Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ARMAZéM LITERáRIO > LITERATURA REVISITADA

Falsificando Machado

Por ‘OESP’ em 13/05/2014 na edição 798
Editorial reproduzido do Estado de S. Paulo, 10/5/2014; intertítulo do OI

A autora de livros infantojuvenis Patrícia Engel Secco captou recursos da lei de incentivo de Ministério da Cultura para editar uma simplificação da novela O alienista, de Machado de Assis, da qual o Instituto Brasil Leitor distribuirá 300 mil exemplares para diversas instituições. A iniciativa não é isolada: isso também será feito com A pata da gazela, de José de Alencar.

Não se trata de paródia – caso de Memórias de minhas putas tristes, escrito em 2004 pelo Prêmio Nobel colombiano, Gabriel García Márquez, releitura assumida de A casa das belas adormecidas (de 1961), de outro laureado pela Academia Sueca, o japonês Yasunari Kawabata. A sra. Secco, cuja obra é vasta, mas sem ter necessariamente merecido repercussão crítica proporcional ao total de títulos, também não se propôs a adaptar os textos para seu público costumeiro. Isso já ocorreu antes com as fábulas populares atribuídas ao grego Esopo e vertidas pelo francês Jean de la Fontaine, mil anos depois. Há no mercado uma versão para o texto de Machado para história em quadrinhos, mas também não é o caso.

A ideia original, mas nada luminosa, dela foi diferente dos exemplos citados. Segundo Manya Millen, de O Globo, o objetivo dela é “levar boa leitura a quem não lê, sendo que o foco não é o público infantojuvenil, mas sim jovens e adultos já alfabetizados que não têm acesso ao livro”. Ela “garante, também, que toda a carpintaria literária de Machado, assim como a de Alencar, foi preservada”. Segundo a própria coordenadora do projeto, “houve um trabalho bastante elaborado para que Machado continuasse a ser Machado”. E, após explicar que não escreveu, mas acompanhou as revisões e aprovou o resultado, ela lembrou: “Falei em facilitar a leitura, não simplificar o texto. A complexidade de Machado está lá, ele é um gênio inigualável”.

Esforço intelectual

Não é bem isso. No Caderno2 do Estado de ontem [sexta-feira, 9/5], João Cesar de Castro Rocha deu um exemplo da simplificação: Machado escreveu “sagacidade”, “traduzido” para “esperteza”. E concluiu: “Esperteza evoca o célebre jeitinho brasileiro e seu sentido nada tem a ver com o contexto das quatro ocorrências da palavra na obra”.

A iniciativa gerou polêmica nas redes sociais. O escritor Ronaldo Bressane a apoiou, argumentando: “É preferível que o sujeito comece a ler através de uma adaptação bem-feita de um clássico do que seja obrigado a ler um texto ilegível e incompreensível segundo a linguagem e os parâmetros atuais”. Pelo visto, ele parece não ter lido as novelas vitimadas pela simplificação. O alienista A pata da gazela permitem leitura fácil e agradável sem exigir conhecimentos profundos das obras modificadas nem do vernáculo. Não é necessária ao leitor, por mais leigo que seja, a atenção exigida por Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, ou Os sertões, de Euclides da Cunha. Sem falar em Memórias póstumas de Brás Cubas, do próprio Machado de Assis.

“Pretensão e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”, diziam os antigos. Não é o caso da empreitada da sra. Secco: a simplificação de Machado e Alencar é uma contrafação, que, em vez de facilitar a leitura, modificará na essência textos de autores que ela diz admirar. E há algo mais grave: o aval do Ministério da Cultura à falsificação, permitindo o uso de recursos originários da lei de incentivo para enganar o “Brasil leitor” com a grosseira violação da obra de mestres no uso do vernáculo.

Ana Maria Machado, consagrada autora de livros infantis e membro da Academia Brasileira de Letras, definiu o engodo de forma exata e implacável: é “inconcebível passar a limpo um mestre da língua”.

Outro acadêmico, Domício Proença Filho, sugeriu: “Seria mais adequado situar em nota explicativa a significação e a sinonímia dos termos usados por ele”. Ou, quem sabe, verter para português escorreito os barbarismos dos discursos da companheira Dilma. Tanto uma quanto outra tarefa, contudo, exigiriam esforço intelectual e tempo de trabalho muito maiores do que simplesmente buscar sinônimos mais simples de termos aparentemente de difícil compreensão no dicionário para substituí-los.

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