Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ARMAZéM LITERáRIO > VIGILÂNCIA & PRIVACIDADE

O caso Snowden, de Hong Kong a Moscou

Por Marinete Veloso em 26/08/2014 na edição 813
Reproduzido do Valor Econômico, 19/8/2014; intertítulo do OI # Sem Lugar para se Esconder – A NSA e a Espionagem do Governo Americano, de Glenn Greenwald. Tradução: Fernanda Abreu. Editora: Primeira Pessoa. 278 pags. R$ 39,90 # Os Arquivos de Snowden – A História Secreta do Homem Mais Procurado do Mundo, de Luke Harding. Tradução: Alice Klesck e Bruno Correia. Editora: Leya. 280 pags. R$ 35,90

A história do ex-analista de inteligência Edward Snowden, cujas revelações sobre os abusos de espionagem praticados pela Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos abalaram os quatro cantos do planeta, é contada em dois livros recém-lançados. Em ambos, costurando o enredo, está a figura do jornalista americano Glenn Greenwald, responsável pelas reportagens divulgadas no website e na versão impressa do jornal inglês “The Guardian”. Um dos livros, “Sem Lugar para se Esconder”, é de sua autoria. “Os Arquivos de Snowden”, lançado antes do livro de Greenwald, foi escrito pelo correspondente internacional do “Guardian”, Luke Harding. Os autores tratam da mesma história com riqueza de informações. A diferença é que Greenwald vai mais fundo no tema. Descreve, com gráficos e tabelas, os sistemas de monitoramento e suas ramificações; mostra documentos; discorre sobre o papel da mídia em face dos interesses e pressões dos governos; e discute as consequências, para a democracia, do uso abusivo dos sistemas de vigilância.

Ambos os livros esmiúçam a atuação da NSA. A agência coleta sinais de inteligência ao redor do mundo, em qualquer meio eletrônico: rádio, cabos, informações via satélite e comunicações via internet. O monitoramento é feito clandestinamente. O órgão tem estações de interceptação em todo o mundo. Legalmente, sua ação é limitada pela Quarta Emenda da Constituição americana, que proíbe fazer buscas e apreensões contra cidadãos americanos sem mandado judicial. Mas, na prática, a NSA não só ignora a lei para atuar em nível interno, como extrapola o raio de ação para além de suas fronteiras.

Imediatamente após o ataque às torres gêmeas, em Nova York, em 11 de setembro de 2001, o Congresso americano aprovou, sob o argumento de preservar a segurança da população na guerra contra o terror, o Patriotic Act, que concedeu mais autoridade a agentes federais para conduzir investigações. A partir daí, os abusos de poder se avolumaram. Parcerias estreitas foram estabelecidas entre a NSA e empresas de telecomunicações e outras, da internet.

Esse aparato tecnológico, capaz de monitorar ações e palavras de cada cidadão, deixou Snowden indignado, ele disse em entrevistas. Também o desagradou o fato de que parte da coleta de dados da NSA nada tem a ver com guerra ao terrorismo. Decidiu, então, vir a público denunciar tais fatos – e por causa disso o governo americano quer sua extradição de Moscou, onde está exilado, para processá-lo. Para uns, é considerado traidor. Para outros, é alguém de princípios e de coragem. “Quero iniciar um debate mundial sobre privacidade, liberdade na internet e os perigos da vigilância estatal”, explicou a a Greenwald.

Edward Snowden nasceu em 1983, na Carolina do Norte, e foi criado em Maryland, em uma família de funcionários públicos federais. Aos 18 anos, já era técnico de sistemas, certificado pela Microsoft. Foi segurança no Centro de Estudos Avançados em Linguagem, na Universidade de Maryland, edifício secretamente administrado e utilizado pela NSA. Entrou para a CIA em 2005, como especialista na área de tecnologia. Em 2007, foi enviado a Genebra, onde ficou por três anos. Trabalhou como terceirizado na Dell do Japão, prestando serviços à NSA e no Havaí, para a Booz Allen Hamilton, consultoria especializada em estratégia e TI, também a serviço da NSA.

A história de Snowden e das tentativas do governo americano para processá-lo começa em dezembro de 2012, quando ele envia a Greenwald um e-mail, sob pseudônimo, dizendo que tinha denúncias a fazer sobre a segurança das comunicações das pessoas. Por ser uma mensagem muito vaga e por desconhecer se sua fonte era séria, o jornalista o ignorou.

