Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > ‘CINQUENTA ANOS ESTA NOITE”

Memória, reflexão e experiência

Por Celso Lafer em 22/07/2014 na edição 808
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 20/7/2014; título original “‘Cinquenta Anos Esta Noite’, de José Serra”, intertítulos do OI

Os eventos vivenciados ao serem lembrados são pensados, pois é inerente à articulação de uma narrativa a busca de um significado que ao mesmo tempo particularize e generalize o seu alcance. Daí a importância de qualificadas narrativas, lastreadas na reflexão sobre a experiência, que permitem alargar o entendimento das múltiplas facetas do humano. É o que acontece com Cinquenta Anos Esta Noite, recém-publicado livro de José Serra.

Trata-se de relato que discute um recorte da sua vida e da sua formação na perspectiva organizadora das suas atividades de militante estudantil em 1964, das suas subsequentes experiências de exilado político, e que termina com seu regresso ao Brasil em 1977. García Márquez, na epígrafe do livro, afirma: “La vida no es lo que uno vivió, sino la que uno recuerda, y cómo la recuerda para contarla”. O que e o como Serra recorda, para nos contar, num texto claro e bem escrito, é extremamente interessante à luz de diversos pontos de vista e permeado pela atmosfera intelectual da sua geração – que é a minha.

Toda geração, sublinha Ortega y Gasset, na sua diversidade tem uma sensibilidade vital compartilhada e própria, que passa pela escolha dos seus escritores e poetas, dos seus músicos, filmes e teatro, dos seus ideais e costumes. O relato dessa sensibilidade confere densidade cultural a uma narrativa esclarecedora dos contextos da vida brasileira que Serra compartilhou com tantos de sua geração, como a política estudantil e o exílio. Este, como registra, “não é a ausência do país, estar longe de casa. É falta de documentos e impossibilidade de voltar”. É depender, em situações difíceis, da boa vontade de estranhos, como diz evocando Vivian Leigh/Blanche Dubois em Um Bonde Chamado Desejo.

Lições de Hannah Arendt

O exílio foi um aprendizado existencial, mas também intelectual para Serra. Deu-lhe uma visão do mundo e da América Latina. Confirmou, à luz do que vivera em 1964, a importância de compreender o que afeta as pessoas e a mecânica econômica da sociedade, estudando os fundamentos teóricos da economia e da sua aplicação e a indispensabilidade do “sistemático e abrangente confronto da realidade com a razão – ambos inseparáveis do desenvolvimento histórico”, tendo sempre desses assuntos uma leitura multidisciplinar e não dogmática, como aprendeu com Albert Hirschman em Princeton.

Consolidou sua ambição de, quando fosse possível retornar ao Brasil, “retomar a ação política com vontade e maior qualificação”. O livro é muito esclarecedor de como se forjaram as características da personalidade política de Serra – sua determinação, sua competência, seu apreço pelos pormenores – que vieram a assinalar sua marcante e substantiva trajetória de homem público, deslanchada com a sua participação no governo Montoro, em São Paulo.

Muitas facetas desse livro merecem análise. Vou circunscrever-me ao relato que faz da sua primeira e marcante experiência de ação em 1964, como presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), que acompanhei como aluno da Faculdade de Direito da USP. A UNE tinha grande centralidade em função do papel do movimento estudantil na mobilização política dos ideais da esquerda na moldura da guerra fria e, no horizonte, das expectativas geradas pela Revolução Cubana.

A narrativa de Serra tem algo da natureza de um diagnóstico-identificação, forma literário-econômica criada por Aníbal Pinto, por ele mencionada. Tem a vivacidade de quem teve acesso ao que se estava passando no centro do poder em nosso país. Relata encontros de que participou com Goulart, Arraes, Brizola e conversas com San Tiago Dantas, JK e Celso Furtado.

Nesse contexto, no plano pessoal, confidencia no livro que “sentia mais angústia sobre o tamanho da crise do que certezas a respeito do que fazer”. A confidência provém de sua avaliação da fragilidade do governo, das indeterminações do seu sentido de direção, da precariedade do seu “dispositivo militar”, do desdobramento do medo suscitado nas classes médias pela radicalização das medidas governamentais e da crescente desorganização da economia, da percepção pouco realista da esquerda sobre a correlação de forças e do efetivo processo conduzido pela direita que preparou a “consumação do golpe – cuja data correta é 1.º de abril, e não 31 de março”. Também aponta e documenta contra a corrente da opinião da época e de estudos posteriores que, “em matéria de medidas que pudessem ser consideradas nacionalistas e populares, o Parlamento não era ao fim e ao cabo um reduto de intransigência”.

Trata-se de “diagnóstico-identificação” de grande acuidade sobre como teve início a longa noite autoritária em nosso país, elaborada por quem pensou o assunto e o elaborou nesse livro a partir de uma experiência “de dentro”, e não “de fora” do processo político, que é o que diferencia positivamente o pensador da política das abstrações e dos mecanicismos do filósofo da política, na lição de Hannah Arendt. Por isso o livro tem, à maneira de Bobbio, a medida do julgamento e o senso da complexidade das coisas na avaliação dos múltiplos fatores que, em conjunto, levaram ao desfecho de 1964.

Duas forças

O filme de Louis Malle Trinta Anos Esta Noite (Le Feu Follet) trata dos desequilíbrios de um personagem que o levam ao suicídio nessa idade. Serra é um cinéfilo. Interpreto, assim, que o título Cinquenta Anos Esta Noite é uma metáfora que aponta para aquilo que culminou, em 1964, no suicídio político da democracia no Brasil.

Algo de semelhante ele reviveu no Chile com a derrocada de Allende e a instauração da ditadura de Pinochet. Daí a conclusão com que encerra o seu livro: “Os países se tornam estáveis quando mudam com prudência e conservam com coragem. A saudável tensão entre esses dois impulsos livra as nações dos desastres do reacionarismo e do populismo, duas forças que têm um longo passado no Brasil, mas que não oferecem futuro”.

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Celso Lafer é professor emérito do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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