Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ARMAZéM LITERáRIO > ANOS DE CHUMBO

O som e a fúria do jornalista que enfrentou o golpe

Por Lúcio Flávio Pinto em 12/08/2014 na edição 811
Reproduzido do Jornal Pessoal nº 566, 1ª quinzena/agosto de 2014; título original “O som e a fúria do jornalista que enfrentou o golpe de 1964”, intertítulos do OI

O ato e o fato, de Carlos Heitor Cony, ganhou sua nona – e melhor – edição neste ano (pela Nova Fronteira, em 224 páginas). Ganhou também um subtítulo, inspirado num romance de William Faulkner para se adaptar oportunamente à temporada dos 50 anos do acontecimento que é o tema do trabalho: “O som e a fúria do que se viu no Golpe de 1964”. E as crônicas, das melhores, que saíram no Correio da Manhã depois da primeira edição, em outro livro, com título nada relacionado ao seu conteúdo: Posto Seis, o último de Copacabana, onde morava (ou ainda mora) o autor – e outros mais, como seu vizinho e personagem, Carlos Drummond de Andrade.

O ato e o fatocontém alguns dos artigos mais panfletários da história da imprensa brasileira, podendo figurar em qualquer antologia internacional. A partir da sua primeira reação ao golpe militar, no primeiro dia da sua vigência, um incômodo 1º de abril, Cony começou a girar sua metralhadora verbal como um iluminado, ou possesso. Era o homem certo na hora seminal. Ninguém o igualou na imprensa na defesa da dignidade humana contra os esbirros que irromperam dos quartéis e da sociedade, civis e incivis, como ele diz.

No ano anterior Cony tinha publicado o excelente romance Matéria de Memória, que li, com prazer e entusiasmo, surpreendido pela qualidade do autor no trato da língua e das questões morais (incluindo as religiosas, na sua origem de seminarista cético e irônico). Suas crônicas de costumes no principal jornal do país (sem abordar fatos políticos) e o recesso em que estivera (por doença) nas duas semanas anteriores não indicavam o que aconteceria: ao ver a tragicômica ocupação do seu bairro, num local próximo ao histórico e atormentado Forte de Copacabana, ele sentisse na boca “um gosto azedo de covardia”. Cuspiria esse sentimento indigno na crônica de 2 de abril de 1964, Da salvação da pátria, montando numa trincheira sem igual dentre os cada vez menos numerosos cidadãos que não se submeteram à covardia induzida pela violência dos novos donos do poder.

A artilharia do atirador sozinho foi formidável. Ele nos defendia e vingava. Lia-se e relia-se com emoção e gratidão as crônicas que saíam todos os dias da pena de Cony e eram abrigadas pelo jornal que mais decididamente apoiara o golpe e mais efetivamente se desligara dele, passando a combatê-lo como nenhum outro, sob o comando de Niomar, a herdeira do patrimônio, esposa do mais lúcido dos donos do Correio, Paulo Bittencourt, que morrera na hora errada, um pouco antes de 1964.

Pecado menor

A covardia se espalhou como praga pelos ambientes brasileiros a partir do momento em que os generais assumiram as funções civis no exercício do poder. Campos de Carvalho e Moacir C. Lopes, dois bons escritores, o primeiro um autêntico revolucionário das letras, foram daqueles que, depois do golpe, abjuraram sua assinatura no manifesto de criação do Comando dos Trabalhadores Intelectuais, com a sigla infeliz de CTI, quatro meses antes.

Jornalistas medíocres se tornavam influentes junto aos militares, “alguns histéricos e analfabetos”, como Flávio Cavalcanti, Ibrahim Sued, Hélio Fernandes e César de Alencar, que pareciam “ditar as leis e os modos da Revolução”, arrasava Cony, embora não desse os nomes (talvez por exigência da direção do Correio, por pruridos corporativos) aos “dois vespertinos mais diretamente comprometidos e beneficiados pela quartelada”

À medida que seus artigos criavam uma onda nacional de admiração e respeito por sua atitude e escritos, Cony não poupou as potentes armas disponíveis no seu paiol intelectual. Quem, naquelas horas, escreveria assim: “Não escrevo para ser lido pelos generais e acredito sinceramente que eles, além de não me compreenderem, não gostariam de minha literatura”. Mesmo porque continuava a “pensar mal da inteligência militar”.

