Domingo, 19 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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ARMAZéM LITERáRIO >

A arte que a imprensa não vê

Por Urariano Mota em 01/01/2008 na edição 466

Foi como um lance de dados, que me coube por sorte. Foi como um mergulho no oceano, que não dá conta da vida ampla do oceano. Foi como um acidente imprevisto em uma voragem. A impressão que eu tenho é que fui tragado.

A poesia marginal de Pernambuco é um oceano que a imprensa não vê. Imaginem o tamanho da cegueira. São, por baixo, mais de 50 poetas, das mais ricas tendências, que se apresentam nos palcos, em shows, em recitais. Eles se fazem notar mais pela palavra falada que pela escrita. A razão é simples, se perdoam a pobreza do adjetivo. Os seus poemas estão em edições pequenas, de tiragens pequenas, de circulação pequena, a preço de duas cervejas. Daí, o vulgo e a vulgar compreensão concluem que são poetas pequenos. E, justiça seja feita, é um ranking bem desigual. Diferente dos grandes, eles não são apresentados pela mais douta e circunspecta crítica, aquela que descobre em cada obra uma reedição de Baudelaire, de Elliot ou da última referência que estiver em moda.

Diferente dos grandes, eles são todos filhos de má família, um eufemismo que apenas quer dizer, não passam todos de filhos de uma puta. Diferente dos grandes – e aqui vai a sua marca, o seu ferrete, o seu estigma –, esses poetas estão todos com raiva e ódio deste mundo. Ora, como falar bem de indivíduos que desejam o fim dos nossos empregos, a morte dos nossos patrões, que vêm para a destruição em hordas kamikazes? E no entanto, quem não ouviu Miró, quem não ouviu a palavra de França, a repetir como uma lâmina que fere em recital, ‘pensar dói, pensar dói’, não conhece ainda a fruição da poesia que é música. Suas apresentações suspendem a estupidez do cotidiano. Não sei se me expresso bem, mas eu sinto nas suas apresentações um gozo musical da inteligência.

Espinhara, Luna, França e Miró

Confesso que despertei para a sua poesia quando faleceram dois poetas-símbolo do movimento, Chico Espinhara e Erickson Luna. O intervalo dos seus óbitos foi curto e eloqüente. Chico Espinhara:

‘Recife, musa, maldição
Cadela suja, traiçoeira
Seta certeira
Encantada cidade do cão’,

(em fevereiro de 2007)

Erickson Luna:

‘Porque sou suor
a cachaça e a lama
das chuvas que caem
em Santo Amaro das Salinas’

(em abril de 2007)

Seis meses depois, França:

‘Vamos continuar comendo porcarias
Fodendo as marias, bebendo excreções
Fazendo mais josés que nos puxarão os pés’

Então, acordei. Se a morte me despertou, a carência de vida me levou ao encontro dessa geração que a cegueira e o embrutecimento não querem ver. Se pensam que me engano, percebam Valmir Jordão. Ele possui um senso de humor cáustico, inteligente, inconformista. E uma sensibilidade aguda para o poema e a poesia. Companheiro e ‘irmão’ de Erickson Luna, de França, de Espinhara.

Justiça total

‘Coca para os ricos
Cola para os pobres
Coca-cola é isso aí!’

Das fadas

‘As fadas,
Com suas varinhas de condão
E seus pós brancos
Transmutam e exorcizam
Todo o mal e sua
Horda.
As fadas que habitam
Nos contos
São iguais a vocês:
As fadas são foda!’

Ou o poeta Miró:

‘Recife
Cidade das pontes
E das fontes da miséria
Poetas mendigando passes
Pra voltar pra casa
E sua poesia passando despercebida
Aliás,
Nem passa.’

Menciono estes porque o espaço é pequeno. Na verdade existe uma – ia dizer plêiade, mas corrijo: há uma horda de poetas da mais aguda inteligência. Plenos de uma estética que assimila o feio, a miséria, a piada. São poetas que cansaram de cantar o arrebol. Em lugar de palavras ‘poéticas’, suaves, cantam a revolta. Até quando serão desconhecidos?

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Jornalista e escritor, Recife, PE

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