Os fatos só tomaram outro rumo quatro meses depois, quando Greenwald, que mora Rio de Janeiro e na época trabalhava como correspondente internacional do “Guardian”, foi a Nova York para uma série de palestras. Tão logo desembarcou, recebeu mensagem da cineasta Laura Poitras, sua amiga, pedindo para vê-lo com urgência. Laura é tida como uma profissional destemida. Realizara filmes em circunstâncias arriscadíssimas, como o que fez durante a Guerra do Iraque, no qual traçou duro retrato da vida das pessoas sob a ocupação americana naquele país. Por esse trabalho, recebeu indicação ao Oscar. Nos últimos anos, trabalha em documentários sobre a conduta dos Estados Unidos na luta contra o terrorismo. O encontro entre Laura e Greenwald ficou marcado para o dia seguinte.

A conversa entre eles tratou das revelações que a fonte, que se apresentava apenas como membro sênior da comunidade de inteligência dos Estados Unidos, queria fazer. Como os entendimentos com Greenwald não tinham avançado, a fonte, que sabia da proximidade de ambos, pedira a Laura que convencesse o jornalista a ouvi-lo, pois era a ele que queria entregar as provas das escutas abusivas da NSA. Snowden admirava as reportagens investigativas do jornalista Greenwald, ex-advogado especialista em direito constitucional e escritor; por isso o escolheu.

Um lar

Um mês depois daquele encontro em Nova York, a fonte informou que lhes entregaria milhares de documentos secretos, mas isso teria de acontecer pessoalmente, em Hong Kong. A notícia soou estranha para Greenwald: “O que Hong Kong tinha a ver com documentos secretos do governo dos Estados Unidos?” Para dirimir dúvidas, a fonte enviou 25 pastas bem organizadas, com numerosas subpastas, explicando que aquilo era apenas a ponta do iceberg. Greenwald ficou estarrecido com o conteúdo do material; o acervo de documentos era impressionante, tanto pelo tamanho como por sua abrangência.

Em 2 de junho, Laura e Greenwald desembarcaram em Hong Kong. Ele, para entrevistar Snowden e ela, para filmar tudo. Os depoimentos de Snowden, segundo Greenwald, foram sempre convincentes e inspiraram confiança; suas respostas, concisas e claras.

O primeiro vídeo com Snowden foi ao ar no website do “Guardian” às 15h00 de 5 de junho de 2013. Uma hora depois, a história explodiu no mundo. A CNN transmitiu o vídeo na íntegra, com 12 minutos. O Twitter bombou, como conta Harding: “Foi a matéria mais vista na história do ‘Guardian’”.

Quatro meses depois dessa e outras revelações, uma nova notícia bombástica era publicada: a de que a NSA fizera escutas nos celulares de 35 líderes mundiais, entre eles, da primeira-ministra alemã Angela Merkel e da presidente Dilma Rousseff, que, por essa razão, cancelou a visita que faria aos Estados Unidos em outubro de 2013. O caso NSA se transformara em exemplo de desastre de política externa. Até laureados com o prêmio Nobel se declararam chocados com o alcance da espionagem.

Em alguns países, provocou mudanças radicais de hábitos. A embaixada indiana em Londres passou a utilizar, para documentos confidenciais, as antigas máquinas de escrever manuais. Nenhuma informação secreta seria mais armazenada em formato eletrônico. Na Rússia, noticiou-se que o serviço de proteção do Kremlin fez na ocasião uma grande encomenda de máquinas de escrever.

O escândalo da NSA desencadeou também discussões sobre o papel da internet na vida cotidiana das pessoas. “Hoje, a internet não é apenas nosso correio e nosso telefone. Ela é a totalidade do nosso mundo, o lugar em que quase tudo acontece. É lá que se fazem amigos, se escolhem livros e filmes, se organiza o ativismo político, e é lá que são criados e armazenados os dados mais particulares de cada um. É na internet que desenvolvemos e expressamos nossa personalidade e individualidade”, analisa Greenwald. Segundo ele, permitir que a vigilância crie raízes na internet significa submeter quase todas as formas de interação, planejamento e até pensamentos humanos ao escrutínio do Estado; transforma-a em uma ferramenta de repressão e ameaça desencadear a mais extrema e opressiva arma de intrusão estatal já vista na história humana. “É isso que torna as revelações de Snowden tão estarrecedoras e lhes confere uma importância vital”, avalia o jornalista.

Mesmo com toda a repercussão mundial do caso e a simpatia que Snowden conquistou do público, não houve qualquer recuo dos Estados Unidos em relação à sua condenação. Se pego, pode enfrentar em seu país até 30 anos de cadeia e, dependendo do tipo de acusações, a pena de morte. Neste mês, conseguiu autorização para permanecer mais três anos na Rússia, onde vive com visto temporário desde agosto de 2013, quando fugiu de Hong Kong.

“Apesar de mudar o curso da história política com suas revelações extraordinárias, é impossível saber quanto tempo Snowden ainda pode levar até conseguir um lar para chamar de seu”, pondera Harding.

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Marinete Veloso, para o Valor Econômico

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