Quinta-feira, 18 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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ARMAZéM LITERáRIO >

Das anotações de um correspondente

Por José Paulo de Andrade em 29/04/2014 na edição 796

O mundo pode ter perdido um grande ator, que era o sonho de nosso protagonista, mas o Jornalismo ganhou um jornalista diferenciado. Chega um momento na vida em que somos “intimados” por aqueles que gostam de nós a colocar no papel o que vivemos. Apesar de meus mais de cinquenta anos de carreira, não poucas vezes tenho respondido que o meu “memorial” ainda não está pronto, nem sequer passei da fase em que se encara o desafio do “papel em branco”, como se dizia antigamente. Hoje é o desafio da “tela em branco”, do processador de texto do computador. Blay decidiu enfrentá-lo.

Modesto, diz não ter a pretensão de contar fatos relevantes que testemunhou, prefere parodiar o astronauta Armstrong, dar o “pequeno passo para o homem”, contar o que chama de histórias que o fizeram se emocionar, se indignar, e a traçar sua marca pessoal. A começar de seu exame médico de ingresso na França, hoje sua segunda pátria, em que, com humildade, conta o constrangimento por que passou… Relata as dificuldades com a língua, que se aprende em aulas da Aliança Francesa, mas que se pratica mesmo é nas ruas, no balcão da padaria.

A burocracia brasileira, que muitos atribuem, não sem razão, aos portugueses, de acordo com Blay tem origem francesa e sua grande influência na cultura (fundação da USP), educação (Liceu Pasteur e Aliança Francesa) e vida pública (Forças Armadas e Força Pública, atual Polícia Militar paulista), especialmente na primeira metade do século XX.

Blay passou pelo surrealismo kafkiano, em uma delegacia de polícia, ao ter seus documentos roubados. Constatou que “boi em terra estranha é vaca”. A França não é exceção. Nos mais de trinta anos de atividade, quanta coisa passou por seus olhos e sentidos! Um correspondente internacional mostra seu valor pela interpretação dos fatos. Hoje, com os modernos meios de comunicação, a notícia está ao alcance de todos. É o tratamento dado que mostra o bom correspondente. A gama de entrevistados de Milton Blay é variada: políticos, escritores, artistas plásticos, músicos, cantores e esportistas garantiram preciosos espaços na programação das emissoras. Jorge Amado e Zélia Gattai passam por seu roteiro, com um mal-entendido com casal comunista amigo.

Visão humanista

Das margens do Tietê e do Pinheiros às do Rio Sena… do Sujinho da Consolação, em São Paulo, ao Harry’s de Paris, doze mil quilômetros de distância física, anos-luz de civilização e cultura a separá-lo das origens. Histórias curiosas, lendas, como a de Quasímodo, o corcunda de Notre Dame tomando sorvete. Crítico de si mesmo, Blay não se poupa ao relatar a pior entrevista que fez, por não conhecer praticamente nada da entrevistada, uma cantora respeitada em seu país. Lembra colegas queridos, que com ele partilharam as dificuldades, as tristezas e também as alegrias da profissão.

A “guerra das Malvinas-Falklands” é um momento de grande importância em sua carreira, ao impor sua análise contra a versão adotada por sua emissora na ocasião. Estava certo! Não deixa passar “barrigas” da imprensa, a maior de todas na Copa do Mundo de 1998, realizada na França. Apesar do grande número de repórteres brasileiros cobrindo o evento, nenhum se preocupou em acompanhar a véspera da decisão contra a França, quando nosso principal jogador foi levado às pressas para um hospital. Só restou aos “coleguinhas” o “Ó!” de surpresa na hora do jogo. Outra “gafe”: certos de que um Presidente da República usaria a noite parisiense para dormir, depois de um dia de compromissos, os jornalistas se dispersaram. Foram surpreendidos, na manhã seguinte, pela informação de que a “comitiva” tinha ido conhecer os encantos de Pigalle, o bairro boêmio de Paris. Uma farra paga com dinheiro do contribuinte.

Envereda pelos bastidores políticos dessa democracia que é praticada há muito mais tempo do que a nossa, mas que tem lances que lembram a nossa política, com uma casta acima do bem, do mal , da ética e da moral. Conta como um presidente francês foi “chantageado” por um caçador de nazistas e teve sua passagem pela vida pública marcada negativamente. Revela um “Tiririca” francês, também humorista. Não falta a Máfia em seus relatos, nem uma entrevista com renomado artista plástico que estava com vontade de falar, mas não a um jornalista, condição que ele prudentemente omitiu. É, na profissão tem dessas coisas, desses golpes de sorte… Saborosa, em sentido amplo, a revelação do destino dos subterrâneos da famosa Linha Maginot da Segunda Guerra que, se não serviu ao objetivo de conter o avanço alemão, hoje tem compromisso com a cozinha mais sofisticada.

De origem judaica, da qual se orgulha, tem visão humanista da complicada situação do Oriente Médio. Ler Milton Blay é antes de tudo conviver com um ser humano extraordinário, virtude que explica o grande jornalista que é. Tomem seus lugares e vamos “rodar a baiana” com ele!

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José Paulo de Andrade é jornalista, apresentador e comentarista da Rádio Bandeirantes, São Paulo

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