Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ARMAZéM LITERáRIO > FOTOJORNALISMO

Fotos de guerra revelam o efeito do tempo

Por Leão Serva em 10/03/2015 na edição 841

Conflict – Time – Photography, de Simon Baker, Tate Publishing, 2014, 224 páginas; The First Casualty, de Phillip Knightley, 608 páginas [no Brasil, A Primeira Vítima, Nova Fronteira, 1978, 562 páginas; Slaughterhouse-Five, de Kurt Vonnegut, Ed. Dell, 1991, 215 páginas [no Brasil, Matadouro 5, L&PM Pocket, 2005, 224 páginas] # Reproduzido da Revista de Jornalismo ESPM nº 12 (janeiro, fevereiro e março de 2015). Para assinar a revista, clique aqui.

Um dos eventos culturais mais incensados da temporada de inverno europeu é “Conflict – Time – Photography”, no museu Tate Modern, em Londres, uma exposição do que há de melhor na fotografia de guerra, de seu surgimento no século 19, na Crimeia, até hoje (a foto mais recente é de 2013). A mostra fica em cartaz até 15 de março, mas para quem não puder visitá-la há um livro com todas as fotografias e um ensaio do curador.

A exposição ocupa meio andar do grande prédio da Tate, compondo uma espécie de linha do tempo da fotografia de guerra. As imagens mais antigas são duas cenas compostas por Roger Fenton em 1854, no lugar onde dois meses antes havia ocorrido a batalha conhecida como “Carga da Brigada Ligeira”, na qual forças britânicas foram dizimadas pelos russos na Guerra da Crimeia (1853-56).

Como mostrou Phillip Knightley, em sua clássica história do jornalismo de guerra, The First Casualty, antes da Crimeia jornais publicavam histórias de segunda mão, com base em relatos de pessoas envolvidas no conflito. Aquela guerra entre Inglaterra e Rússia marcou o envio do primeiro repórter, William Howard Russell, pelo jornal The Times, e do primeiro fotógrafo, Fenton, pago pelo Exército britânico para documentar a campanha.

O que chama a atenção na exposição, mais até que sua magnitude, é o conceito inédito que a orienta: fascinado por uma obra do escritor americano Kurt Vonnegut, escrita 20 anos depois da Segunda Guerra Mundial, em que o autor se revela ainda assombrado pelas memórias, com dificuldade de olhar para trás e incapaz de passar a mirar o futuro, o curador Simon Baker decidiu juntar os instantâneos conforme o tempo que os separa dos conflitos que retratam.

Assim, as salas da mostra são classificadas por intervalos de tempo. O primeiro conjunto é de fotos feitas “Momentos Depois” de uma cena de guerra; em seguida vem “Dias, Semanas, Meses Depois”; então, “Meses Depois”; “1 a 10 Anos Depois” até “100 Anos Depois”. Nesta última sala estão as duas fotos mais recentes (de Chloe Dewe Mathews, 2013), que mostram locais onde, na Primeira Guerra Mundial, os exércitos aliados (Inglaterra, França e Bélgica) fuzilaram como traidores soldados que tiveram medo de ir para o front.

Elaborações sofisticadas

Embora o tempo seja um componente fundamental da realização da fotografia (tempo de abertura do obturador, de exposição da placa sensível à luz; tempo de revelação do filme químico etc.) e frequentemente também sirva de parâmetro para organizar fotos (de um mesmo período do passado ou que cobrem um mesmo fato), aqui o curador tratou de criar um novo paradigma de tempo para associar as fotos. Trata-se de uma dimensão temporal que não é a de seu conteúdo (independe da época em que foi retratado o tema ou objeto), nem de sua materialidade (o tempo de sensibilização da chapa ou da revelação), nem mesmo do tempo de suas ampliações, se antigas ou recentes.

O paradigma é outro, tão novo e dominante que o espectador é convidado a desprezar aspectos normalmente cruciais das fotos: seu conteúdo (tema ou objeto) ou materialidade (cor, p/b, digital, filme ou outros elementos materiais). O que está em questão é quanto tempo separa o instante em que o fotograma foi feito e o conflito que o motiva.

Assim, em “Momentos Depois” estão juntas a foto colorida de um blindado americano no Iraque logo após explodir em um atentado (Luc Delahaye, 2006) e a imagem em preto e branco do rosto, congelado de medo, de um soldado americano sob ataque vietcongue durante a Ofensiva do Tet, no Vietnã (Don McCullin, 1968).

Não deixa de haver coincidências: as duas primeiras imagens da exposição são de fumaça causada por explosões ocorridas instantes antes. Numa, ela é consequência de um ataque aéreo americano a uma base do Talibã, no Afeganistão (Luc Delahaye, 2001); noutra, é o cogumelo gerado pela explosão da bomba atômica em Hiroshima (em 1945; a uma milha do epicentro, o autor, o jovem soldado Toshio Fukada, foi salvo por uma colina).

À medida que as fotos se distanciam no tempo de seu fato gerador, vão se tornando mais cerebrais, por assim dizer. A relação com os momentos históricos que retratam se torna mais sutil, precisam de legendas mais longas. Tornam-se ensaios fotográficos. É o caso dos conjuntos sobre a vida atual dos judeus ucranianos sobreviventes do nazismo (Stephen Shore, 2012-13); os objetos e os descendentes de um criminoso de guerra nazista (Taryn Simon, 2011); ou a série que mostra o céu atual da cidade Hiroshima em diferentes dias no momento exato em que a bomba caiu, em 1945 (Nobuyoshi Araki, 2010). São sofisticadas elaborações intelectuais que revelam a permanência das ondas de choque deixadas por conflitos muitos anos antes.

Persistência da guerra

A exposição gerou muitos textos, e outros tantos provavelmente serão publicados no futuro. Deve também influenciar a organização de outras mostras de fotografia. Mas, desde já, é possível dar razão ao curador ao destacar que a fotografia, mesmo quando se volta para uma guerra ocorrida décadas ou até cem anos antes (qualquer que seja o momento desse “antes”), revela a intensidade presente do passado.

Exatamente como Kurt Vonnegut, que 20 anos após o conflito escreveu um livro (Slaughterhouse-Five, no Brasil traduzido como Matadouro 5) para tentar se libertar das imagens e passar a se sentir livre para escrever sobre outros temas. Apesar de ter completado o livro, Vonnegut seguiu marcado pelo trauma: até o fim da vida, terminava seus escritos com a palavra “Paz”. Mesmo olhando as fotos feitas agora em lugares das guerras mais antigas, o que se vê é que as imagens e as lembranças não conseguem nos deixar em paz.

Embora não haja menção na exposição, é ao mesmo tempo irônico e trágico que 160 anos depois estejam ocorrendo novas batalhas no local exato daquele primeiro conflito coberto pela fotografia de guerra, a Crimeia. Novamente, a região é palco do enfrentamento entre russos e o que creem ser agentes do invasor europeu (agora representado pelos vizinhos ucranianos). Não é só estética ou imagética a persistência das guerras. Elas também insistem em acontecer muitas vezes nos mesmos lugares.

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Leão Serva é jornalista

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