Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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ARMAZéM LITERáRIO >

A construção da audiência

06/09/2005 na edição 345

[do release da editora]

O formato se repete em todo o país: os telejornais exibidos no ‘horário do almoço’ têm uma linha editorial que permite matérias de gastronomia, economia doméstica, serviços que, pela lógica dominante, interessam ao público-alvo destes programas. Já os exibidos às 18h devem seguir uma outra linha porque atendem a uma audiência diferenciada. O que passa despercebido em ambos os casos é: que parâmetros norteiam os jornalistas na concepção destes telejornais?

Para tentar responder perguntas como esta, o professor Alfredo Vizeu desenvolve em O lado oculto do telejornalismo a tese da audiência presumida e defende que os profissionais constroem antecipadamente o perfil de seu público e buscam atingi-lo através de uma série de recursos discursivos. A obra, editada pela Editora Calandra, será lançada durante o congresso da Intercom, no Rio de Janeiro.

O livro é resultado da tese de doutorado defendida pelo professor no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ. Elias Machado, presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJOR), assina o prefácio. Machado afirma que ‘neste trabalho, pela primeira vez de modo sistemático, um estudioso brasileiro do telejornalismo consegue superar o paradigma da recepção, demonstrando que, como produto, o telejornal é impensável sem a audiência’. A pesquisa que originou o livro toma como base a análise de dois telejornais do Espírito Santo – Tribuna Notícias e ESTV 2ª. Edição.

Biblioteca J

Autor do consagrado Decidindo o que é notícia, na 4ª edição, Vizeu é professor da graduação e do programa de pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco. Com mais de duas décadas de experiência como jornalista, o pesquisador defende, no livro, a necessidade de um novo olhar em relação às rotinas de trabalho.

‘Falar em rotina como um processo mecânico é desconhecer a dimensão simbólica do jornalismo, a sua dimensão discursiva’, afirma. Não por acaso, entre as conclusões de sua pesquisa está a certeza de que o outro – no caso, a audiência – é construído pelo próprio discurso elaborado pelos profissionais no dia-a-dia das redações.

O lado oculto do telejornalismo é o terceiro volume da ‘Biblioteca J’, coleção da Editora Calandra dedicada aos estudos conceituais do jornalismo. O objetivo da coleção é levar, tanto a profissionais quanto a acadêmicos e pesquisadores, obras de qualidade, com linguagem acessível, sobre os diversos fenômenos que compõem o campo do jornalismo contemporâneo. Durante o congresso da Intercom, será comercializado pela Banca do Daniel. Maiores informações pelo e-mail (atendimento@editoracalandra.com.br).



A verdadeira face do telejornalismo

Elias Machado (*)

Até aqui os estudos brasileiros sobre o telejornalismo têm desenvolvido quatro tipos de perspectivas: 1) manuais técnicos, 2) estudos de recepção, 3) estudos históricos e 4) estudos dos formatos. Mesmo com significativas contribuições à prática do telejornalismo, estes tipos de estudos revelam uma dificuldade em tratar conceitualmente o jornalismo como prática discursiva. Em vez de desvelar os meandros desta prática, o pesquisador acaba margeando o próprio objeto, substituindo a análise pelas prescrições, pela crítica do consumo ou pela descrição dos formatos.

Era de se esperar que um acadêmico que viesse do mundo profissional rompesse com esta espécie de círculo vicioso em que a teoria, quando muito, fornece orientação para a execução de uma prática repetitiva. De certo modo, este é programa que se impõe e cumpre com muitos méritos e pioneirismo o professor Alfredo Vizeu, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, em O lado oculto do telejornalismo. Neste trabalho, pela primeira vez de modo sistemático, um estudioso brasileiro do telejornalismo consegue superar o clássico paradigma da recepção, demonstrando que, como produto, o telejornal é impensável sem a audiência. Dito de outro modo: o telejornalista produz e edita o telejornal com base na noção de audiência presumida que forma do público.

Como o próprio Vizeu pontua, na análise presente no livro existe o pressuposto da imbricação de dois momentos: de um lado, a produção dos enunciados e, de outro lado, a atividade dos jornalistas. Este procedimento permitiu ao autor identificar e descrever como se dão as operações de construção da audiência e como as rotinas de trabalho, as organizações, a cultura profissional e a noticiabilidade são fatores extralingüísticos que fazem parte do discurso jornalístico.

Hipóteses contestadas

Nesta obra, como fizera no hoje consagrado Decidindo o que é notícia – bibliografia de referência para estudantes e pesquisadores –, Vizeu, para demonstrar a hipótese que postula, desenvolve uma pesquisa de campo nas redações de duas emissoras de televisão em Vitória, capital do Espírito Santo. O mais interessante neste trabalho é que Vizeu consegue, por um lado, incorporar conceitos da teoria da enunciação sem cair no lugar comum de uma análise do discurso jornalístico e, por outro, utiliza a metodologia dos estudos de produção da notícia para se contrapor a alguns dos postulados deste tipo de estudo como a pseudotese das rotinas produtivas.

Ao final do trabalho, Vizeu apresenta uma conclusão que dá uma noção do alcance do seu repertório, defendendo a necessidade de se lançar um novo olhar em relação às rotinas de trabalho. Para Vizeu, deveríamos romper com a tradição sociológica dos estudos norte-americanos e ingleses de sociologia da notícia, que caracteriza as rotinas profissionais dos jornalistas como atividades mecânicas, repetitivas, como se todo dia o jornalista fosse submetido a regras estabelecidas e padronizadas. A redação é um ambiente tensional, de disputas, de sujeitos que, de uma forma ou de outra, frisa Vizeu, no trabalho da enunciação, produzem discursos, que, no jargão jornalístico, são chamados de notícia. Aceitar a noção de rotina como um processo mecânico, alerta, é desconhecer a dimensão simbólica do jornalismo, a sua dimensão discursiva.

Pesquisador incansável, neste trabalho, originalmente apresentado como tese de doutorado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e que aqui aparece em uma versão mais didática e menos formal, Vizeu empreende uma exaustiva revisão da bibliografia, dialogando com os principais pesquisadores dos diferentes campos teóricos que incorpora: teorias do jornalismo, sociologia da notícia, teoria da enunciação e análise do discurso. O resultado final confirma o que todos vislumbrávamos em Decidindo o que é notícia: o pesquisador criterioso existente em Vizeu.

Como amigo particular do professor Vizeu desde 1987, quando trabalhávamos como jornalistas no Rio Grande do Sul, pude acompanhar todo o percurso acadêmico do colega. Em dez anos, Alfredo Vizeu transformou-se em um dos mais conceituados pesquisadores brasileiros em telejornalismo, após consagrar-se como jornalista brilhante. A trajetória de Vizeu revela que, ao contrário do que parece, nenhuma contradição existe entre a prática e a teoria. E o rico aprendizado como profissional lhe permitiu, inclusive, melhores condições de contestar algumas hipóteses até então consagradas como a das rotinas produtivas. Cabe ao leitor, agora, o prazer de conhecer, conduzido pelas mãos talentosas do professor Vizeu, a verdadeira face do telejornalismo.

(*) Presidente da SBPJor

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