Farney Fan Club, que abandonou os estudos de direito para ingressar na Atlântida já estabelecida, apesar da precariedade estrutural que lembrou ao jovem contratado “uma garagem improvisada”, como o principal similar brasileiro de um estúdio hollywoodiano. Manga fez carreira meteórica em dois anos, do almoxarifado até a primeira direção, em A Dupla do Barulho (1953), estrelado pela dobradinha Oscarito-Grande Otelo no auge.

Nada mais natural que o cinéfilo admirador de John Ford, Billy Wilder e Busby Berkeley buscasse inspiração na Hollywood clássica para amadurecer narrativa e tecnicamente as algo improvisadas comédias musicais cariocas. É assim que vários de seus principais filmes, raramente roteirizados pelo próprio Manga, que para tanto contava, sobretudo, com José Cajado Filho, para ele o maior gênio injustiçado da história das chanchadas, pelo preconceito duplo por ser negro e homossexual, são paródias ou homenagens, como em Nem Sansão nem Dalila e Matar ou Correr ou Este Milhão É Meu (baseado num filme de episódios de 1932), Colégio de Botos (Escola de Sereias) e Garotas e Samba (Como Agarrar um Milionário).

Um dos pontos altos do livro de Cabral é a citação sistemática de exemplos da incompreensão da crítica da época, o grande Moniz Vianna à frente, diante de chanchada após chanchada. Pequenos tropeços no volume são perdoáveis, como o erro na sinopse de De Vento em Pompa (1957), mas é inadmissível uma biografia de cineasta sem uma filmografia com ficha técnica ao fim – como, aliás, encontramos nos demais volumes citados. Como se dizia naquele tempo, quem tem é para mostrar.

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Amir Labaki é diretor-fundador do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários

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