Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > ANOS DE CHUMBO

Inventário da ditadura em 28 textos curtos

Por Alcir Pécora em 27/05/2014 na edição 800
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 24/5/2014; título original “Kucinski escreve inventário da ditadura em 28 textos curtos”, intertítulo do OI # Você vai voltar para mim – e outros contos, de Bernardo Kucinski, 192 pp., Editora Cosac Naify, São Paulo, 2014; R$ 29,90

“Você Vai Voltar para Mim ““ E Outros Contos”, do professor Bernardo Kucinski, é uma coleção de 28 textos curtos, cujo conjunto constitui um verdadeiro inventário de situações emblemáticas da ditadura brasileira. Pode-se fazer o exercício de distribuí-las em grupos temáticos.

Por exemplo, um, relativo às relações familiares: visões místicas e visitas aflitas de mães aos filhos presos; pais militantes que se sentem culpados ou são acusados de abandono dos filhos; confrontos entre pais conservadores e filhos rebeldes.

Um segundo grupo reúne situações barra-pesada da resistência armada: sadismo do torturador; sequelas das torturas; tensões e contradições das trocas de presos pelos embaixadores estrangeiros sequestrados; desejo de abandonar a luta perdida; paranoia de infiltrados e falsas acusações a companheiros; incômodo de disfarçar traços físicos na clandestinidade.

Como apêndice e contraponto a esse segundo grupo, está a nostalgia pelos tempos de militância. Debate político, risco aventureiro e sexo fácil sustentam certa erótica da vida no exílio, cujo fim pesa contra o presente anódino.

Um terceiro grupo temático diz respeito a questões que se poderiam chamar “de costume”: a estranha conciliação entre cerimônia religiosa fúnebre e materialismo político; a suburbana negra, acusada de subversiva por racismo; o estrangeiro, hippie e cabeludo, suspeito usual.

Lugares-chaves

Em todos esses grupos, os recursos de linguagem são restritos à economia de relatos jornalísticos, com narrador de terceira ou de primeira pessoa, transcrição de depoimentos, circunstâncias esquemáticas, fluxos de consciência unívocos e construção de personagens típicas.

A narração distanciada oscila entre o patetismo cômico, o humor negro e a ironia do “causo”. Mais que contos, podemos dizer que são textos com embocadura de crônica: captura rápida de eventos suficientes para caracterizar uma situação mais ou menos típica e seu vetor afetivo.

O conjunto está longe da invenção radical, da investigação imprevista ou de fôlego interpretativo, mas se estabelece competentemente como uma espécie de repertório de lugares-chaves etnográficos de um período contundente.

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