Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > OLHO MÁGICO

Robert Capa, uma lenda do fotojornalismo

Por Cristina R. Durán em 17/09/2013 na edição 764
Sangue e Champanhe – A Vida de Robert Capa, de Alex Kershaw, tradução de Clóvis Marques, 350 pp., Editora Record, R$ 42,90; reproduzido do Valor Econômico, 6/9/2013, intertítulos do OI

Em 1942, quando cobria a Segunda Guerra Mundial, um piloto o acusou de ser um abutre insensível, esperando os mortos e feridos chegarem para tirar suas imagens impactantes, depois estampadas na revista Life. Ali ele decidiu que passaria a retratar os conflitos na linha de frente, ao lado dos soldados. Tornou-se o primeiro fotógrafo a registrar os combates da primeira metade do século 20 por dentro.

Esse homem nasceu judeu em Budapeste, Hungria, em 1913, com o nome André Friedmann e um dedo a mais em uma das mãos. Ficou conhecido como o fotógrafo americano Robert Capa. O amor de sua vida foi Gerda Taro, talentosa fotógrafa que conheceu em Paris e chamava de Raposa Vermelha. O mundo acompanhou, no entanto, o seu namoro com Ingrid Bergman, com quem passou conturbado período. Uma das mulheres mais cobiçadas do mundo, a atriz estava disposta a deixar o marido se ele se casasse com ela. Capa não quis.

Com a sua Leica, ele cobriu a Guerra Civil Espanhola, a sino-japonesa, a árabe-israelense e a Segunda Guerra – entre Londres, Itália e a libertação de Paris, passando pela chegada dos aliados a Omaha, na Normandia. Naquele sangrento Dia D, ele saltou com os soldados no mar sob o pesado fogo da artilharia alemã. Quase morreu para registrar chocantes imagens que consolidaram a sua fama.

Personalidade forte

A sua última cobertura de um combate foi em 1954, na Indochina, onde franceses e guerrilheiros do Vietminh, liderados por Ho Chi Minh, travavam terrível conflito que desembocaria na guerra do Vietnã. Ali viveu sua luta interior ao discordar da linha editorial da Life, que o pagava regiamente para publicar esse material.

É a história desse intenso personagem que o jornalista e roteirista de cinema Alex Kershaw põe nas páginas de Sangue e Champanhe – A Vida de Robert Capa, que a Record acaba de lançar no Brasil, uma década depois de ser publicada no exterior. Para reconstituir a vida de Capa e ambientar a época, o autor recorreu aos arquivos secretos do FBI e da União Soviética, entrevistou amigos do fotógrafo, ouviu relatos de veteranos das guerras.

Kershaw traça o retrato desse homem de personalidade forte, irreverente, bonito e carismático, que, nas pausas entre um conflito e outro, vivia entre o pôquer, a bebida, as mulheres e amigos famosos como Ernest Hemingway e Henri Cartier-Bresson, com quem fundou a lendária agência de fotógrafos Magnum. Ao acompanhá-lo nesses anos de fulminante carreira, o autor narra a realidade daqueles tempos.

Passo em falso

O “americano” Robert Capa foi criação de Gerda, com quem se aventurou na Guerra Civil Espanhola, onde ela morreu registrando os combates. Alguns anos antes, Capa havia fugido da repressão política e do antissemitismo em sua terra natal. Foi para Berlim, onde testemunhou a ascensão de Hitler e tirou as primeiras fotos. A sua carreira começou, de fato, quando, no fim de 1931, captou a imagem atormentada de Leon Trotsky no Congresso de Copenhague, pouco antes de ser morto no exílio no México.

Não foi somente o talento que fez a lenda. Capa era um boêmio que prezava a liberdade, a ponto de perder Ingrid para não se sentir preso. Pendurava a sua Leica no pescoço e o cigarro Chesterfield no canto da boca e saía sorrindo e cativando do mais simples camponês a grandes escritores como Irwin Shaw e John Steinbeck, além de Hemingway ou o cineasta John Huston. Morreu ao buscar o melhor ângulo para uma foto e pisar em uma mina na guerra da Indochina.

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Cristina R. Durán, para o Valor Econômico

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