Processado com base na tenebrosa Lei de Segurança Nacional pelo então ministro da guerra (e futuro presidente da República), foi altivo diante de Arthur da Costa e Silva, com “todas as medalhas que ganhou nos campos de batalha – se é que o marechal algum dia foi apanhado desprevenido em algum campo de batalha”. Alguém que tinha “óculos de Marcelo Mastroianni e cérebro de cômico de chanchada”.

Em compensação, não era menos acre o juízo de Cony em face de “certa esquerda oportunista e desonesta que cercava o sr. João Goulart”, que considerava “completamente despreparado para qualquer cargo público, fraco, pusilânime, e, sobretudo, raiando pelos extensos limites do analfabetismo”. Juízo semelhante aplicava ao ex-presidente Juscelino Kubitscheck, embora defendendo a manutenção dos seus direitos políticos, “para ter o prazer de não votar nele”.

Quem não gostaria de ter escrito assim, no calor da hora? Se muitos eram os interessados na posição, raros foram os eleitos pela história para desempenhar um papel que não estaria disponível no momento seguinte, quando intelectuais e outros personagens apareceram em cena. O próprio Carlos Heitor Cony, o panfletário histórico de 1964, foi se descaracterizando com o tempo (e pelo tempo), até se tornar uma paródia de si mesmo, abrindo um abismo entre suas deliciosas crônicas e a verdade, entre o manejar hábil da forma e a fragilidade do conteúdo, entre o escritor e o homem.

Pode-se considerar pecado menor, ou até mesmo prova de solidariedade, ele ter assinando como sua uma crônica, A Hora dos Intelectuais, “sugerida e quase totalmente escrita por Ferreira Gullar”. O poeta maranhense não tinha guarida na imprensa de 1964 e sua análise merecia chegar ao leitor. Cony serviu de biombo.

Também se tornou ghost-writer e confidente de Adolpho Bloch, que cobriria de opróbrio em 1964. Certamente pelas qualidades pessoais do dono do grupo Manchete, pessoalidade que o deve ter autorizado a se aproximar de JK, passando a ser seu escriba, talvez mais atuante do que Josué Montello, seu parceiro de Academia Brasileira de Letras. Fausto paga mais do que Mefistófeles estava disposto a cobrar.

Ontem e hoje

Cony cobrou e obteve uma milionária indenização como vítima da ditadura, ainda que, depois de enormemente prejudicado por ela, tenha progredido na vida durante os anos de exceção. Esse estado de espírito amolece a consciência e turva a percepção, ainda que ele ainda nos tenha presenteado com o maravilhoso Quase memória.

No entanto, os textos acrescentados ao final de O Ato e o fato, escritos quatro décadas depois, por encomenda da Companhia das Letras para a coletânea Vozes do Golpe, revele as falhas que o panfletário da primeira hora ocultava. Inacreditavelmente, ele diz que o general Olympio Mourão Filho, o primeiro a colocar a tropa na rua para derrubar Jango, era “comandante do Quarto Exército”. O IV Exército tem sua sede em Recife. Em Belo Horizonte fica a IV Região Militar, subordinada ao I Exército, no Rio de Janeiro.

Cony informa que, na Barra da Tijuca, “uma equipe dirigida por Gláuber Rocha tomava as últimas cenas de Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Na verdade, duas semanas antes fora apresentada a primeira cópia do famoso filme de Glauber Rocha numa sessão especial no cinema Vitória, no mesmo dia do conturbado comício da Central do Brasil, em 13 de março.

O relançamento de O Ato e o Fato é uma salutar iniciativa editorial, recolocando o Cony de 1964 diante do leitor de 2014. Aquele foi o melhor Cony. O de hoje nos diverte e entretém. Não é pouco, mas não é mais o que foi.

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Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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