Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > TEXTO & LEITURA

A alma anônima da letra

Por Walter Falceta Jr. em 28/12/2004 na edição 309

A letra, metáfora do átomo e da própria matéria, não sabe se revela ou esconde, se avisa ou apronta a armadilha, se ensina ou engana, se convence ou desilude. Toda letra é, portanto, cativa da dúvida. Não se sabe. Não recorda se seu rosto tem a sobrancelha-serifa marceneirada de book antigua, o nariz batatudo de um comic sans MS ou a boca extasiada de um century gothic, aquela que é ‘a’ e ‘o’ ao mesmo tempo, tanto faz. Se eu fosse meu pai, me atreveria a reportar o mundo em monotype corsiva, saudoso das canetas tinteiro que ele manuseava com a elegância de um espadachim e a minúcia de um ourives. Ainda assim, resta a pergunta comum. Será que o meio é ou, ao menos, determina a mensagem?

Se a letra primeira estava ideogramada em Lascaux, não necessariamente era para ser vista. Escondia-se no escuro úmido da caverna. Conversava consigo mesma, sonhando-se um bisão invencível que duraria pela noite dos tempos. Então, me indago se nossos textos, tão descendente desses, não teriam essa gana idiossincrática. Penso com meus botões de acrílico… Será que minha escrita medita sobre si mesma, à parte de mim? Será que meu abecê, feito criança, olha para fora das páginas e das telas a se deliciar ou sofrer com as formas do mundo? Será que vê através de mim, como se eu fosse um médium inconsciente? Será que se repugna de minhas idéias, como uma adolescente que não se identifica com os próprios seios?

Por vezes, creio que sim, que existe essa consciência intrínseca, autonôma, em cada novela, conto, petição judicial ou recado para a empregada. Adivinho porque há sinais inequívocos de uma entidade pensante, ali dentro, tramada ontologicamente na sintaxe da Criação. Por vezes, a letra minha não se lubrifica, não se intumesce, não se entrega, resistente, encrenqueira, chata. Nessas horas críticas, é porque Lisístrata lidera as palavras, arrebenta Atenas e Esparta. Há sutilezas de estratégia, escondidas nos dentes dos advérbios, no umbigos dos adjetivos e nas rótulas dos substantivos. O mundo próprio dos textos, desconfio, admite livre pensamento e arbítrio; de modo a se constituir na mais primitiva coisa concreta, pré-pré-big-bang, aquela que na multiplicidade segunda dos indivíduos exprime os desejos insondáveis do Verbo.

Prédio de letrinhas

Faz tempo, percebi-me espelho das palavras grafadas, devassadoras de pupilas alunas, metidas a construir intimidades, a ponto de se projetarem pornograficamente nas retinas-telas do meu cinema particular. Ali, as letrinhas agrupadas, fossem prosaicos registros de guerras púnicas ou rigorosos estudos sobre próteses ortopédicas, lambuzavam-se da metalinguagem que são, rosas púrpuras do cairo a me desafiar para jogos sem regra e sem finalidade. Depois, percebi que essas galhofas e prélios marcavam também a relação com os outros leitores. Abusadas… Ou apenas dionisíacas expressões de um universo (este nosso) marcado pela indisciplina e pela banalidade.

Portanto, hoje que chove me convenço mais de que escrever é difícil demais, uma briga sem fim, ciclo de uma doce maldição, posto que um texto sempre renova a pergunta que se propõe a responder. Todo escritor é um Sísifo, cujo maior tormento é conhecer, senão que a inutilidade, ao menos o efeito breve e transitório de seu ofício. Logo, novamente, é hora de rolar a pedra morro acima. Sim, ademais e ademais, há o espinho técnico: presunção ou presunsão; catequisar e catequizar; entreteram-se ou entretiveram-se; as armadilhas das frases sem sujeito visível; a concordância confusa quando se apresentam os pronomes reflexivos; as casas vendem-se como se não fosse um, talvez apenas o corretor, que as vendesse, singularmente; esses pretéritos imperfeitos do subjuntivo que roubam lugar de seus primos do indicativo; as vírgulas que deturpam uma inteira filosofia; o homem pobre que, na desordem da frase, assiste à orquestra de chinelas; o transeunte, que sem compreender o intransitivo, perde-se na página 54 de um romance antigo.

Ao matemático, oferece-se a prova dos 9, a conta reversa, todas as oportunidades de provar a exatidão. Ao escritor, jamais. Sempre a imprecisão, a crítica arrasadora possível, o receio da interpretação equivocada, seja o coitado um arcanjo Gabriel de Colômbia, um mago Saramago do Porto Caldo ou o escrivão do 31º Distrito Policial da Vila Carrão. Letras são assim, leoninas, volúveis e perigosas. Fingem-se de código porque escolheram essa profissão ou talvez porque não lhes restasse outra opção. Oferecem a ilusão da idéia em troca da sobrevivência. Muitas vezes delicadas, entretanto e felizmente, dão de graça, fogosas, sem remorsos. Por fim, é preciso saber que, de uma forma ou de outra, letras participam. Dessa forma, qualquer texto respira em vida própria, exprime uma vontade que é apenas administrada, bem ou mal, pelo autor, bom xamã se compreender a energia que manipula. 

Todo prédio de letrinhas, portanto, é construído em sociedade entre o escritor e essa anônima divindade motriz dos significantes. Cada ‘e’ tem um preço. Cada ‘a’ tem seu ponto ‘g’. Letras são assim: precisam ser namoradas na penumbra, beijadas sob o luar, cultivadas no amor incondicional. Se delas pretendermos a verdade, justiça, ou apenas ternura, também é preciso que cresçam em liberdade, longe das gaiolas das doutrinas, dos preconceitos e das crenças tradicionais; se delas esperamos algum benefício, é necessário que ganhem as asas que Deus, sabiamente, economizou em nós.

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Jornalista

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