Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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A censura e o coronel-presidente

Por Fernando Massote em 05/08/2008 na edição 497

A censura da imprensa, praticada em proveito do governo do estado desde a posse de Aécio Neves, em 2003, já se tornou senso comum em Minas Gerais. Todos falam dela. O jornal Estado de Minas exibia ao tempo do governo Itamar Franco um numeroso elenco de colaboradores na sua pagina de Opinião. Os mais críticos foram eliminados até que restou, emblematicamente, como colaborador permanente, o coronel Jarbas Passarinho… O mesmo que em l968 assinou o AI-5 declarando ‘às favas os escrúpulos!’ ‘Escrúpulos’… democráticos? O eterno coronel inventa o que nunca teve. Ele é um daqueles fantasmas recorrentes de que a direita não pode nunca abrir mão na vida cultural e política brasileira. O Estado de Minas sabe disso e pratica fielmente esta macabra recorrência.


O governo Itamar e o autodenominado ‘maior jornal dos mineiros’ não viviam em paz. A elite mineira também não exibia a unidade e a autoconfiança que parece ter readquirido com o governo Aécio. Os tempos mudaram. A unidade reina, hoje, entre os senhores das gerais que acalentam, apoiados na figura do ‘jovem e bonito’ governador, seu rebento mais prodigioso, mestre em propaganda, um sonho já velho de mais de quatro décadas, ou seja, o de reconquistar o Palácio do Planalto – e seus botins – perdido com JK no final de l960. Tudo isto parece ter reativado a vocação unitária entre o jornal Estado de Minas e o governo do estado. O restante da imprensa segue o andor triunfante das hostes tradicionais e faz coro com a censura dominante.


Máquina estatal


Uma das praticas censórias mais corriqueiras e notórias da imprensa é a de colocar uma questão importante, de interesse geral, para ser respondida por alguém que, sob as vestes do especialista – cientista social, por exemplo – faz o jogo da elite. São eles os interlocutores habituais e privilegiados da mídia amordaçada. Ela batiza, assim, a resposta que quer dar à questão com o carisma da ciência social.


O jornal Estado de Minas deu, nestes dias, um exemplo deste simulacro de jornalismo. Às voltas com o fato da multiplicação de candidaturas únicas para prefeito, no atual processo eleitoral, resolveu fazer de contas que queria tratar do assunto e mandou um repórter fazer ao cientista social Otavio Dulci, do Departamento de Sociologia da Fafich/UFMG, a pergunta sobre o porquê do fato.


O professor deveria ter-se declarado suspeito para tratar do assunto, como fazem, com muita objetividade e garbo, advogados, juízes e promotores, diante de um assunto qualquer que consideram não ter a devida isenção para apreciá-lo. Ele é petista, irmão de um ministro petista de Lula e acadêmico incapaz de assumir, solitamente, nos debates da universidade, qualquer opinião ou posição independente do establishment acadêmico.


É, portanto, muito natural que, com este identikit, o professor tenha dado para a pergunta uma resposta desconcertante, ou seja, que a razão das candidaturas únicas era ‘um verdadeiro enigma’! Um modo oblíquo, na verdade, de se declarar incompetente para deslindar o assunto. O ‘verdadeiro enigma’, com efeito, chama-se governo Lula e o grande curral eleitoral que ele montou no país. O maior da história brasileira.


A resposta do professor foi a maneira encontrada para fugir do embaraço, desconversando e eludindo a questão que não queria nem podia responder como verdadeiro cientista social. Como aceitar, com efeito, um debate que o levaria a criticar o cerne do governo Lula? Se o fizesse teria que admitir que o PT tornou-se e se mantêm, hoje, como um partido ‘estatal‘; que ele comanda a máquina estatal agigantada pelos programas que o Banco Mundial chama de ‘compensatórios’, pelo assalto do ‘superávit primário’ à vida social brasileira, para pagar as dívidas.


Estruturas e conjunturas


O superávit primário no governo Lula já come mais de 14% do que o Estado arrecada e rouba o dinheiro que iria para a saúde, a educação, o saneamento, a moradia popular, a segurança etc. É essa uma verdadeira fábrica de pobreza, miséria, e é para ‘compensar’ isto que os governos FHC e Lula criaram os ‘programas sociais’ como o Bolsa Família, usados para comprar o apoio popular. Não é outra, portanto, a razão das candidaturas únicas no atual processo eleitoral municipal. Numa situação dessas, quem pode competir com o partido do governo e seus aliados? Estamos, de fato, num processo político amplamente monitorado pelo alto.


Lula controla, com inigualável maestria e força, os cordéis da manipulação eleitoral. Colocou assim, no bolso, todos os coronéis tradicionais que, para existir, têm, agora, que pedir a sua benção. Ele não atingiu com isso somente o velho ACM, Sarney e outros das demais regiões, mas o próprio PFL, que reinava na vasta seara do clientelismo municipal. Foi na esteira dessa crise que este último foi levado a mudar seu nome para Partido Democrata (DEM). Ninguém tem hoje mais cacife clientelar e, por extensão, eleitoral, que Lula. O que o Padre Cícero fazia no Ceará onde, nas primeiras décadas do século passado, se tornou o coronel dos coronéis, Lula faz hoje, solitariamente, como o grande mestre e pai dos pobres, no Brasil inteiro. 


Daríamos mostra de um renitente ou impenitente nominalismo se considerássemos que a censura é sempre a mesma, independentemente dos contextos. Não é. E como todas as grandes eveniências sociais, a da censura muda seguindo as estruturas e conjunturas. Ela segue, dessa forma, hoje, em Minas Gerais, como no resto do pais, os passos galopantes do neocoronelismo do presidente da República. Esta verdade não consegue penetrar nem nas entrelinhas de maioria dos jornais.

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Professor de Ciência Política da UFMG, autor do livro A historia pela metade: cenários de política contemporânea, cuja terceira edição será lançada em agosto pela Editora Universidade Federal de Viçosa.

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