Domingo, 24 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1025
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O jornalismo filosófico de Machado de Assis

Por Vitor Cei em 29/10/2013 na edição 770

Jornalismo filosófico parece um oximoro, pois as práticas do jornalismo e da filosofia na maioria das vezes excluem-se mutuamente: enquanto uma se apressaria para abordar o particular, a outra se debruçaria demoradamente sobre problemas universais. Não obstante, as crônicas de Joaquim Maria Machado de Assis, publicadas em jornais cariocas no século 19, escapam dessa dicotomia simplista. O estatuto múltiplo do texto machadiano cumpriu e ainda cumpre função de marco cultural, como mostra muito bem o recém-lançado livro de Alex Sander Luiz Campos Machado de Assis contra a concepção de sujeito solar: implicações na crônica.

Considerando que as crônicas de Machado de Assis, publicadas pelo escritor-jornalista ao longo de sua vida, ainda não possuem a investigação e a fortuna crítica que seguramente merecem, o livro chegou em boa hora. A pesquisa de Campos, apresentada originalmente na Universidade Federal de Minas Gerais como dissertação de mestrado em Literatura Brasileira, ao renovar a recepção crítica do jornalismo literário machadiano torna-se leitura indispensável para todos os interessados no assunto.

Machado de Assis contra a concepção de sujeito solar analisa a crítica que o fundador da Academia Brasileira de Letras faz ao ditame metafísico da unidade do sujeito, mostrando as implicações dessa postura nas crônicas das duas últimas séries lançadas pelo autor: “Bons dias!”, publicadas nos jornais Gazeta de Notícias e Imprensa Fluminense entre 1888 e 1889, e “A semana”, publicadas na Gazeta de Notícias de 1892 a 1897.

Sujeito fraturado

Diante da variedade narrativa das crônicas machadianas, o livro identifica, em cada uma das séries, um cronista distinto, dotado de características particulares: em “Bons dias!”, o cronista Policarpo, ex-relojoeiro atormentado em um mundo de relógios em descompasso; em “A semana”, um cronista enfastiado com os chamados “assuntos graves”. A primeira parte do livro, composta por considerações teóricas, começa com um estudo muito bem documentado sobre a crônica e seu lugar na obra de Machado de Assis para, a seguir, introduzir a questão central da fratura do sujeito. A segunda parte, estudo do corpus, oferece ao leitor uma instigante leitura das duas últimas séries de crônicas de Machado.

Baseando-se na concepção de sujeito fraturado proposta por Luiz Costa Lima e na heteronímia do poeta português Fernando Pessoa, Campos faz uma minuciosa leitura do texto machadiano e conclui que a “heteronomia” em Machado de Assis deve ser entendida em sentido amplo: mantendo o controle de suas criações literárias, o escritor teria praticado o “outramento” a fim de ocultar-se, dificultando o trabalho daqueles que procuram por uma “identidade anterior” à ficção e dando vida a uma galeria notável de cronistas, capaz de pôr em xeque, como o fazem os heterônimos pessoanos, a concepção solar de sujeito.

Considerando-se que o tema da unidade do sujeito foi exaustivamente discutido na história da filosofia, de René Descartes aos contemporâneos, Machado de Assis contra a concepção de sujeito solar ganharia ainda mais consistência se recorresse às principais fontes desses conceitos. Descartes, Immanuel Kant, Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Martin Heidegger, dentre outros, na maior parte do texto são citados indiretamente, a partir da leitura de Costa Lima. O professor emérito da PUC-RJ, mesmo sendo um dos mais importantes críticos e teóricos da literatura no Brasil, é fonte secundária em relação ao tema.

Heteronomia

Na sequência das partes, sob uma perspectiva comparatista, Campos assegura que Machado de Assis, assim como Fernando Pessoa, tem heterônimos, isto é, pessoas imaginárias a quem se atribui uma obra literária, com autonomia de estilo em relação ao autor. A proposição é polêmica e, mesmo com a indicação de que deve ser entendida em sentido amplo, é difícil de sustentar. A defesa da contrariedade machadiana à concepção de sujeito solar, isto é, o golpe de Machado ao ditame metafísico daunidade do sujeito monadicamente constituído, ao demonstrar que não há para o sujeito a possibilidade da centralidade, não leva necessariamente a uma defesa da heteronomia, como parece entender Campos.

Nos textos dos pseudônimos e autores ficcionais de Machado de Assis, como o ex-relojoeiro Policarpo e o cronista inominado d’”A semana”, podemos perceber, como aponta Campos, o esboço ou o despontar de personalidades singulares, mas não há a constituição de estilos, personalidades e biografias próprias e distintas como podemos ler em Ricardo Reis, Álvaro de Campose Alberto Caeiro, os principais heterônimos de Fernando Pessoa. Considerando-se que sujeito fraturado e heterônimo são dois conceitos distintos, o escritor brasileiro pode ser um sujeito fraturado, apresentando perspectivas distintas em diferentes obras, mas, diferentemente do poeta português, não apresenta heterônimos com identidade autônoma e poética particular. Ainda assim, a comparação com o autor de Mensagem, no aspecto do questionamento da centralidade do sujeito, é válida e oferece instigantes nuances de leitura.

Com este livro controverso, o jovem pesquisador Alex Sander Luiz Campos, expondo aquilo que há de pulsante e contraditório nas crônicas de Machado de Assis, mostra-se capaz de consolidar terreno e abrir novas perspectivas para os estudos da obra do escritor que foi “cronista de cronistas e cronista entre cronistas”.

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Vitor Cei é doutorando em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador visitante na Universidade Livre de Berlim

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