Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Livros eletrônicos se adaptam à poesia

Por Alexandra Alte em 14/10/2014 na edição 820

John Ashbery, poeta ganhador do Prêmio Pulitzer, ficou estarrecido quando descobriu que as edições digitais dos seus poemas não se pareciam em nada com a versão impressa. Não havia quebra de linha entre os versos, e as estrofes haviam sido agrupadas em um bloco de texto, como na prosa. A cuidadosa arquitetura dos poemas havia sido arrasada.

Ele se queixou à sua editora, a Ecco, e aqueles quatro livros eletrônicos foram imediatamente tirados de circulação. Isso aconteceu em 2011 -hoje, as edições digitais evoluíram. As editoras podem agora criar arquivos que preservam melhor a formatação meticulosa concebida pelo poeta.

Por isso, quando a editora digital Open Road Media procurou Ashbery para tratar da criação de versões eletrônicas de seus livros, ele concordou.

Editores estão se movimentando rapidamente para cavar um lugar no mercado digital. De acordo com a Bowker, empresa que monitora lançamentos, cerca de 2.050 livros eletrônicos de poesia foram lançados em 2013, um bom aumento em relação aos 200 de 2007, o ano em que surgiu o primeiro Kindle.

De todos os gêneros literários, a poesia mostrou ser o mais refratário à tecnologia digital, por causa das espinhosas razões mecânicas. A maioria dos leitores eletrônicos de livros mistura as quebras de versos e as estrofes.

Como resultado, muitos editores evitam digitalizar poesia, e obras de grandes poetas ainda não estão nesse formato, incluindo “Os Cantos”, de Ezra Pound e poemas de Jorie Graham, Tracy Smith e Czeslaw Milosz.

“O verso é a unidade na qual a poesia é comunicada, e a tecnologia da maioria dos livros eletrônicos não é amigável em relação a essa unidade”, disse Jeff Shotts, da Graywolf Press.

Versos longos

Algumas editoras contrataram programadores para codificar manualmente livros eletrônicos de poesia, de modo que as quebras de versos e estrofes fossem mantidas; outras voltaram a usar PDFs ou arquivos estáticos para reproduzir imagens digitais de poemas com formas mais elaboradas.

A editora independente New Directions, fundada em 1936, começou a publicar livros eletrônicos de poesia em 2013. A New Directions publicou mais de 60 volumes digitais, incluindo obras de Pablo Neruda, Dylan Thomas e William Carlos Williams.

Mas a poesia digital ainda é ofuscada pela impressa, e alguns autores e editores questionam se há muita demanda por livros eletrônicos de poesia. “Um grande porcentual de leitores de poesia é fetichista e gosta de segurar o livro físico”, disse Michael Wiegers, da Copper Canyon Press, uma editora sem fins lucrativos.

Alguns poetas exigem que as editoras insiram um aviso legal em seus livros eletrônicos. Billy Collins, ex-poeta laureado nos Estados Unidos, fez esse pedido alguns anos atrás, depois de ver como uma mudança no tamanho da fonte de um leitor eletrônico “lançava o poema para fora dos eixos”, como ele definiu.

Seus livros eletrônicos agora trazem uma advertência de que certas funções de um leitor eletrônico podem alterar “a integridade física do poema”.

“A primeira impressão que você tem de um poema é olhando para a forma na página”, disse Collins. “Ele tem uma integridade escultural que não é registrada em nenhum leitor eletrônico.”

Foi difícil digitalizar a poesia de Ashbery, que costuma escrever em versos longos, ao estilo de Walt Whitman, e usa complexos recuos de margens.

“É muito comum que o impacto de um poema venha das quebras de versos, que os editores de poesia não costumam achar tão importantes como as pessoas que os escrevem”, diz Ashbery.

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Alexandra Alte, doNew York Times

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