Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > LIVROS & LEITORES

Editoras atenuam livros para público adolescente

Por Alexandra Alter em 04/11/2014 na edição 823
Reproduzido da Folha de S.Paulo/The New York Times, 28/10/2014; intertítulo do OI

De todos os horrores vivenciados por Louis Zamperini durante a Segunda Guerra Mundial, incluindo a queda de um avião no Pacífico, 47 dias à deriva no mar e dois anos em um campo para prisioneiros de guerra, o mais marcante foi quando um guarda japonês torturou e matou um pato.

Esse episódio, relatado no best seller “Invencível” (“Unbroken”, no original), de Laura Hillenbrand, também traumatizou muitos leitores, disse a autora. Por isso, quando estava escrevendo uma nova versão para jovens adultos, ela excluiu essa cena. “Eu ficaria muito perturbada se lesse isso quando tinha 12 anos”, comentou Hillenbrand.

Inspirado no mercado florescente de romances para jovens adultos, um número crescente de biógrafos e historiadores está adaptando suas obras para torná-las palatáveis para essa faixa etária de leitores. Escritores de não ficção como Hillenbrand, Jon Meacham e Rick Atkinson estão tentando atenuar conteúdos perturbadores ou polêmicos em seus livros para conquistar esse público novo e impressionável.

O fato é que essas versões resumidas, simplificadas e às vezes suavizadas de títulos populares de não ficção estão se tornando um nicho vibrante e lucrativo.

As editoras lançam uma grande variedade desses livros. Meacham publicou recentemente sua primeira obra para crianças, uma versão para leitores a partir de 10 anos de sua biografia de 759 páginas de Thomas Jefferson.

Pode ser um desafio manter o drama e as nuances de narrativas históricas quando o público-alvo tem menos de 13 anos. Meacham disse que debateu muito com seu editor sobre como descrever o relacionamento sexual de Jefferson com sua escrava Sally Hemings.

“Como explicar honestamente para uma criança no quinto ou sexto ano escolar essa relação ilícita entre o senhor e a escrava, sem chocá-la?”, exemplificou Meacham, um biógrafo ganhador do prêmio Pulitzer. “É difícil fazer isso até para adultos.”

Gama diversificada

“D Day” [Dia D], um título infantil recente baseado em “The Guns at Last Light” [as armas no último clarão], história com 877 páginas escrita por Atkinson sobre a Segunda Guerra Mundial, omite descrições explícitas da carnificina nas praias da Normandia. “Isso tira parte do impacto da história, mas era essa a intenção”, disse Atkinson sobre o livro voltado para crianças entre 8 e 12 anos.

Alguns educadores e especialistas em alfabetização questionam se versões infantis de títulos adultos de grande vendagem são de fato necessárias ou sequer uma boa ideia. Quando não havia esse tipo de livro, os jovens interessados em leitura simplesmente recorriam à versão adulta, um hábito ainda observado.

“Um adolescente com boa formação e domínio de leitura provavelmente apreciaria a versão adulta desses livros”, opinou Angela Frederick, bibliotecária de escola pública de Nashville.

Certos bibliotecários continuam recomendando a edição adulta de um livro mesmo quando há uma versão infantil disponível, caso a adaptação seja demasiado simplificada. “Se tais adaptações eliminam controvérsias e supõem que os adolescentes não conseguem absorver ideias mais complexas, nós recomendamos a versão adulta”, disse Chris Shoemaker, presidente da Associação de Serviços de Biblioteconomia para Jovens Adultos.

As vendas de livros infantis e para jovens adultos aumentaram 30% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. No entanto, as vendas de obras de ficção e não ficção para adultos tiveram queda de quase 4%, segundo a Associação de Editores dos EUA.

Atualmente, os livros de não ficção para crianças apresentam uma gama mais diversificada de temas e formatos. Isso inclui memórias, auto-ajuda, narrativas e biografias de personalidades como Steve Jobs. “Nem todo mundo quer ler sobre vampiros”, afirmou Steve Sheinkin, que escreveu livros infantis sobre a Guerra Civil e a bomba atômica. “Algumas crianças se interessam por Segunda Guerra Mundial e espiões.”

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Alexandra Alter, do New York Times

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