Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > WILL EISNER (1917-2005)

O herói não usa collant

Por Cadão Volpato em 17/09/2013 na edição 764
Reproduzido do Valor Econômico, 13/9/2013; intertítulo do OI

O termo “graphic novel” (romance gráfico), que dá uma espécie de verniz às histórias em quadrinhos, aproximando-as da literatura, foi inventado por um artista fiel a seus princípios desde o começo da carreira. Will Eisner (1917-2005), o criador de The Spirit, sempre foi resistente ao aspecto mais infantilizado das historietas, principalmente aquelas dirigidas ao público adulto com heróis mascarados usando collant. Simplesmente os desprezava.

Por isso, na hora de desenhar seu principal herói, acabou criando um personagem híbrido, um tipo de justiceiro mascarado que não dá muita bola para a realidade. Em 1939, The Spirit também trazia um dado novo para o mundo quadrado dos comics, ao misturar diversos registros numa ideia só, variando do cômico ao trágico numa mesma sequência – mas sem perder o mistério jamais.

Uma nova biografia de Eisner, escrita pelo americano Michael Schumacher (homônimo do piloto de fórmula 1), ajuda a iluminar melhor tanto as contradições do artista quanto o tempo vibrante em que ele viveu.

“Eisner é o meu favorito”, diz Schumacher. “Ele é tão bom escritor quanto desenhista, e estava vivendo e trabalhando nos primeiros tempos dos quadrinhos. Escrever sobre ele me deu a chance de contar a história dessa arte popular.”

O anseio por respeitabilidade que marca a carreira de Eisner não combinava com o começo do gênero. As tiras eram encaradas como mero entretenimento, um jeito de passar o tempo e encher o espaço dos jornais, um contrapeso para as desgraças que sempre assolaram o noticiário. Num livro um pouco mais impressionista sobre esses primeiros tempos, “Homens do Amanhã: Geeks, Gângsteres e o Nascimento dos Gibis”, o autor Gerard Jones descreve o ambiente dos gibis como “contracultural, inculto, idealista, lascivo, pretensioso, mercenário, avançado e efêmero, tudo ao mesmo tempo”. Isso está no livro de Schumacher, que tem um título um pouco mais suave: “Will Eisner – Um Sonhador nos Quadrinhos” (Editora Globo, tradução de Érico Assis, 424 págs. R$ 59,90).

Desenhos sombrios

Eisner era, sim, um sonhador, mas manteve os dois pés de ilustrador bem plantados no chão, sempre negociando os contratos de direitos autorais pessoalmente, e com mão de ferro.

O interesse maior do livro está nesses inícios de carreira. Eisner foi colega de escola de Bob Kane, o criador do Batman. E quase começa como produtor gráfico, ao oferecer uma solução para um problema técnico, enquanto tentava mostrar seus desenhos a um editor apressado.

O autor da biografia ouviu muita gente próxima do artista, incluindo Ann, a mulher de toda a vida. E também alguns heróis da sua própria infância, como Jules Feiffer (1929), que começou a trabalhar com Eisner aos 16 anos e acabou ganhando o Pulitzer, justamente o tipo de prêmio que o mestre teria gostado de ganhar. Art Spiegelman (1948), o autor do romance gráfico “Maus”, também levou o seu, enquanto o criador de Spirit ficou de mãos abanando. Como consolação, ele emprestaria o nome à mais importante premiação mundial do mundo dos quadrinhos, os Eisner Awards.

O livro de Schumacher mostra como as tiras também foram os desaguadouros do talento de imigrantes que não teriam outra forma de ser aceitos na América. Artistas europeus de origens diversas mudaram os nomes de batismo para poder emplacar no competitivo universo do entretenimento das primeiras décadas do século XX. A maior parte deles tinha em comum a infância pobre e a vida adulta piorada pela Depressão. O próprio Bob Kane, o colega de escola de Eisner, se chamava na verdade Bob Kahn, enquanto Al Capp era Alfred Caplin no registro de nascimento. Eisner, que se chamava William Erwin, adotou apenas o “Will”, mas Stan Lee, nascido Stanley Leiber, escolheu um pseudônimo porque queria guardar o nome para assinar os romances que pretendia escrever. Assim como Eisner, o criador do Homem-Aranha tinha ambições maiores.

“De alguma forma”, explica Schumacher, “os artistas judeus falavam de suas experiências de formas sutis. O Super-Homem seria, por exemplo, de várias formas, a história de Moisés. Eisner elevou tudo isso a um nível realista muito grande. Seus livros, principalmente ‘Um Contrato com Deus’ (1978), são interpretações autobiográficas da experiência judaica nos anos da grande Depressão americana”.

“Um Contrato com Deus” é a virada de mesa do artista dos quadrinhos que queria ser reconhecido como alguma coisa próxima de um literato. Eisner havia abandonado The Spirit ainda nos anos 1950, dando vazão a seu lado mais empreendedor, trabalhando com diversas outras matrizes do ramo editorial, sempre com sucesso. Em 1978, confrontado por reedições do seu quadrinho mais famoso, o desenhista voltou à carga de forma confessional, retratando o que significava crescer e viver nos Estados Unidos dos anos 1930.

“Um Contrato com Deus” traz quatro histórias situadas num cortiço do Bronx. A imigração é a linha que as une, e a tristeza, marcada pelos desenhos sombrios, é a característica comum entre elas. Estão ali os mesmos personagens feios apontados por um dos primeiros críticos de Eisner, um editor que se recusou a publicá-lo. Fiel ao seu estilo, o artista chegou aonde queria. E os quadrinhos, depois dele, foram condenados a uma densidade poucas vezes vista.

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Cadão Volpato, para o Valor Econômico

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