Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

ARMAZéM LITERáRIO > MTV

Ex-diretor revê histórias do canal em livro

Por Cristina Padiglione em 25/02/2014 na edição 787
Reproduzido do Estado de S. Paulo, 23/2/2014; título original “Ex-diretor da MTV revê histórias do canal em livro”

Foi no VMB de 2004, premiação do videoclipe que fez história na MTV Brasil, que Caetano Veloso presenteou o canal com um dos episódios mais emblemáticos de sua história. Durante um show seu com o escocês David Byrne, uma microfonia ensurdecedora levou a MTV a chamar dois breaks comerciais fora do script, até que se identificasse o problema: um músico da banda do baiano havia esquecido um microfone aberto atrás do palco. “Ele ficou irritadíssimo. Deu um chilique, xingou todo mundo. Batendo palmas, ele se virou para uma das câmeras e disse, a altos brados: ‘Pessoal da Emetevê, vergonha na cara! Vamos começar de novo! Bota essa p… pra funcionar!”.

O piti de Caetano batiza o livro que Zico Goes, ex-diretor de Programação do canal, lança agora pela Panda Books. O tributo não é pelo chilique, e sim pelo efeito que representa para a trajetória de 23 anos de uma TV apresentada como uma “não TV”, disposta a zombar de suas falhas, em vez de cortá-las na edição, de rir de si e de encerrar seus programas no auge. “Havia uma regra oculta: quando o programa realmente amadurece, e você já o faz com os pés nas costas, é porque está na hora de mudar”, ensina Zico.

Em 168 páginas, o autor narra saborosas cenas de bastidores, modos e temperamentos de VJs, fala sobre as drogas de Thunderbird e João Gordo, as exigências de diva de Fernanda Lima, as birras de Daniella Cicarelli, os chiliques de Toni Garrido no Rockgol, a obsessão de Penélope Nova com o corpo e assume a manipulação de votações.

“A MTV interferia na contagem dos votos do Disk MTV. As pessoas de fato ligavam para pedir o clipe, mas nós tentávamos ajustar a parada para que ela tivesse certa regularidade. Até tentamos ser 100% democráticos, mas não deu certo: o programa ficou irregular e a audiência caiu”. Zico também faz mea-culpa sobre o período em que o canal ficou adolescente demais, com febre de banda Restart.

Careta

Não que a audiência fosse assim toda tatuada como seus VJs. Longe disso. Na análise do diretor, seu público era muito mais conservador do que a equipe do canal imaginava. Se nos Estados Unidos o jovem logo é incentivado a morar fora, o oposto acontece aqui, numa espécie de superproteção que só acomoda as novas gerações, sem que elas tenham contra o que se revoltar, observa.

“Quando você faz as pesquisas, começa a se decepcionar: caramba, então a minha audiência não é tão moderninha quanto eu acho que sou e quanto eu achava que ela era!”, argumenta Zico em conversa com o Estado em uma mesa da Real, a lendária lanchonete frequentada por televisivos ao lado do edifício que serviu de sede para a Tupi e, depois, para a MTV Brasil.

“Isso é uma lição pra quem faz televisão. A gente superestimava a nossa audiência: achava que ela era incrível, antenada, enquanto nós é que éramos antenados. E aí a gente ficava surpreso, ‘puxa, nossa audiência é careta, o mesmo cara que gosta do João Gordo gosta do Luciano Huck…’”

Analisar o nascimento da MTV na era pré-internet e todas as tentativas do canal de não perder público para a nova plataforma também merece o olhar de quem trafegou nesse universo antes e depois da web. Quem hoje precisa de um canal de TV para encontrar as músicas que lhe interessa, se o YouTube oferece o que se quer, quando e como se quer?

Zico lembra ainda a relação do intervalo comercial com a audiência e um modelo até então inexistente no Brasil. A MTV foi, afinal, o primeiro canal segmentado do País, e vinha em sinal aberto. Era preciso vender uma relação com a audiência e algumas marcas perceberam isso. Em contrapartida, o intervalo ficou tão casado ao conteúdo do canal, que quando alguém lá pagou para anunciar a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, houve telespectador que chiou.

“No fundo, o que eu queria dizer é: a MTV foi única, foi uma comunidade, foi um encontro de pessoas e nunca mais vai acontecer”, completa. “É um livro muito pessoal, de memória seletiva, inclusive esqueci de falar de algumas coisas: não falei de 20 e Poucos Anos, uma das coisas mais importantes que a MTV já fez. Acho que as críticas virão muito mais pelo que deixei de falar do que pelo que contei.”

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Cristina Padiglione é colunista do Estado de S. Paulo

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