Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
Menu

ARMAZéM LITERáRIO >

A pena afiada de Lima Barreto

Por Walnice Nogueira Galvão em 28/01/2014 na edição 783

Uma questão vital na obra de Lima Barreto é o nacionalismo, de que o escritor tinha uma concepção fortemente crítica. O tema, que pervaga em textos maiores e menores, resultaria em sua obra-prima, Triste Fim de Policarpo Quaresma. Prefigurando o modernismo, nosso autor viria a ser o maior dos antiufanistas. As lentes impiedosas de sua visão esquadrinham o conjunto do país e todas as classes, em pinceladas de caricatura. E a afiada pena do escárnio não pouparia ninguém.

Num balanço de nossas letras na belle époque, em que se tornou hegemônica uma concepção da literatura como “sorriso da sociedade”, verificamos que dentre os escritores a maioria fez puro beletrismo, mesmo que um ou outro dê mostras de algum vislumbre dos desajustes vigentes no corpo social. De todo modo, desaparecidos Machado de Assis e Euclides da Cunha, e tendo Aluísio de Azevedo desertado da literatura precocemente, tenderam a predominar nas letras o mundanismo e a frivolidade. É nesse quadro tão desfavorável que eclode o perfil poderoso e inquebrantável de Lima Barreto.

Ao publicar Recordações do Escrivão Isaías Caminha, nosso autor rompe com o diletantismo vigente e denuncia o preconceito de cor. Retratando com tintas cáusticas o ambiente de uma redação de jornal, amplia a denúncia para incluir nela as relações turvas de subserviência entre a imprensa e os políticos. Causou estranheza, pois era um romance que não privilegiava os amores de um casal, como era usual na literatura de então. Doravante, toda a obra de Lima Barreto, que a vida inteira produziria numerosas crônicas para jornais e revistas, será polêmica.

Se Recordações põe no centro da cena um mulato às voltas com os tropeços causados pelo racismo, já Numa e a Ninfa aborda uma ascensão pessoal na carreira pública: seu objetivo é mostrar a falta de integridade em nossa vida política e administrativa. Surgem o deputado, o cabo eleitoral, o ambiente do parlamento, o funcionamento dos partidos, as relações com a imprensa, os capangas, a corrupção generalizada, a fauna típica da rua do Ouvidor que todos palmilhavam. E em Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, que trata de um funcionário público infeliz e ressentido, ridiculariza a ineficiência da burocracia vista por dentro, as elites que só favorecem seus interesses, o bacharelismo e o culto a títulos como o de “doutor”.

A passagem da crônica ao romance se faz sem grandes rupturas, já que visa uma integração à estrutura propriamente romanesca. Entretanto, é na crônica que vamos encontrar o polemista em toda a sua plenitude.

A continuidade do paradigma realista

É difícil indicar uma lacuna na pletora de males que Lima Barreto acusou, especialmente nas crônicas reunidas nos volumes de Os Bruzundangas, Feiras e Mafuás, Bagatelas. O racismo; a marginalização dos pobres; a futilidade das letras e das artes; a opressão da mulher; a corrupção da imprensa e dos políticos; as pretensões dos colonizados a macaquear os europeus; a alienação que coloca no jogo do bicho a esperança de uma vida melhor; a precariedade da educação e do ensino; a deturpação da linguagem através de estrangeirismos e arcaísmos; a preferência pelos vocábulos preciosos e exóticos; e assim por diante. Virulento e feroz mais ainda nas crônicas que nos romances, o bom satirista não fugia à grosseria e à chalaça.

Nesse elenco de mazelas, seria o caso de elucidar algumas conhecidas implicâncias de nosso autor, que poderiam escandalizar quem vê nele um paladino das camadas populares, o que de fato era. É o caso do feminismo, do futebol e do samba, contra os quais assestou incessantes farpas.

Apesar de protestar contra a opressão da mulher em Clara dos Anjos e similares, o escritor não tolerava o feminismo. Bandeira de damas pertencentes à elite, aparecia a Lima Barreto sob a forma de melindres de grã-finas desocupadas. Ele o fustigou, sem deixar de dar sua adesão às mulheres oprimidas.

A oposição ao futebol consumiu muito de seus textos e até de suas atividades, pois acarinhou a ideia de uma associação que o combatesse. É que o futebol, então em seus inícios no Brasil, além de ser uma importação que vinha da Inglaterra, constituía um divertimento de diletantes brancos e ricos, bem diferente do que viria a se tornar depois.

Também não tinha ouvido para samba, que lhe parecia grosseiro e depreciativo da sensibilidade do povo: este, a seu ver, merecia coisa melhor. Fazia parte da missão que assumiu de lutar contra a tirania do mau gosto e da massificação.

Ao colocarmos Lima Barreto no panorama da belle époque, verificamos como é pioneiro na resistência ao preciosismo vigente. Buscando uma língua literária que se dispa do artificialismo parnasiano e simbolista, vai batalhar por um maior despojamento. Nisso antecipa conquistas do modernismo.

