Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > ‘O OITAVO SELO’

Quase um romance e literatura da boa

Por José Nêumanne em 20/01/2015 na edição 834
Reproduzido do Estado de S. Paulo, 14/1/2015; intertítulo do OI; O oitavo selo, de Heloísa Seixas, editora Cosac Naify, 192 págs., R$ 39,90

O Oitavo Selo, de Heloísa Seixas, define-se na capa da edição da Cosac Naify como um “quase romance”. O advérbio de intensidade pode dar uma falsa ideia de descompromisso com a definição, que se limita à fácil aproximação de um alvo inalcançado. Mas, de fato, o “quase romance”, idêntica definição de Carlos Heitor Cony para seu melhor livro, Quase Memória, pertence a uma estirpe muito especial e atual da mais fina flor da produção literária. O público brasileiro teve há pouco a oportunidade de conhecer algo similar em A Queda – As Memórias de um Pai em 424 Passos, de Diogo Mainardi.

Ou seja, este “quase romance” é literatura boa, plena e da melhor água, uma espécie de neogênero que se tornou um dos “destinos manifestos” da melhor produção literária contemporânea. Suas raízes estão na prosa de Jorge Luís Borges, grande poeta e contista que nunca se aventurou pelo romance propriamente dito. “História Universal da Infâmia” e praticamente todos os seus contos apontam para a trilha inversa da indicada pelo irlandês James Joyce: a da desconstrução linguística do texto de ficção esticada ao extremo. Ao contrário do “romance acabou, viva o romance”, do autor de Ulisses, este é o caso de “tudo é romance ou pode ser”, insinuado pelo portenho e, guardadas as devidas proporções, seguido pela patota do new journalism, em particular Truman Capote em A Sangue Frio. Mas Heloísa vai além do relato jornalístico à guisa de ficção e dos truques do troca-troca entre verdade e mentira do prosador de O Aleph. Os pontos em comum entre os citados são excelência estilística e abordagem totalizante.

O cronista acadêmico Cony tornou o evento simplório do embrulho contendo textos do pai jornalista um feito estético de memória fantasiada. Em A Queda, o combativo colunista político Mainardi comove o leitor pelo amor devotado ao filho, nascido com paralisia cerebral. Heloísa recorre à metáfora cinematográfica da partida de xadrez do cavaleiro medieval contra a morte no filme O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, como expediente para narrar as batalhas de seu marido, o jornalista e escritor Ruy Castro, contra a cocaína, o álcool, o câncer, o enfarte, a metástase e um acidente vascular cerebral para se manter vivo e hígido.

Papel e tinta

Cada um dos oito selos relatados representa uma refrega do protagonista, “o homem”, e ainda dá conta da luta “mais vã” (apud CDA) de sua testemunha, “a mulher”. Ruy imprime na cera cada selo (ou círculo, na imagem dantesca do inferno) com heroísmo digno da outorga de medalhas de bravura. Heloísa usa o advérbio da aproximação malograda não como um facilitário, mas como mais um obstáculo a transpor. Um e outro – e o fato de serem um casal não facilita, mas dificulta a tarefa – não cativam o leitor pela piedade nem pela empáfia, mas por emoções genuínas que se liquefazem em lágrimas mudas ou se tornam sorrisos cúmplices. Este verte uma lágrima teimosa ao ler que “o homem” interrompeu a leitura do final de Carmen, Uma Biografia com um soluço ecoado no outro lado da linha telefônica pela “mulher”. Antes, sua alma canta quando a mulher se refere ao processo de escrita do livro que o consagrou como biógrafo e compara: “Ao fazer as correções à mão, debruçado, o tubo de dreno se movia, ondulava como os quadris de Carmen Miranda”.

O autor-objeto, mimado pelas glórias de O Anjo Pornográfico, sobre Nelson Rodrigues e processado pelos herdeiros inconformados de “um brasileiro chamado Garrincha” (tema de Estrela Solitária) e protagonista de várias desgraças de seu Flamengo no Maracanã, exibiu as vísceras para o leitor a quem seduz desde os velhos tempos da revista Senhor. A autora-cúmplice compartilhou a condição de Ariadne a desvelar seu fio para legar ao público um testemunho privado, mas comum, da aceitação não resignada mais amorosa da precariedade da existência no que ela tem de belo e elegante, mas também de mísero e doloroso. Este “quase romance” contém de sobra a arte de deixar a vida escorrer em tinta preta sobre papel branco. Literatura, afinal, não é isso?

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José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor, autor de O silêncio do delator

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