Quinta-feira, 24 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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ARMAZéM LITERáRIO > ANTONIO CALLADO (1917-1997)

O quieto e doce ‘inglês’

Por Ronaldo Pelli em 04/02/2014 na edição 784
Reproduzido da Revista de História, 24/10/2013

“Quando nos conhecemos, ele era viúvo, tinha três filhos e uma história. Aceitava seus silêncios. Callado não falava nada sobre seus projetos. Ele era muito namorador, mas se eu tivesse que ter ciúme de alguma coisa, não seria de mulher nenhuma. Seria da literatura e dos livros. Com a Fotobiografia, sei que meu compromisso com a memória dele está honrado. Publicado o livro, eu me divorcio definitivamente de Antonio Callado. Que os outros cuidem dele a partir de agora”, explica a jornalista e viúva Ana Arruda Callado, organizadora, com o apoio dos filhos, netos e sobrinhos, desta biografia em imagens.

A obra de mais de 450 páginas é lançada nesta quinta-feira (24/10/2013), na Academia Brasileira de Letras, no Centro do Rio, com um debate entre os acadêmicos Nélida Piñon e Eduardo Portella, além da própria Ana Arruda Callado. O livro traz detalhes em histórias, depoimentos, fotos e documentos que permitem conhecer de perto um pouco das vivências e da trajetória do romancista, teatrólogo, professor, jornalista e até compositor.

“Ele era, não vou dizer fleumático, mas era um homem que sabia conter manifestações excessivamente emocionais, que sabia manter-se calmo diante de situações críticas”, já comentou sobre Callado, João Ubaldo Ribeiro. “O único inglês da vida real”, como gostava de dizer Nelson Rodrigues. O psicanalista Hélio Pellegrino o definiu como “um doce radical”. Já Carlos Heitor Cony optou por contar outro detalhe: “Antonio Callado foi o único jornalista brasileiro pessoalmente proibido de escrever em jornais”. Segundo Cony, de 1964 a 1968, ainda foi possível ter algum tipo de liberdade – mesmo que vigiada de perto. Mas “Callado foi o único profissional que por decreto do governo ficou proibido de escrever. Os outros ou se proibiram ou não quiseram se manifestar.”

Como profissional de imprensa, trabalhou na BBC em plena Segunda Guerra Mundial, e lutou contra o governador do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda, que, entre outras atitudes impopulares, tentou transferir a população de Brás de Pina, no subúrbio, para o bairro de Bangu, na Zona Oeste. Mas um bilhete datado de 2 de outubro de 1965 demonstra toda a sua cordialidade:

“Meu caro Carlos:

Esta é uma nota estritamente pessoal, de quem continua em total oposição a você do ponto de vista político, mas que quer ver você com a mesma desaforada saúde.”

No início de 1960, a partir de uma viagem para Pernambuco, escreveu reportagem sobre as Ligas Camponesas e Francisco Julião [como se pode ver aqui]. A matéria recebeu o Prêmio Esso e foi compilada no livro “Os industriais da seca e os galileus de Pernambuco”.

Na seara ficcional, Callado também foi autor de Quarup, que, segundo Cony, “representou para os anos 60 o mesmo queGrande Sertão: Veredas representou para os anos 50”. Quarup traça a história do Parque Nacional do Xingu, do seu início até 1964. Seu personagem principal, o padre Nando, que no início da obra quer levar a fé aos índios, no final da trama, depois de preso e torturado, decide participar da guerrilha contra a ditadura. Detalhe: o livro foi publicado em 1967, em pleno regime ditatorial. Ao lado de versões das capas diversas e trechos do original, é possível ver recados de Guimarães Rosa e até mesmo de Orlando Villas Bôas, que brinca com o termo Quarup (grafado “Kharup”), que é o ato de reviver a lenda da criação, segundo os índios da região, após a morte de um grande herói da linhagem de Maivotsinin – mas que Callado não poderia ser “Quarupado”, já que tinha se tornado imortal ao adentrar a ABL.

Com a fotobiografia, será possível conhecer a trajetória de Callado no Brasil, desde o seu primeiro ancestral alentejano que pisou aqui, até os últimos descendentes do escritor, entremeados das suas amizades intelectuais, influências e, claro, suas obras. Quando Callado morreu, em 28 de janeiro 1997, dois dias depois de completar 80 anos, Nélida Piñon, então a presidenta da ABL, ficou encarregada de fazer o discurso e resumiu bem a saudade do amigo que ia: “Onde tantos se perderam em descaminhos de submissão, soubeste afirmar o primado da honradez”.

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Ronaldo Pelli, para a Revista de História

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