Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

ARMAZéM LITERáRIO > ERA VARGAS

Da revolução à ditadura

Por Victor Gentilli em 03/09/2013 na edição 762
Getúlio 1930-1945 Do governo provisório à ditadura do Estado Novo, de Lira Neto, 594 pp., Companhia das Letras, 2013; R$ 40 # publicado originalmente no caderno “PensarC2”do jornal A Gazeta (ES), 24/8/2013; intertítulos do OI

Um ano depois do lançamento do primeiro volume, sai agora o segundo tomo da trilogia sobre a vida de Getúlio Vargas, projeto de fôlego do jornalista Lira Neto. O primeiro volume que foi publicado no ano passado descreve a vida de Getúlio no Rio Grande do Sul do nascimento até assumir o comando da nação com a Revolução de 30. Este segundo volume trata da vida do biografado entre 1930 e 1945 período em que se manteve como o líder do governo provisório resultante da revolução de 1930, como presidente eleito pela Constituinte de 1934 e como ditador a partir de 1937 quando institui o Estado Novo. O terceiro volume sairá em 2014, ano do sexagésimo aniversário do suicídio que, como afirma em sua carta-testamento, saiu da vida “para entrar na história”. Neste sábado, 24 de agosto, completa-se o quinquagésimo nono aniversário da morte.

O primeiro volume foi farto em informações novas e esclarecimentos de fatos que até então eram até sabidos, mas não com a segurança de que foram descobertos em arquivos. Por exemplo, suspeito de dois assassinatos, Lira escarafunchou e desempoeirou inquéritos e processos. Esclareceu: em um e no outro, Getúlio era inocente.

A história do Brasil entre 1930 e 1945 certamente é um dos períodos mais estudados e também carregados de eventos. O movimento constitucionalista de 1932, conhecida pelos paulistas como revolução, a constituinte de 1934 que confirma Getúlio como presidente, o levante comunista de 1935, a implantação do Estado Novo em 1937, o putsch integralista de 1938, a criação do DIP em 1939, o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães em 1942 e a criação da Força Expedicionária Brasileira que levou tropas brasileiras a lutar na Itália. A lista poderia ser muito maior.

Livro fascinante, leitura agradável, como sempre fluente. Este segundo volume em vários aspectos difere do primeiro. O que deverá surpreender o leitor é que a história do Brasil aparece mais como pano de fundo, assim como a realidade internacional marcada pela emergência dos regimes totalitários na Alemanha, na Itália e na União Soviética e, a partir de 1939, a II Guerra Mundial.

Ações armadas

Em primeiro plano está Getúlio Vargas, sua vida, sua personalidade, seus dramas, sua intimidade.

Ele é conhecido por sua habilidade política, sua sagacidade, sua capacidade de esperar até o último momento para tomar uma decisão. Estes atributos aparecem num tabuleiro onde o jogo de interesses e as ideologias (fortes na época) eram intensos. Paulistas, mineiros, gaúchos, nordestinos, os interesses regionais conflitavam entre si. Liberais e “revolucionários” (basicamente tenentistas defensores de um regime forte) se digladiavam em um momento em que o espectro político também abrigava comunistas ligados quase diretamente a Moscou e integralistas, fortemente marcados pelos regimes fascista e nazista da Itália e da Alemanha. Nos seus diversos governos, sempre abrigou germanófilos como o general Eurico Dutra, Góes Monteiro e Fillinto Muller entre tantos mais, e outros com maior proximidade com os Estados Unidos, onde Oswaldo Aranha se destaca como a figura mais proeminente.

Conhecido como homem frio e calculista que adia decisões até o último momento e equilibra-se entre diversas correntes políticas antagônicas, Getúlio, na intimidade tinha inseguranças e vacilações e viveu muitos momentos de angústia e depressão decorrentes até mesmo da solidão, que estas características terminavam por exigir.

Proximidade mais íntima tinha apenas com sua filha Alzira e com Aimée Sotto Mayor Sá, que viria a se casar com seu oficial-de-gabinete, Luís Simões Lopes. Quando a conheceu, era “uma paranaense de apenas 24 anos, alta, morena, olhos verdes, modos refinados, dona de uma beleza estonteante”. Tinha com ela encontros regulares e nos horários mais imprevisíveis.

Inseguranças, vacilações e momentos de angústia ficam aparecem nítidos nas anotações do diário, que Getúlio escrevia regularmente, interrompido apenas em 1942. Não tomou nenhuma cautela em preservá-lo post mortem, o que evidencia um interesse claro de que fosse conhecido no futuro. Foi publicado como livro em 1994.

Não eram apenas suas inquietações politicas que alimentavam o diário. Aimée aparecia com frequência. Seja em francês como Bien-Aimé (jogo de palavras com seu nome) ou em português como “bem-amada”. E as anotações apontavam sempre boas expectativas quando estava prestes a ter algum encontro ou relatos de satisfação nos retornos. Mas vieram a afastar-se e perder contato em 1938 quando Aimée foi ao exterior.

A partir de 1930, Vários eventos apresentam narrativas que colocam o leitor na cena. O levante dos paulistas em 1932 é o primeiro deles. O relato vai descrevendo os movimentos em São Paulo, as grandes ações armadas e, por fim, o sufocamento da rebelião. Já a partir deste momento a aristocracia paulista se coloca na oposição e nela permanece até a derrubada em 1945. Na verdade, permaneceu no segundo governo e segue até hoje. São Paulo é a única capital do país que não tem avenida com o nome de Getúlio Vargas.

Boa história

Ao final das ações do levante da ANL comandada pelo PCB em 1935, já debelado o movimento, mas ainda com risco de confrontos no Rio, Getúlio vai ele mesmo de carro à Vila Militar tomar pé dos acontecimentos. No caminho encontra “levas de soldados desarmados vagando ao léu, um tanto quanto atarantados”. Getúlio compreendeu que eram revoltosos em fuga. “Um grupo cercou o automóvel presidencial e pareceu surpreso ao constatar que era o próprio presidente da República que estava lá dentro”. Como em vários outros momentos, a narrativa apresenta a observação no diário: “Rodearam meu carro com uma aparência de quem realmente não sabia o que estava fazendo”.

Getúlio foi fartamente biografado. Mas esta obra é a mais densa e mais completa delas. O Brasil e o biografado mereciam de um trabalho assim. Projeto de cinco anos, resultará em três volumes que somarão quase duas mil páginas. Lira Neto insiste em se apresentar como jornalista, mais que isso, repórter. Mas historiadores respeitados como Boris Fausto e Maria Celina D’Araujo, avalizam a obra. Cito apenas aqueles que assinaram contracapas. Vale explicar: Lira busca e corre atrás de todas as informações possíveis e toma todas as cautelas para que tudo seja apurado com o máximo rigor possível. Mais do que evita, foge de análises e tentativas de compreender os fenômenos. Sua preocupação é contar uma boa história com um texto agradável, fluente, que induz a ler de um fôlego só.

******

Victor Gentilli é jornalista, professor da Universidade Federal do Espírito Santo

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem