Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ARMAZéM LITERáRIO > ROBERT CRUMB

As fantasias de R.C.

Por Raquel Cozer em 27/08/2013 na edição 761
A mente suja de Robert Crumb, de Robert Crumb, 232 pp., organização de Rogério Campos, tradução de Alexandre Boide e Marieta Baderna, Editora Veneta, 2013; R$ 59,90; reproduzido da Folha de S.Paulo, 20/8/2013, título original “As fantasias de Robert Crumb”; intertítulos do OI

O risco de colocar todas as fantasias sexuais no papel é que décadas depois elas podem voltar para assombrar você. Aconteceu com Robert Crumb, quadrinista americano que entrou para a história por causa dessas perversões. Quadrinhos como As Aventuras do Nariz-de-Pica (1969), sobre um rapaz perseguido por meninas sem “um pingo de decência” devido à sua anatomia nasal, integram a mais recente antologia do autor no Brasil, A Mente Suja de Robert Crumb (Veneta), que chega às livrarias no fim do mês, com seus trabalhos mais, como diz, “doentios”. Hoje, prestes a completar 70 anos, no dia 30, Crumb diz se sentir constrangido por parte daquelas histórias.

Antes de iniciar a entrevista por telefone à Folha, do sul da França, onde vive desde 1991, o cartunista pergunta o que a reportagem achou do material. Diz que “a maioria das mulheres não gosta dessa parte” de sua produção. “Não as culpo, não vejo por que deveriam gostar.”

Ao mesmo tempo, acha graça de reações que as histórias despertaram. E ainda despertam. Dias atrás, o editor Rogério de Campos precisou conseguir uma gráfica de última hora para o livro, depois que a Cromosete viu o conteúdo e desistiu de rodar o material. Procurada, a gráfica informou que não imprime quadrinhos (embora tenha impresso há pouco a HQ Stieg Larrson: Antes de Millenium, da própria Veneta).

Leia trechos da entrevista com Crumb.

“Não sou racista”

Na apresentação do livro, o sr. diz se arrepender de algumas de suas histórias. Qual sua sensação ao ver esse trabalho mais pervertido reunido?

Robert Crumb – Estou velho, não tenho mais aquela raiva e paixão. Algumas das coisas que fiz quando jovem me soam tão cheias de raiva. É embaraçoso. Penso: ‘O que estava passando pela minha cabeça?’ Ao mesmo tempo, para alguns leitores homens, esse é meu melhor trabalho, o mais raivoso e doentio.

Não o incomoda ver publicadas hoje histórias que o fazem se sentir assim?

R.C. – Há coisas que eu tenderia a preferir não ver mais, mas se o editor gosta, quem sou eu para dizer que não deveria publicar? Nunca interferi nisso nem pretendo.

O sr. também faz um mea-culpa pelo uso de estereótipos racistas. Li uma entrevista em que chamava Hergé [autor de Tin Tin] de “racista vil”. Acha injusto dizerem o mesmo do sr.?

R.C. – Hergé era racista, as imagens dele não eram satíricas. As minhas sempre foram feitas com intenção satírica. Não parei para pensar que negros se sentiriam ofendidos. Quando penso que coisas que fiz ofenderam negros, eu me arrependo. Não significa que evitaria que fossem publicadas, porque acho que têm um ponto sobre o racismo. Mas não sou racista.

“Gastei muita tinta nesta vida”

O livro inclui a história “Joe Blow”, de 1969, sobre uma família em que os pais transam com os filhos, e que resultou num dos mais famosos casos judiciais envolvendo quadrinhos nos EUA. Como avalia as reações na época?

R.C. – Era uma sátira aos estereótipos da família americana. Quando era jovem, queria explodir tudo isso. E foi a maneira ultrajante de explodir. Aquilo gerou uma reação das autoridades, o livro foi banido no estado de Nova York. Foram levados a julgamento dois vendedores de quadrinhos. Nos EUA, eles processam o comerciante. Eu não fui incomodado, nem os editore. Os vendedores foram a julgamento e o juiz os considerou culpados [risos]. O caso ficou notório por causa disso.

Que lembranças o sr. guarda da sua visita ao Brasil, para a Flip em 2010?

R.C. – A mais forte foi o nível de pobreza nos arredores de São Paulo. Aquelas barracas em que as pessoas viviam nas periferias, ao lado da estrada. Era alguma coisa como animais, foi chocante para mim.

No ano passado, o sr. foi objeto de uma megamostra no Museu de Arte Moderna de Paris. Qual a sensação de ver seu trabalho num museu?

R.C. – Eram salas e salas cheias. Pensei: “Meu Deus, fiz tanto trabalho.” E aquilo era só uma fração, nem de perto tinha tudo ali. “Relaxe, se aposente”, pensei [risos]. Gastei muita tinta nesta vida…

“Uma coisa boa é não ter medo da morte”

E em que gasta tinta hoje?

R.C. – Estou fazendo desenhos para um livro que pretendo lançar nos próximos meses. Não é um livro de quadrinhos. Fiz dois livros chamados Art & Beauty [em 1996 e em 2003], desenhos de mulheres copiados de fotos, e estou fazendo o terceiro volume.

Como é chegar aos 70 anos?

R.C. – O tempo passa cada vez mais rápido. A gente sente que não tem mais tanto tempo, então tem que priorizar o que importa. Tem que pensar enquanto consegue pensar bem. Uma coisa boa é não ter mais medo da morte. Mas você se sente mais cansado de muita coisa, do comportamento da sociedade, cansado, cansado…

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Fama de artista é resultado de opção por temas ‘proibidos’

Paulo Ramos *

Pode-se dizer que Robert Crumb vive hoje os ecos do que protagonizou no passado. Muito da popularidade dele é herança de suas produções alternativas criadas a partir da década de 1960 nos Estados Unidos.

O desenhista despontou em um momento em que as histórias em quadrinhos norte-americanas caminhavam para uma simplificação temática, impulsionada por discursos que apontavam nelas temas proibidos ou nocivos às crianças.

Crumb pegou o caminho inverso. Seu objetivo era abordar justamente os temas proibidos: sexo, drogas, violência e situações que hoje poderiam ser rotuladas como politicamente incorretas pautaram as criações do autor.

Uma importância indiscutível

Em vez de comics, nome como os quadrinhos eram – e são – conhecidos nos EUA, ele e seu grupo de autores optaram pela provocativa forma comix. O “x” no final era para distingui-las das publicações comerciais.

Funcionou. As revistas de Crumb começaram a ser vistas como um sinal claro da contracultura da época. Tanto que encontraram um rentável ponto de venda: as head shops, lojas destinadas ao público alternativo. Consolidava-se, assim, o movimento underground dos quadrinhos nos EUA.

As histórias encabeçadas por Crumb migraram rapidamente para outros países. No Brasil, eram publicadas na revista Grilo no começo da década de 1970. Pode-se medir sua influência por aqui em autores como Angeli.

Muito do que hoje se vê nos quadrinhos autobiográficos também tinha suas raízes nos trabalhos de Crumb. Ele próprio era personagem de parte de suas histórias. A importância de Crumb é indiscutível, mas sua fama ainda está ancorada no underground norte-americano, mesmo ele tendo feito outros trabalhos nos últimos anos.

[* Paulo Ramos é jornalista e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo]

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Raquel Cozer é colunista da Folha de S.Paulo

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