Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Páginas da vida de um livreiro

Por Natasha Mazzacaro em 08/10/2013 na edição 767

No século III a.C., uma biblioteca com 700 mil pergaminhos era considerada o coração do mundo antigo. E foi assim até o início da Idade Média, quando o acervo de Alexandria, às margens do Mediterrâneo, pegou fogo. Pode ser um pouco empoeirada, nada luxuosa e até um tanto claustrofóbica, mas é numa construção de 50 metros quadrados no número 222 da Rua Visconde de Itaboraí, no Centro, que funciona a “Biblioteca de Alexandria” de Niterói. É na Livraria Ideal que a família Mônaco vende há 83 anos obras de toda sorte, a preços bem populares.

Na porta ou nos corredores apertados, de segunda a sexta-feira, Carlos Mônaco cumprimenta quem passa pela rua como um militar de alta patente num desfile; procura 300 livros por minuto e atende vários telefonemas de pessoas que o convidam para vários tipos de eventos. E, antes que alguém julgue a comparação com a Biblioteca de Alexandria exagerada, O Globo-Niterói se apressa em responder: sim, é para tanto! O livreiro mais querido da cidade cresceu, amadureceu e envelheceu acompanhado por várias gerações de intelectuais. Hoje, alguns deles vestem os fardões de imortais da Academia Brasileira de Letras.

Por seus dedos rápidos na arte de folhear e por seus olhos sempre atentos já passaram verdadeiras preciosidades; e, como se tudo isso não bastasse, ele e seu pai ajudaram a fundar, em 1957, a associação mais ativa em prol da literatura do município, o Grupo Mônaco de Cultura. A entidade promoveu, até hoje, mais de 800 lançamentos de obras de autores locais.

Essa história começou em Nápoles, onde o idealizador da livraria nasceu. Assim como muitos outros italianos, Silvestre Mônaco deixou a Itália com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e, sem experiência de trabalho, decidiu colocar no meio da rua duas cadeiras de engraxate ligadas por uma corda: era nela que ficavam pendurados livretos de cordel. Com uma boa rede de fregueses, a banca improvisada logo saiu da calçada para ocupar uma lojinha pequena, localizada entre a Barbearia Ideal e a Padaria Ideal. Com essa vizinhança, o nome de batismo da livraria, afirma Carlos Mônaco, não poderia ser outro.

Vida e coração

Com 10 anos, o filho mais velho saía da escola e ia ajudar nos afazeres da loja. Certa vez, Silvestre Mônaco pediu para que o menino vendesse seu primeiro livro.

– Ele ficou me observando e disse que me daria uma nota. Dei toda a atenção do mundo para um cliente durante meia hora e o sujeito, finalmente, comprou um exemplar. Quando saiu, meu pai me deu um cinco, porque, segundo ele, a melhor maneira de atender uma pessoa numa livraria é ignorá-la. E ele tinha razão, o cliente quer folhear livros sem que ninguém interfira nesse processo. Essa é a melhor profissão do mundo, porque posso tomar café, bater papo… Quando alguém precisa de algo, é só me chamar – diz o livreiro, que não esconde o orgulho de sua profissão. – Noventa por cento dos escritores da cidade frequentam a Ideal e desafio quem, em Niterói, ache que tenha tocado em mais livros do que eu.

Com 71 anos, Mônaco conta que muitas raridades passaram por suas mãos. Ele revela que se arrepende de ter vendido uma coleção de Platão editada no século XVI. Mesmo quando pensa duas vezes antes de fechar um negócio, Mônaco afirma que fica satisfeito, já que “para cada livro, há um dono certo”. Muitas vezes, entre páginas de exemplares que comprou, ele encontrou dinheiro, cheques e cartas secretas de amantes.

Numa ocasião, Mônaco recebeu uma ligação de uma mulher que dizia que seu pai havia falecido e deixado uma biblioteca com mais de dois mil livros. Entre eles, estava “O bandolim”, de Luiz Pistarini, obra que, durante anos, foi procurada com afinco pelo livreiro. Mônaco conteve a emoção e marcou um encontro.

– Não dormi na noite anterior. Na casa da cliente, revirei a biblioteca inteira, e nada do livro. Uma hora, não aguentei e perguntei pela obra. A viúva disse que, como seu marido gostava muito daquele exemplar, resolveu colocá-lo dentro do caixão. Quase pedi para exumar o corpo – lembra ele, que, anos depois, conseguiu adquirir a obra de Pistarini.

Mônaco passa seus dias com a mulher, dois filhos (um deles dá expediente na loja) e uma interminável coleção de selos. Livros sobre a História do Rio de Janeiro também são uma paixão: há alguns anos, ele cedeu para a UFF, em forma de comodato, mais de dez mil obras sobre o assunto.

Apesar do amor pelos livros, Mônaco afirma que não lê tanto quanto gostaria. Diz que tem “um acervo grande, preparado para a aposentadoria”, e, poucos segundos depois, avisa que nem pensa em se afastar da livraria.

– Livros são a minha vida e é aqui, na Ideal, que está meu coração. Vou trabalhar enquanto puder e, quando minha hora chegar, espero que José Cândido de Carvalho (escritor de “O coronel e o lobisomem” e frequentador da livraria quando vivo) esteja na porta do céu para me dizer “Carlos, seja bem-vindo” – diz Mônaco, sempre sorrindo.

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