Se o cotejo com o modernismo evidencia o precursor, já outro cotejo, este com Machado de Assis, que o antecedeu, expõe a continuidade do paradigma realista, com discordância quanto aos resultados. Em todo caso, se o Mestre explicitou em feliz fórmula o “tédio à controvérsia”, nada poderia ser mais distante das iras de Lima Barreto, em perene pé de guerra.

A silhueta de inconformista

Onde avança muito com relação aos predecessores é no romance social. A literatura da época praticou amiúde esse formato, sem conseguir fugir de todo aos estereótipos românticos, que tinham a consequência indesejável de invalidar seu escopo. É o que se passa com Taunay, Alencar, Bernardo Guimarães, Aluísio de Azevedo, Domingos Olímpio, em seus altos e baixos.

Nesse sentido, Triste Fim de Policarpo Quaresma é uma culminação, para a qual convergem o antiufanismo, a crítica social e a linguagem realista. As marcas estilísticas do autor – panfletário, caricatural e cronista – se mantêm e se desenrolam harmoniosamente, adequadas que são ao tema e a seu tratamento. O pobre Policarpo é um patriota sincero, ansioso por abraçar a pátria que se esquiva. Pode devotar-se a uma campanha pela adoção da língua tupi como a única autenticamente nacional. Ou então ao aprendizado do violão, instrumento do povo. Ou ainda a uma volta à terra propiciada pela lavoura que as formigas acabam por devorar. De desastre em desastre, quando a Revolta da Armada ameaça a pátria, apresenta-se como voluntário para defendê-la. Ao protestar contra o fuzilamento dos revoltosos aprisionados, confundido com eles, vai ver os próprios companheiros de armas tornarem-se seus inimigos.

Tanto no caso desse como dos demais romances, e não desmerecendo de outros protocolos de leitura, a atenção ao contexto pode fornecer uma boa abertura para ler e compreender Lima Barreto. Apreciando cada narrativa em meio às letras que a enquadram à época, torna-se possível divisar os desdobramentos centrais de nossa literatura. Desse modo, o leitor adquire uma noção mais do que satisfatória de um autor decisivo, bem como do pano de fundo contra o qual sua silhueta de inconformista se delineia.

******

Walnice Nogueira Galvão é professora emérita da FFLCH-USP. Autora de livros sobre Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, crítica literária e cultural. Seu último livro é Sombras & Sons (2011)

Todos os comentários

ARMAZéM LITERáRIO >

A pena afiada de Lima Barreto

Por Walnice Nogueira Galvão em 28/01/2014 na edição 783

Uma questão vital na obra de Lima Barreto é o nacionalismo, de que o escritor tinha uma concepção fortemente crítica. O tema, que pervaga em textos maiores e menores, resultaria em sua obra-prima, Triste Fim de Policarpo Quaresma. Prefigurando o modernismo, nosso autor viria a ser o maior dos antiufanistas. As lentes impiedosas de sua visão esquadrinham o conjunto do país e todas as classes, em pinceladas de caricatura. E a afiada pena do escárnio não pouparia ninguém.

Num balanço de nossas letras na belle époque, em que se tornou hegemônica uma concepção da literatura como “sorriso da sociedade”, verificamos que dentre os escritores a maioria fez puro beletrismo, mesmo que um ou outro dê mostras de algum vislumbre dos desajustes vigentes no corpo social. De todo modo, desaparecidos Machado de Assis e Euclides da Cunha, e tendo Aluísio de Azevedo desertado da literatura precocemente, tenderam a predominar nas letras o mundanismo e a frivolidade. É nesse quadro tão desfavorável que eclode o perfil poderoso e inquebrantável de Lima Barreto.

Ao publicar Recordações do Escrivão Isaías Caminha, nosso autor rompe com o diletantismo vigente e denuncia o preconceito de cor. Retratando com tintas cáusticas o ambiente de uma redação de jornal, amplia a denúncia para incluir nela as relações turvas de subserviência entre a imprensa e os políticos. Causou estranheza, pois era um romance que não privilegiava os amores de um casal, como era usual na literatura de então. Doravante, toda a obra de Lima Barreto, que a vida inteira produziria numerosas crônicas para jornais e revistas, será polêmica.

Se Recordações põe no centro da cena um mulato às voltas com os tropeços causados pelo racismo, já Numa e a Ninfa aborda uma ascensão pessoal na carreira pública: seu objetivo é mostrar a falta de integridade em nossa vida política e administrativa. Surgem o deputado, o cabo eleitoral, o ambiente do parlamento, o funcionamento dos partidos, as relações com a imprensa, os capangas, a corrupção generalizada, a fauna típica da rua do Ouvidor que todos palmilhavam. E em Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, que trata de um funcionário público infeliz e ressentido, ridiculariza a ineficiência da burocracia vista por dentro, as elites que só favorecem seus interesses, o bacharelismo e o culto a títulos como o de “doutor”.

A passagem da crônica ao romance se faz sem grandes rupturas, já que visa uma integração à estrutura propriamente romanesca. Entretanto, é na crônica que vamos encontrar o polemista em toda a sua plenitude.

A continuidade do paradigma realista

É difícil indicar uma lacuna na pletora de males que Lima Barreto acusou, especialmente nas crônicas reunidas nos volumes de Os Bruzundangas, Feiras e Mafuás, Bagatelas. O racismo; a marginalização dos pobres; a futilidade das letras e das artes; a opressão da mulher; a corrupção da imprensa e dos políticos; as pretensões dos colonizados a macaquear os europeus; a alienação que coloca no jogo do bicho a esperança de uma vida melhor; a precariedade da educação e do ensino; a deturpação da linguagem através de estrangeirismos e arcaísmos; a preferência pelos vocábulos preciosos e exóticos; e assim por diante. Virulento e feroz mais ainda nas crônicas que nos romances, o bom satirista não fugia à grosseria e à chalaça.

Nesse elenco de mazelas, seria o caso de elucidar algumas conhecidas implicâncias de nosso autor, que poderiam escandalizar quem vê nele um paladino das camadas populares, o que de fato era. É o caso do feminismo, do futebol e do samba, contra os quais assestou incessantes farpas.

Apesar de protestar contra a opressão da mulher em Clara dos Anjos e similares, o escritor não tolerava o feminismo. Bandeira de damas pertencentes à elite, aparecia a Lima Barreto sob a forma de melindres de grã-finas desocupadas. Ele o fustigou, sem deixar de dar sua adesão às mulheres oprimidas.

A oposição ao futebol consumiu muito de seus textos e até de suas atividades, pois acarinhou a ideia de uma associação que o combatesse. É que o futebol, então em seus inícios no Brasil, além de ser uma importação que vinha da Inglaterra, constituía um divertimento de diletantes brancos e ricos, bem diferente do que viria a se tornar depois.

Também não tinha ouvido para samba, que lhe parecia grosseiro e depreciativo da sensibilidade do povo: este, a seu ver, merecia coisa melhor. Fazia parte da missão que assumiu de lutar contra a tirania do mau gosto e da massificação.

Ao colocarmos Lima Barreto no panorama da belle époque, verificamos como é pioneiro na resistência ao preciosismo vigente. Buscando uma língua literária que se dispa do artificialismo parnasiano e simbolista, vai batalhar por um maior despojamento. Nisso antecipa conquistas do modernismo.

Se o cotejo com o modernismo evidencia o precursor, já outro cotejo, este com Machado de Assis, que o antecedeu, expõe a continuidade do paradigma realista, com discordância quanto aos resultados. Em todo caso, se o Mestre explicitou em feliz fórmula o “tédio à controvérsia”, nada poderia ser mais distante das iras de Lima Barreto, em perene pé de guerra.

A silhueta de inconformista

Onde avança muito com relação aos predecessores é no romance social. A literatura da época praticou amiúde esse formato, sem conseguir fugir de todo aos estereótipos românticos, que tinham a consequência indesejável de invalidar seu escopo. É o que se passa com Taunay, Alencar, Bernardo Guimarães, Aluísio de Azevedo, Domingos Olímpio, em seus altos e baixos.

Nesse sentido, Triste Fim de Policarpo Quaresma é uma culminação, para a qual convergem o antiufanismo, a crítica social e a linguagem realista. As marcas estilísticas do autor – panfletário, caricatural e cronista – se mantêm e se desenrolam harmoniosamente, adequadas que são ao tema e a seu tratamento. O pobre Policarpo é um patriota sincero, ansioso por abraçar a pátria que se esquiva. Pode devotar-se a uma campanha pela adoção da língua tupi como a única autenticamente nacional. Ou então ao aprendizado do violão, instrumento do povo. Ou ainda a uma volta à terra propiciada pela lavoura que as formigas acabam por devorar. De desastre em desastre, quando a Revolta da Armada ameaça a pátria, apresenta-se como voluntário para defendê-la. Ao protestar contra o fuzilamento dos revoltosos aprisionados, confundido com eles, vai ver os próprios companheiros de armas tornarem-se seus inimigos.

Tanto no caso desse como dos demais romances, e não desmerecendo de outros protocolos de leitura, a atenção ao contexto pode fornecer uma boa abertura para ler e compreender Lima Barreto. Apreciando cada narrativa em meio às letras que a enquadram à época, torna-se possível divisar os desdobramentos centrais de nossa literatura. Desse modo, o leitor adquire uma noção mais do que satisfatória de um autor decisivo, bem como do pano de fundo contra o qual sua silhueta de inconformista se delineia.

******

Walnice Nogueira Galvão é professora emérita da FFLCH-USP. Autora de livros sobre Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, crítica literária e cultural. Seu último livro é Sombras & Sons (2011)

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem