Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ARMAZéM LITERáRIO > BIOGRAFIA EM QUESTÃO

Os erros de ‘Dirceu’

Por Mario Sergio Conti em 03/09/2013 na edição 762
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 27/8/2013; intertítulo do OI

A piauí de agosto traz uma resenha com 30 erros factuais de Dirceu, de Otávio Cabral. O editor do livro, Carlos Andreazza, não os contestou em seu artigo na Folha (23/8). Mas escreveu que o “levantamento espantoso” é “um inventário ressentido de miudezas”. Espantosos são os absurdos da biografia, e não o seu recenseamento. Inexiste ressentimento porque não fiz ilações a partir do livro. E caso fossem miudezas, por que foram postas em Dirceu, e ainda por cima incorretamente?

Andreazza insinuou que expus os equívocos para defender réus do mensalão. Isso é desconversa para fugir do assunto, as inconsistências do livro que ele editou. Mas registro: já critiquei a política de José Dirceu dos anos 60 aos 2000, da luta armada às loas à ditadura cubana, do arreglo com a burguesia à arrecadação criminosa de fundos para o PT. Além dos que assinalei, o livro tem outros 30 desacertos. Eis dez deles. “O movimento estudantil, a partir de 1967, tornara-se a única voz da sociedade civil contra o regime militar”, escreve Cabral. Não foi assim. Houve greves operárias em Contagem e Osasco em 1968. O teatro e o cinema rebeldes existiram até o AI-5, bem como a resistência de intelectuais.

Em 1971, diz ele, “as colônias da África começaram a lutar pela independência contra as potências europeias e a China ameaçava invadir Taiwan”. Nem uma coisa nem outra. A luta anticolonial africana se iniciara décadas antes. Em 1971, a ONU expulsou Taiwan e elegeu a República Popular como representante única do povo chinês. “Miudezas” ou ignorância acerca do mundo de Dirceu, o da esquerda?

Incompetência e má-fé

Para Otávio Cabral, Dirceu era “ferrenho opositor” do governador Franco Montoro. O tucano fora seu professor e ajudou sua família nos anos de exílio e clandestinidade. Por isso, sempre foi lhano nas críticas a Montoro. O autor dá curso à lenda de que o PT não teria homologado a Constituição. Os constituintes petistas votaram contra a Carta, mas o partido veio a homologá-la. É uma nuance, significativa das ambiguidades do PT, que escapa a Cabral. Entre o joio do mito e o trigo do real, ele fica com o joio.

Afirma que o biografado apoiou Virgílio Guimarães para a presidência da Câmara, mas o seu concorrente, Luiz Eduardo Greenhalgh, disse que Dirceu fez campanha por ele. A piscina da casa de Dirceu em Vinhedo é decorada com uma estrela do PT, diz Cabral. Estive lá uma vez a trabalho e não havia estrela nenhuma. Fala que a mãe dele sofre de Alzheimer, mas ela não tem a doença. Sobre a consultoria de Dirceu, escreve que ele “se desfez de sua sede, ao lado do parque Ibirapuera”. Se telefonasse para a empresa, como fiz ontem, uma simpática secretária lhe diria que a consultoria continua ali. Faz tal pandemônio com datas que o ubíquo Dirceu aparece numa mesma noite (7 de junho de 2005) em Brasília e Lisboa.

Para Andreazza, essa mixórdia de estultices configura um “memorável trabalho de apuração jornalística e reconstituição histórica”. Pois acho que qualquer biografia com cinco dúzias de disparates é imprestável para entender uma vida. E como Dirceu é também um pântano de insinuações, no qual o autor se esponja, ele empesteia o ambiente político.

Entre outros motivos, a disputa política vem se tornando deletéria devido a livros que não prezam a verdade, que é sempre revolucionária e nos fará livres. Eles só servem para animar o xingatório de corjas. Tais livros se equivalem: Dirceu ombreia A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr, em incompetência, leviandade e má-fé.

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Mario Sergio Conti é repórter de piauí

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