Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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70 anos, 60 livros

Por Maurício Meireles em 26/08/2014 na edição 813

Setenta anos e uma produção intensa. Frei Betto, articulista do GLOBO, completa sete décadas de vida na próxima segunda-feira, dia 25, com a marca de 60 livros escritos. O de número 59, “Oito vias para ser feliz” (Planeta), sobre o Sermão da Montanha, acaba de ir para a gráfica; o 60, “Um Deus muito humano”, sobre sua relação com Jesus, ainda não tem editora, mas já está pronto. Em julho, ele já havia lançado “Reinventar a vida” (Vozes, de crônicas) e o infantil “Começo, meio e fim” (Rocco).

Neste último, Frei Betto escreve para os pequenos sobre a morte – tema do qual, diz ele, os pais deviam tratar mais com seus filhos.

– Tenho um casal de amigos que perderam os pais, em acidente aéreo, quando eram crianças. A família cometeu o erro de não levá-los ao velório e ao enterro. Cresceram com a sensação de que os pais foram abduzidos – afirma.

Entre espiritualidade, política e até livros de culinária ou romances policiais, a produção de Frei Betto é tanta que ele conta que um amigo, o jornalista Ricardo Kotscho, brinca que os verdadeiros autores das obras são “40 fradinhos que habitam os porões do convento”. O frei vive no monastério dominicano Santo Alberto Magno, em São Paulo.

Frei Betto reserva 120 dias por ano para escrever, busca um local tranquilo – um sítio ou casa de praia de amigos –, desliga o celular e deixa a criação fluir. Ele mesmo, que é autor de livros de culinária como “Comer como um frade – Divinas receitas para quem sabe por que temos um céu na boca”, cozinha durante esses períodos.

Ele escreve desde que foi alfabetizado, sob influência do pai, que atuava em jornais de Minas Gerais, e da mãe, autora de um livro de culinária. Quando era adolescente, porém, duvidou do sonho de ser escritor e virou jornalista, para ficar perto das palavras.

Quando foi preso por quatro anos pela ditadura, de 1969 a 1973, escrevia cartas para familiares e amigos – que viraram o livro “Cartas da prisão” (Agir). Os anos atrás das grades, dois deles entre presos comuns, foram um período de consolidação de sua relação com a escrita e a espiritualidade.

Mas o que dá mais prazer?

– A ficção, porque é mais criativa. Fico “grávido” da história e, aos poucos, ponho no papel. Primeiro redijo à mão, depois passo ao computador. E faço mil revisões – afirma Frei Betto.

O frade conta que uma das suas maiores influências o ajudou a sobreviver na prisão: Santa Teresa D’Ávila. O escritor diz dever à santa espanhola o aprendizado da oração. Na literatura, suas influências são Machado de Assis, Guimarães Rosa, Camus, Flaubert e outros.

‘Um Jesus militante’

Frei Betto já ganhou, em 1982, o principal prêmio literário do país, o Jabuti, por seu livro mais conhecido: “Batismo de sangue”, que foi adaptado para o cinema em 2007, sob direção de Helvécio Ratton. A história mostra como os frades dominicanos se levantaram contra a ditadura militar, aliando-se à Ação Libertadora Nacional, comandada por Carlos Marighella.

Nesse contexto, a espiritualidade na qual Frei Betto se formou, durante seus anos de Ação Católica, diz ele, é “mais libertadora”.

– Minha geração tinha sido formada numa espiritualidade que falava de pecado, de um Deus castigador. Na Ação Católica não tinha isso. O pecado social era mais importante que o pessoal. Havia um Jesus militante – diz ele.

O escritor já foi traduzido em 24 idiomas e 35 países. Seu best-seller no exterior é “Fidel e a religião”, uma entrevista com o líder da Revolução Cubana sobre o assunto: 3 milhões de exemplares vendidos, 1,3 milhão só em Cuba.

E por que escrever?

– Escrevo como quem respira: para sobreviver. Não suporto passar 48 horas sem redigir algo. Escrever e orar me fazem feliz – resume Frei Betto.

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Maurício Meireles, do Globo

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