Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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ARMAZéM LITERáRIO >

A cobertura de um conflito sem verdades

Por Ivo Lucchesi em 08/08/2006 na edição 273

É fato que os jornais, diariamente, se esforçam quanto ao propósito de melhor informarem seus leitores a respeito de mais um quadro sangrento que expõe, com as tintas do horror, imagens da morte de inocentes. O que, porém, os mesmos jornais não sabem (ou não podem) esclarecer é a escalada de atrocidades, sem deixarem de resvalar na tentação de uma lógica binária oscilante na qual a retórica da vitimização ora tende para um lado, ora se inclina para outro.

Ao que parece, o que decide é a intensidade da destruição. É sabido, porém, que o assassinato de inocentes é indigno em qualquer lugar, independentemente de seu número.

Sucessão de erros

O mais recente capítulo da interminável novela das guerras, segundo o roteiro ditado pela mídia, parece vir com a retórica determinista de que, em se tratando de Oriente Médio, é inevitável que, de tempo em tempo, tais fatos se reproduzam. Aí reside o primeiro erro.

As matérias que cobrem o conflito, tão atentas a detalhes quanto ao número de vítimas e quantidade de mísseis disparados, parecem não ter a mesma diligência em observar o disparo no preço do barril de petróleo que já atingiu o patamar de 75 dólares por unidade. Curiosamente, tal informação se colhe em páginas de economia e não naquelas atinentes à cobertura da guerra, fazendo supor que um fato não está a serviço do outro.

O segundo erro da mídia reside em reforçar a idéia de que, entre judeus e árabes, não há margem para acordo possível. Foi, no mínimo, infantil a mídia divulgar que a motivação inicial do ataque de Israel ao território do Líbano consistia em recuperar dois soldados seqüestrados pelas forças do Hezbollah. A mesma mídia, meses antes, se limitava a registros tímidos quanto a sucessivos ataques dos mísseis do Hezbollah a cidades do norte israelense. Provavelmente por não se tratarem de ações tão ‘espetaculares’, pouca atenção lhes foi dada. Por outro lado, esta observação não isenta de crueldade a atual resposta bélica imposta pelo governo de Israel.

O terceiro erro, sob o patrocínio da cobertura jornalística, se refere ao tratamento simplista de matérias que induzem o leitor a considerar o novo conflito no Oriente Médio como um embate de caráter terrorista. Para tanto, valem-se da inoperante lógica binária, configurando terrorismo de Estado (Israel) contra terrorismo no Estado (Líbano). Tal procedimento é perigoso porque tende a alimentar estigmatizações, seja em relação a judeus, seja quanto a árabes. É indispensável que, em contexto de tamanha gravidade, se reafirme o óbvio: não confundir judeus com práticas do governo israelense. De igual modo, não deve ser confundido muçulmano com al-Qaeda ou variantes.

O cidadão comum, em ambos os lados, almeja a vida como realização suprema do bem e não vê o ‘outro’ como alvo de extermínio. A mídia, em âmbito mundial, talvez pudesse dar efetiva contribuição se, em lugar de noticiar e fotografar flagelos oriundos da barbárie bilateral, preenchesse páginas e páginas com depoimentos de cidadãos (judeus e árabes) que anseiam pela convivência pacífica. Matérias com tal perfil seriam jornalisticamente tão verdadeiras quanto as que exibem vidas arruinadas. Que interesses perversos cruzam os caminhos da mídia de modo a inviabilizarem-se tais conteúdos?

Convém lembrar

O quarto erro, recorrente na cobertura midiática, diz respeito à recusa da análise pelo conforto da informação objetiva. Tal opção leva a mídia a deformações, a ponto de ela não perceber que o Líbano não é o alvo real. O Líbano é apenas passagem para a definitiva operação: a Síria e, adiante, o Irã. Na logística do governo Bush, o controle do Oriente Médio passa obrigatoriamente pela ocupação (ou invasão), após o Iraque, da Síria, seja por interesses geopolíticos, seja por motivações de ordem econômica.

Em face do desgaste imprevisto pela ‘inteligência’ norte-americana, o governo de Israel, em mútua parceria com a estratégia do governo Bush, serve de ponta-de-lança. Notícias em jornais de sábado (5/8) davam conta de que ataques israelenses atingiam a aldeia de Qaa, a 3,2 km da fronteira do Líbano com a Síria. Já em 2003, a propósito da invasão do Iraque por forças norte-americanas, finalizava um artigo publicado neste Observatório [‘Políticos, ‘produto’ e teatro de guerra‘] com o seguinte comentário:

‘De tudo, porém, fica a certeza de que o mundo foi exposto a um dos mais vergonhosos acontecimentos, cujo testemunho está assegurado pela cobertura midiática, a despeito da guerra paralela entre a informação e a contra-informação. Ao que parece, agora, o foco começa a direcionar-se para a Síria.’

A alegação de que a Síria é suporte de sustentação do Hezbollah pelo fato de boa parte do armamento usado pelo grupo terrorista ser fabricada pela Síria é igualmente válida para o reconhecimento de que a maior parte do armamento israelense é oriundo da indústria bélica norte-americana. Por esse ângulo, não se resolve a questão. Em qualquer parte do mundo, vendedores de arma almejam o lucro de seus negócios.

O quinto erro – este por omissão – se caracteriza pelo total descaso que a imprensa dedica ao fato de que, na nova conjuntura política do Oriente Médio, Israel se vê entre dois oponentes de perfil terrorista a caminho da institucionalização. No território palestino, o Hamas se converteu em governo. No Líbano, o Hezbollah cresce como força política, já com representação no atual governo.

O fenômeno não é particularidade do Oriente Médio, se recordarmos que o IRA, na Irlanda, e o ETA, na Espanha, já se constituem como partidos políticos. Alguns observadores internacionais vêem a mutação com bons olhos, sem se darem conta de que, pouco a pouco, a democracia representativa passa a absorver segmentos egressos do terrorismo. Quais serão as conseqüências éticas de tais concessões, em grande escala? Será que o simples voto majoritário obtido nas urnas é respaldo para conferir legitimidade a um percurso histórico de barbáries? Não custa recordar que o partido nazista cresceu e prosperou valendo-se de intimidações e seguidos atos de violência. Também pelo voto o partido nazista chegou ao poder.

A heroicização do deplorável

O sexto erro está no modo como a imprensa seleciona matérias. Todos os grandes jornais que circularam no sábado (5/8) destacavam a morte de Ibrahim Saleh, jovem de apenas 17 anos. A Folha de S.Paulo, em quase página inteira, atraía o leitor a partir da seguinte manchete: ‘Brasileiro morre lutando pelo Hezbollah’. O que deveria ser motivo de indignação estava convertido em frase de heroicização. Classifico tal tratamento jornalístico como irresponsável.

Não bastasse, ao longo da matéria, constava o depoimento da mãe, com direito a outra chamada: ‘Não estou triste, mas orgulhosa’. Em box, ao lado, outro destaque: ‘Ele dizia que não queria ter uma morte qualquer, como em um acidente de carro. Queria ser ‘sharid’ (mártir), morrer na guerra’. É de estarrecer que jornais ofereçam matérias absolutamente acríticas, em nome da pretensa informação. Em nenhuma parte da reportagem houve lugar para um contra-discurso que deplorasse a escolha daquele jovem, ou mesmo o pronunciamento de sua mãe, em que pese a dor pela perda de um filho. A dor da mãe é absolutamente inatacável. Contudo, a justificativa para a morte é, no mínimo, questionável. De parte a parte, a verdade, no contexto atual, é um elo perdido na cadeia de uma história funesta.

Está na hora de editores reavaliarem o que fazem, o que permitem e o que omitem. Mais ainda: tal medida é improrrogável num país com as características do Brasil que, se tantas outras mazelas abriga, pelo menos ausente se faz o conflito entre diferentes culturas e religiões. Independentemente de certidão, o jovem que optou pela morte no Líbano não era brasileiro. A notícia como foi dada pode ser impactante do ponto de vista de certo jornalismo, entretanto seu teor é falso. O jovem que morreu no Líbano não era brasileiro. Não era libanês. Era tão-somente xiita, recrutado e ideologizado pelo Hezbollah.

Quem assume compromisso com atividade jornalística séria não tem o direito de isentar-se diante de certas situações. Temo que, a permanecer a cobertura jornalística sobre o conflito no Oriente Médio no molde em que se encontra, não fica excluída a possibilidade de tensões entre árabes e judeus no Brasil.

Os principais jornais do país estamparam, em primeira página, fotos do protesto ocorrido na sexta-feira (4/8) na Rua 25 de Março, em São Paulo, promovido pela comunidade libanesa. A se repetirem atos dessa ordem, igual poderá fazer a comunidade israelita e assim por diante. Num belo dia, ao acordarmos, poderemos encontrar a paisagem que não desejávamos. Aí, terá sido tarde demais. Pensem, senhores jornalistas, a respeito do que andam noticiando e destacando.

Por fim, espera-se que a imprensa – pelo menos a brasileira – não colabore para a equivocada tendência de pautar conflitos por ramificações religiosas. Quem se dá ao cuidado de conhecer as religiões geradas pela civilização sabe que, em nenhuma delas, há discurso direcionado para a guerra ou para o extermínio dos diferentes. O que há, sim, por leituras transversas, é o ímpeto de poder da parte de segmentos que, valendo-se de desvios de interpretação, redirecionam o significado do ensinamento religioso para o propósito desejado. Atrás dessas manobras de mascaramento, seguem legiões de desafortunados e destituídos de maiores compromissos com suas próprias vidas, para entregarem seus destinos aos negociantes da guerra e promotores da destruição. Assim se compõe o palco no qual desfilam danças macabras. Até quando?

[Texto fechado às 12h de 6/8]

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Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular do curso de Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha, Rio de Janeiro)

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