Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ARMAZéM LITERáRIO > BALAIO DO REPÓRTER

Os livros, nossos mestres

Por Lúcio Flávio Pinto em 18/11/2014 na edição 825
Reproduzido do Jornal Pessoal nº 573, da 2ª quinzena de novembro/2014

Lembro bem da cena. Foi em 1954: entrei na sala da nossa casa em Santarém, onde o meu pai fez sua biblioteca e guardava livros que vendia, anunciados no seu jornal, o semanário O Baixo-Amazonas, mantido de 1950 a 1954, quando ele mudou para Belém para assumir o mandato de deputado estadual. Havia muitos livros. Por acaso, caiu-me nas mãos o Diccionário Lello (era assim mesmo o título, em português de Portugal, sempre arcaico, como a terra dos Joaquim & Manoel até a revolução dos cravos, de duas décadas depois, que pôs fim aos resíduos remanescentes da ditadura salazarista).

A primeira atração foram as ilustrações. Em seguida, fui para os verbetes. Vencidos os as e aaaaas, cheguei ao ábaco. Aprendi a falar ábaco antes de falar abacate, graças à minha formação através da leitura de uma página impressa. Muito depois fiquei sabendo que o primeiro computador, criado na década de 1950, pelos gênios de um supercentro de saber nos Estados Unidos (o MIT – Massachussets Institute of Technology), com milhares de válvulas, 12 metros de altura por 30 de comprimento, calculava mais lentamente do que um chinês destro com seu ábaco.

O conhecimento desse fato me devolveu proustianamente às minhas primeiras leituras domésticas, antes mesmo da alfabetização no Jardim de Infância do Colégio Santa Clara, com a irmã Norina. Ela me adotou. Cuidava de mim como uma mãe. Eu era menor do que os meninos da minha idade, branquinho, louro e frágil.

Ela ficava ao lado quando eu me embalava no balanço (que chamava balouço, fiel à origem vernácula). E me levava para o último andar do imenso prédio de estilo europeu, onde ficavam as celas das freiras. Subia num robusto armário e descia com uma lata decorada. Abria a tampa e me autorizava a tirar todos os bombons que coubessem nas minhas duas minúsculas mãos. Não era muito, apesar da minha sofreguidão, mas o suficiente para o prazer inesquecível – e proustiano outra vez.

Em 1990 ia de carro de Paris para Bruxelas com meu grande amigo Jean Hébette. Paramos no caminho para esticar as pernas e tomar um café. Enquanto conversávamos, fui atraído por um odor forte. Saí da loja de conveniência do posto de gasolina e procurei identificar aquele cheiro. Ele me era muito familiar, mas não sabia dizer a que se relacionava. Depois de algumas indagações, descobri: ali perto havia uma fábrica de bombons (já então balas) de anis, os mesmos que a irmã Norina me dava.

Fantástica a memória, insubstituíveis as experiências da vida, marcantes aquelas derivadas de algum livro. Sempre tive vontade de partilhar esse singelo patrimônio com meus leitores. Criei diversas seções tentando encontrar uma forma certa de abrigar esse material. E tento novamente, agora com este balaio de coisas que vou recolhendo ao acaso, na esperança de que seja útil a divisão desse acervo.

Os ruminantes

Começo por um dos livros que mais impacto me causaram, a novela A Hora dos Ruminantes, do goiano José J. Veiga, publicado (em 101 páginas) pela Editora Civilização Brasileira, em 1966. Livro pequeno, com a capa atraente de Marius Lauritz Bern, que se revezava com o legendário Eugenio Hirsch, autor da maior revolução gráfica na edição de livros no Brasil. Comprei o volume na própria livraria da Civilização, na Rua 7 de Setembro, no centro do Rio, vítima de um atentado a bomba de um grupo de direita. Foi o 41º livro que comprei nessa temporada carioca da minha vida.

Foi leitura de classe na aula de literatura do professor Ivo Barbieri no Colégio André Maurois, no Leblon. Eu viera de Belém com uma carta de recomendação do meu pai para o secretário de educação do governo Negrão de Lima. Minha meta era o Pedro II, o equivalente do Paes de Carvalho no Rio. Mas o secretário me encaminhou a Henriette Amado, a diretora do recém-inaugurado colégio experimental, que renovaria o ensino público na antiga capital federal – e pagaria caro por isso.

Barbieri era jovem, de fala mansa, muito atencioso e competente o bastante para monopolizar a atenção dos seus alunos. Anos depois ele seria preso e torturado por integrar um dos grupos de luta armada. Sobrevivendo, assumiria a reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, já na democracia.

Barbieri queria que fizéssemos correlação entre o enredo da novela e os tempos que vivíamos sob a ditadura. O Brasil também fora invadido por uma manada de bois e de irracionalidade como Manarairema, a cidade criada por José J. Veiga, estreando na literatura, mas já com muita estrada no jornalismo, como redator da Seleções do Reader’s Digest no Brasil. É um livro maravilhoso, várias vezes reeditado. Veiga entrou para a Academia Brasileira de Letras, mas não perdeu o vigor, escrevendo outros grandes livros até morrer.

Os dois primeiros parágrafos estão, a meu ver, entre as coisas mais belas da literatura nacional. Em prosa poética de elevada sugestão, de um naturalismo rico em sentidos:

“A noite chegava cedo em Manarairema. Mal o sol se afundava atrás da serra – quase que de repente, como caindo – já era hora de acender candeeiros, de recolher bezerros, de se enrolar em xales. A friagem até então contida nos remansos do rio, em fundos de grotas, em porões escuros, ia se espalhando, entrando nas casas, cachorro de nariz suado farejando.

“Manarairema ao cair da noite – anúncios, prenúncios, bulícios. Trazidos pelo vento que bate no pique nas esquinas, aqueles infalíveis latidos, choros de criança com dor de ouvido, com medo de escuro. Palpites de sapos em conferência, grilos afiando ferros, morcegos costurando a esmo, estendendo panos pretos, enfeitando o largo para alguma festa soturna. Manarairema vai sofrer a noite”.

Pocket book

Um dos meus programas favoritos na temporada americana era comprar livros de bolso nos sebos das cidades por onde passava. Foi através deles que tive meus primeiros contatos com as edições americanas durante as idas ao Rio e São Paulo. Mas eram caros no mercado nacional. Nos sebos americanos eu podia comprar uma dúzia ou mais pelo preço de um livro novo. Já era uma boa sensação de poder. Mas havia outra: eu podia seguir a trilha única que os americanos abriram com suas edições de bolso, muito mais baratas e de melhor qualidade do que as europeias, especialmente as francesas.

Dentre centenas dessas edições pego a 3ª edição de Oliver Twist, de Charles Dickens, da série Reader’s Enrichment (dirigida aos estudantes) da Washington Square Press, uma divisão da poderosa Simon & Schuster, que ficava na Quinta Avenida, em Nova York. Em 1971, quando circulou, essa edição custava 75 centavos de dólar por 457 páginas do romance mais 43 de um suplemento anexo.

Não sei quanto seria hoje, mas seria muito mais barato do que as nossas edições supostamente equivalentes. E a WSP tinha um board com nada menos do que 23 editores para cuidar dos seus livros, garantindo a seriedade do seu conteúdo, do texto ao excelente acabamento gráfico, com capas criativas e boas. Tudo isso graças ao grande número de leitores, um mercado que garantia o investimento e a rentabilidade. Um mundo que parece cada vez mais distante.

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Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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