Segunda-feira, 26 de Junho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº946

ARMAZéM LITERáRIO > JORNALISMO CAPENGA

Imprensa norte-americana serviu às elites na crise de 2008

Por Eleonora de Lucena em 25/03/2014 na edição 791
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 22/3/2014 # The Watchdog That Didn’t Bark – The Financial Crisis And The Disappearence Of Investigative Journalism, de Dean Starkman, Columbia University Press, 2014; R$ 28,15

Por parcialidade, arrogância, falta de visão e de investimentos, a mídia nos EUA falhou: não alertou o público sobre a construção da crise que explodiu em 2008 e que ainda reverbera no mundo. O noticiário se contentou em ouvir versões róseas de executivos financeiros, não investigou a realidade e deixou seus leitores sem informação relevante.

Pior: reforçou uma avaliação errada da situação e serviu aos interesses do mercado financeiro. A análise desse retumbante fracasso é do jornalista Dean Starkman, que dissecou arquivos, fez entrevistas e pesquisou a história de publicações.

O resultado está em “The Watchdog That Didn’t Bark – The Financial Crisis and the Disappearence of Investigative Journalism” [o cão de guarda que não latiu, a crise financeira e o desaparecimento do jornalismo investigativo], livro obrigatório para jornalistas –e não só.

Starkman afirma que o problema ocorre quando o mercado de mídia passa por transformações que colocam em xeque modelos de negócios. Redações menores, focadas no curtíssimo prazo e com menos fôlego para encarar investigações demoradas e custosas levaram os principais órgãos do jornalismo americano a perder a maior história da década, diz ele.

Enquanto tradicionais empresas jornalísticas enfrentam crise e não conseguem ver o contexto maior da notícia, o setor financeiro cresce de forma desregulada. Se até meados da década de 1980 as finanças não obtinham mais do que 16% dos ganhos corporativos da economia, nos anos 2000 já abocanhavam mais de 40% desses lucros.

Para além dos números, houve afrouxamento de controles estatais sobre o mercado, minguando as fontes de apuração para a mídia. Vicejou um tipo deslumbrado de jornalismo de economia, calcado em fontes oficiais empresariais, reproduzindo as informações edulcoradas de interesse de uma elite, com tonalidade ingênua e acrítica. As investigações abrangentes, preocupadas com público em geral e com busca de dados alternativos, foram deixadas de lado.

Investigações

Nem sempre foi assim. Apesar de a origem do jornalismo econômico estar ligada à divulgação de dados de interesse de empresas, Starkman rememora notáveis esforços investigativos que são marcos na história da mídia.

Até hoje tida como a melhor reportagem de negócios já escrita, a série de Ida Tarbell sobre a Standard Oil é um desses exemplos. Investigando as entranhas do império de John Rockefeller, ela encontrou trapaça e fraude. Editada em 1902 e 1903 na revista nova-iorquina “McClure’s”, provocou o processo para a divisão da companhia, imposta pelo Estado.

Se o jornalismo já foi capaz de destrinchar e enfrentar o superpoder, teve muitos momentos desprezíveis. O autor trata de relações nada éticas entre jornalistas e fontes. Lembra como as publicações, confiantes apenas na versão enganosa dos executivos de Wall Street, deixaram de alertar sobre a crise de 1929.

O livro mostra como a mídia nos EUA foi condescendente com o governo logo após a Segunda Guerra e obteve excelentes resultados financeiros, puxados pela ascensão da publicidade. Margens de 20% (como a Apple tem hoje) eram rotina.

Nas Redações, o jornalismo investigativo e uma nova forma de narrativa ganharam corpo, aproximando leitores do até então árido tema dos negócios. Mas a dinâmica de produção de notícias foi mudando com as transformações da economia.

Starkman afirma que Redações passaram atuar como se estivessem numa roda de hamster, produzindo freneticamente informações insulares e ralas, sem ter tempo ou vontade para expor contextos e fazer apurações contra a avalanche de dados truncados e parciais enviados pelas empresas de Wall Street.

Exceções

O livro aponta iniciativas de repórteres fora de grandes órgãos que conseguiram investigar e antecipar a crise, conectando-a com as megafirmas bajuladas pela mídia dominante. Essas apurações ocorreram fora de escritórios: percorreram estradas vicinais, ouvindo norte-americanos pobres e ludibriados, relata Starkman.

Uma editora de um grande jornal também percebeu que uma hecatombe poderia ocorrer. Prestes a entrar em licença-maternidade, deixou um roteiro para que a história fosse trabalhada na sua ausência. Nada foi feito.

Jornalista há quase 25 anos, Starkman é editor da “Columbia Journalism Review”. Talvez seu livro possa transpirar um entusiasmo superdimensionado sobre o jornalismo investigativo e seu papel no futuro da mídia. Mas, avaliando o passado, coloca o dedo na ferida.

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Eleonora de Lucena, da Folha de S.Paulo

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