Terça-feira, 16 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1045
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ARMAZéM LITERáRIO >

Festa silenciosa

Por Renato Tardivo em 15/10/2013 na edição 768

João Anzanello Carrascoza é um dos principais escritores brasileiros em atividade. Nos últimos anos, o autor conciliou quantidade e qualidade: publicou diversos títulos, todos bem recebidos pela crítica. Para citar os mais recentes, em 2010 lançou Espinhos e alfinetes; em 2011, A vida naquela hora (3º lugar no Prêmio Clarice Lispector) e Amores mínimos (entre os quatro finalistas do Prêmio Portugal Telecom); em 2012, Aquela água toda (vencedor do Prêmio APCA).

Além de um universo ficcional próprio, no qual se percebe, não obstante, a influência de Raduan Nassar, Guimarães Rosa e Clarice Lispector, esses livros – e os outros que o autor publicara para o público adulto – têm em comum o gênero: são todos volumes de contos. Carrascoza, portanto, comprovara ser um mestre das narrativas curtas; contos mais antigos já davam prova disso, como O menino e o peão e O vaso azul.

Infância do menino, vida do homem

Meses atrás, o escritor lançou mais um título: Aos 7 e aos 40. Mas o livro é inaugural, uma vez que se trata de seu primeiro romance. De começo, o inusitado projeto gráfico chama a atenção. No índice, os títulos dos capítulos, quase sempre antônimos, intercalam-se na metade de cima e na metade de baixo da folha. Ainda, ao longo de todo o livro, o papel na parte superior é verde claro e, na inferior, verde acinzentado.

Projeto gráfico e estrutura narrativa apresentam-se em harmonia. O romance possui dois narradores; a história, dois tempos. A parte de cima, “aos 7”, é narrada em primeira pessoa e no passado; a de baixo, “aos 40”, também no passado, traz um narrador em terceira pessoa e a prosa é fragmentada, lembrando por vezes a estrutura de um poema. O fluxo contínuo e esparramado das descobertas que marcam a infância do menino se quebra ao longo da vida do homem.

Instante e existência

Conquanto haja certa autonomia entre os capítulos – e as histórias –, há movimento entre as duas margens, que ora correm uma da outra, ora uma para a outra. A destreza de Carrascoza em condensar pela palavra – na palavra – instante e existência atinge neste romance um de seus melhores momentos.

O homem-menino, aos 7 e aos 40, sempre às voltas com “o fim” e “o recomeço”, estabelece vínculos, no interior e na metrópole, marcados pela bondade e generosidade. Todos se doam – e se doem. O casal em crise se ajuda, tanto nas tarefas cotidianas (lavar a louça) quanto nas mais doídas (a visita inesperada do ex-marido ao filho); meninos adversários em uma competição aprendem um com o outro e não se invejam. Tome-se, nesse sentido, a passagem entre mãe e filho: “dói até para engolir a saliva, não é, querido?, / não só porque ela tivera, ao longo da vida, o mesmo problema / – inevitavelmente ele o herdada – / mas, talvez por acreditar que, / falando da dor do filho, / a trouxesse para si / e nele a reduzisse.”

O resgate da bondade e generosidade humanas, contudo, não nos absolve de nossas fraquezas, de nossa impotência, da fragmentação da voz que, da primeira pessoa à terceira, se perde de si mesma. Antes, bondade extrema e fragilidade caminham juntas. Neste romance artesanal e poético não se ressuscita “depois de morrer, mas depois de viver”. Assim, pelos extremos, Carrascoza constrói o miolo, e sua ficção, trágica e lírica, reaproxima-se da vida, uma festa silenciosa na qual as mínimas alegrias são tristes, não voltarão.

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Renato Tardivo é escritor e psicanalista

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