Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ARMAZéM LITERáRIO > RUBEM BRAGA (1913-1990)

Entrevista com o cronista capixaba

Por Domingo Gonzáles Cruz em 22/07/2014 na edição 808
Reproduzido d’O TREM Itabirano nº 107, julho/2014; título original “Entrevista com o cronista capixaba Rubem Braga”, intertítulo do OI

O cronista Rubem Braga escreveu uma crônica bastante original em outubro de 1958. Apresento um fragmento desse texto dele: “São trechos de um programa de televisão em que Machado de Assis é entrevistado 50 anos depois de sua morte. Suas respostas são frases que ele mesmo escreveu em crônicas, contos ou romances”.

O repórter solucionou bem a empreitada, mas no final da crônica o Bruxo do Cosme Velho respondeu às últimas perguntas com a astúcia que demarcou seu trajeto literário no decorrer da vida.

Repórter – “Muito obrigado, o senhor é muito franco em suas respostas.”

Machado – “A franqueza é a primeira virtude de um defunto.”

Repórter – “De qualquer modo, desculpe havê-lo incomodado. Mas é que neste programa sempre entrevistamos alguém que já morreu…”

Machado – “Há tanta coisa por esse mundo que não vale a pena ir ao outro arrancar de lá os que dormem.”

Tela ilusória

Resolvi entrevistar Rubem Braga. Não vou mandar um repórter até o outro mundo. Prefiro consultar seu belo livro Duzentas Crônicas Escolhidas (editora Record), da estante silenciosa.

Lá vai a primeira pergunta à deriva.

Repórter – Quando o senhor viu o mar pela primeira vez?

Rubem Braga – “A primeira vez que vi o mar eu não estava sozinho. Estava no meio de um bando de meninos. Nós tínhamos viajado para ver o mar.”

Repórter – Foi um encontro emocionante?

Rubem Braga – “Fomos ver o mar. Era de manhã, fazia sol. De repente houve um grito: o mar! Era qualquer coisa de largo, de inesperado. Estava bem verde perto da terra, e mais longe estava azul.”

Repórter – O que o senhor sabe sobre o vento Noroeste?

Rubem Braga – “Os sonâmbulos acordam cansadíssimos, pois é o vento Noroeste; a empregada perde o cartão de racionamento, o funcionário o ponto, o rapaz o dinheiro, o homem do escritório o passaporte, o professor a caneta-tinteiro, o autotransporte a direção, a mocinha a vergonha, o amante a chave, a mulher o dinheiro que gastou no penteado, o mundo a graça, e a mãe a paciência com esses meninos que estão impossíveis, impossíveis, açoitados pelo vento Noroeste, carregado de germes de espírito de porco em pó.”

Repórter – Sua opinião sobre viver?

Rubem Braga – “A vida bem pode ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio.”

Repórter – Duas coisas boas na vida?

Rubem Braga – “Viajar, partir… Voltar. Quando você está andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para o seu lado e, de repente, dar um chute perfeito – e ser aplaudido pelos serventes de pedreiro.”

Repórter – Dizer mais alguma coisa?

Rubem Braga – “Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.”

Fechei o livro e o cronista ficou pairando na tela ilusória do computador.

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Domingo Gonzáles Cruz é poeta e cronista.

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