Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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ARMAZéM LITERáRIO >

Um romance, uma biografia

Por Ubiratan Brasil em 03/12/2013 na edição 775

Carlos Lacerda (1914-1977) é habitualmente lembrado como um polemista convicto, dono de uma oratória que se tornou clássica. Poucos sabem, porém, que aquele homem que comandou a ferrenha campanha contra Getúlio Vargas manteve uma fraterna amizade epistolar de 15 anos com Mario de Andrade. Ou ainda que o político que teve os direitos cassados depois do golpe de 1964 se interessava por biossociologia e parapsicologia. Foram justamente esses detalhes quase desconhecidos que nortearam Rodrigo Lacerda a escrever A República das Abelhas, lançado nesta semana pela Companhia das Letras.

Trata-se de um romance histórico em que Rodrigo revela outra faceta de seu avô, um dos mais interessantes personagens brasileiros do século 20. “Meu interesse não foi fazer uma biografia tradicional, com datas rígidas, mas um retrato literário que, a partir de flashes, captassem a essência de Carlos Lacerda”, conta Rodrigo, cujo ponto de partida foi um conto de sua autoria, Política, em que traziam suas lembranças de menino de 9 anos do velório do avô.

Ao começar as pesquisas para o romance, porém, o escritor percebeu que muitos atos de Carlos Lacerda se justificavam pelo histórico familiar. Ou seja, que ele percorreu trajetórias semelhantes às do pai, Maurício, que iniciou a carreira no Partido Republicano até se transformar em um socialista utópico. Também às dos irmãos Fernando e Paulo, dois comunistas, e ainda do avô, Sebastião, que era um republicano abolicionista. “Uma das explicações para o antigetulismo de Carlos foi o fato de Maurício ter sido asfixiado politicamente por Vargas”, observa Rodrigo.

Por conta disso, o livro, apesar de focado na vida e trajetória de Carlos Lacerda, ocupa metade das suas páginas para contar a história de seus antecessores, igualmente fascinantes. “Meu plano era começar a narrativa em 1930, com a revolução, e terminar em 1977, com a morte de Carlos. Mas a riqueza familiar me obrigou a recuar no tempo a ponto de a trajetória do meu avô só começa a aparecer de fato a partir da metade do livro.”

Jornalista atuante, Carlos Lacerda deixou um farto material documental em artigos e reportagens. Também sua correspondência e seus discursos foram editados. Sua vida inspirou ainda uma biografia em dois volumes escrita pelo americano John Watson Foster Dulles. Com tanto material à disposição, Rodrigo percebeu que, se optasse por uma biografia linear, narrada na terceira pessoa, pouco poderia acrescentar. “E, por ser neto, minha imparcialidade também não seria convincente.”

Daí a opção por escrever na primeira pessoa, deixando a condução com o próprio Carlos. Tomada essa decisão, Rodrigo conseguiu engrandecer a biografia com traços mais romanísticos, uma vez que as divagações políticas do avô se alternam com a lembrança de fatos que realmente aconteceram, um fluxo narrativo que ainda beira o fantástico ao incluir trechos curiosos como a observação de Lacerda, já morto e enterrado, sobre os caixões de parentes que estão no mesmo jazigo. Ou a absorvente descrição de seu velório e enterro.

“Pretendi tirar o político do foco e fazer com que a narração ganhasse um olhar mais autocrítico de meu avô, um questionamento de si mesmo que não seria possível no calor dos acontecimentos”, diz Rodrigo.

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Trecho de A República das Abelhas

“Até que demorei a me candidatar a um cargo eletivo, por achar impossível conciliar política e jornalismo. Em compensação, quando tive meu próprio jornal, inseri-me na mais pura tradição brasileira da imprensa oposicionista, que vinha dos tempos do Império: bater firme, ser incisivo e arrebatado. Tentava apenas, quando batia, conferir alguma base documental aos meus impropérios. E continuei a atuar desse jeito quando entrei para a política. Curiosamente, ainda assim a Tribuna da Imprensa nunca foi propiciamente um jornal de partido, até porque o meu partido não tinha um discurso unificado, então não dava para o jornal se pôr a serviço de algo que não existia. Ele acabava verbalizando as minhas opiniões e, com sorte, o discurso de um pedaço do partido. Só que eu não noticiava apenas as divergências do partido com o governo, o adversário externo, mas com os outros pedaços dele mesmo. Ou seja, tornava públicas as crises internas, contribuindo muitas vezes, querendo ou não, para aumentá-las. Nesse sentido, ou eu fragilizava meu partido, ou traía meu jornal. Então, realmente, ‘conciliar’ as duas atividades era difícil. Mas elas nasciam misturadas para mim, e conviviam, em permanente atrito.”

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Ubiratan Brasil, do Estado de S. Paulo

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