Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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ARMAZéM LITERáRIO > MACHADO REVISITADO

Simples assim

Por Humberto Werneck em 03/06/2014 na edição 801
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 1/6/2014; intertítulo do OI

Já pensou se vira moda essa história de dar uma guaribada no Machado de Assis para “facilitar” a leitura? A ideia, se bem entendi, é preparar o jovem leitor, esse burrinho, para um contato, mais adiante, com os textos originais. Em vez de batalhar para elevá-lo desde já às culminâncias da prosa machadiana, sem paternalismo, vamos puxar o Machado para baixo, expurgando tudo aquilo que não dê para entender logo de cara, o que, de quebra, dispensaria pais e mestres de muito esforço pedagógico.

Eliminar, para começo de conversa, aquelas palavras difíceis que o pernóstico do Machado insistia em usar. Opróbio. Incúria. Inextricável. Ritmos, sonoridades, sutilezas? Vamos ao que interessa, pô! Porque tem isto: o cara não vai direto ao ponto. Você custa a entender o que de fat se passou. Aquele lance da tal da Capitu no Dom Casmurro: até hoje ninguém sabe ao certo se a criatura traiu ou não o marido, Bentinho, com o melhor amigo dele, o Escobar. Faltou esclarecer, sem blá-blá-blá: a Capitu botou ou não chifre no Bentinho?

Fico a imaginar se o Machado de Assis não resultou um escritor pouco direto exatamente por lhe ter faltado, nos anos de formação, alguém que houvesse adaptado os livros que ele lia. Um Shakespeare simplificado, por exemplo, teria sido uma boa escola de clareza para o nosso Machado, moço mulato e pobre na então provinciana cidade do Rio de Janeiro. Aos poucos, num paciente aprendizado, ele poderia ter subido às culminâncias da arte do vate (isto é, poeta) inglês.

Faltou quem lhe ensinasse, entre outras manhas, que convém os capítulos de um romance terem mais ou menos o mesmo tamanho. Dê uma espiada e veja se estou exagerando: nos livros do Machado tem capítulos de pouquíssimas linhas, com tudo o que isso significa, inclusive, de desperdício de papel, uma folha inteira utilizada para conter umas poucas palavras. Além de enrolado, o escritor não aprendeu a otimizar o suporte, enchendo a folha inteira. Usando-a, por exemplo, para deixar claro – permita insistir no assunto – se a Capitu corneou ou não o Bentinho.

Péssimo exemplo

Se fosse só o Dom Casmurro… Veja o caso daquele conto, Uns Braços, tido, por alguma razão, como uns dos melhores do Machado de Assis. Apresentado, inclusive, como obra-prima da narrativa erótica. No entanto, meus amigos, a gente sabe que naquela história não acontece nada, ou quase nada de concreto. Cadê os fatos? Erotismo zero! Proponho aqui uma adaptação que, até para rimar, acrescente a Uns Braços um pouco de ação – mas ação que faça sentido para o jovem leitor dos dias de hoje. Não estou sugerindo que se mude a coisa para “Umas coxas”, mas, pelo amor de Deus, injetem ali um pouco de erotismo moderno.

Estou falando do Machado de Assis porque foi a adaptação de um texto dele, O Alienista, que provocou toda essa celeuma (= discussão acalorada ou apaixonada). Admito que não li esse Machado facilitado. Falha grave, estar aqui a escrever sobre algo que não li. Dá para perceber, em todo caso, que não se fez ali um trabalho completo. Sinal disso é terem mantido o título da história do médico surtado que internou no hospício a população inteira da cidade. Qual jovem de hoje, me digam, sabe dizer o que é “alienista”? Não reclamem se a tigrada empacar já no título. Por que não, em vez de O Alienista, “O médico especialista em doenças mentais”? Ou estão querendo que essa moçada vá ao dicionário?

Estou falando do Machado, retomo, mas poderia falar de muitos outros monstros sagrados da nossa literatura. O Guimarães Rosa, por exemplo, cujo badalado Grande Sertão: Veredas é um cipoal (palavra aqui usada em sentido figurado, quer dizer, não literal) de palavreado incompreensível, muitas vezes inventado! Começa assim: “Nonada”. Nonada, gente! Por que não botar “ninharia”, “insignificância”? Depois, aquelas centenas de páginas para só lá no final contar que o Riobaldo se apaixonou por outro jagunço, o Diadorim. Pelo menos fica esclarecido que não foi paixão de homem por homem, o que seria péssimo exemplo para a nossa juventude. Diadorim era mulher disfarçada de homem. Menos mal. Agora, cá pra nós – fica o toque para quando forem depenar o Rosa –, precisava mesmo de tantas páginas para desembuchar a história de um jagunço travesti?

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Humberto Werneck é colunista do Estado de S.Paulo

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