Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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ARMAZéM LITERáRIO >

A credulidade que fecunda ‘barrigas’

Por Sylvia Moretzsohn em 17/02/2009 na edição 525

O que nos foi apresentado inicialmente como uma clássica e terrível história de violência, intolerância, racismo e xenofobia pode não passar da velha e patética história da moça enlouquecida que forja a gravidez e se autoflagela para forçar o casamento. Seja uma coisa, seja outra, ou qualquer das várias hipóteses intermediárias ainda a serem investigadas, esta é, desde logo e com toda a certeza, uma história de grave irresponsabilidade jornalística.


O caso da advogada brasileira Paula Oliveira estourou na internet na quarta-feira (11/2), às 15h52, como uma notícia ‘em primeira mão’ do blog do Noblat. O título era incisivo: ‘Brasileira torturada na Suíça aborta gêmeos‘. O texto seguia o mesmo tom afirmativo e contundente, sustentado por fotos que atestariam a veracidade das informações: a moça sorridente exibindo a barriguinha que despontava, uma reprodução de cartaz com propaganda contra estrangeiros no país e, finalmente, as fotos da barriga e das pernas da moça, marcadas por algum objeto cortante. Nas coxas, destacava-se a sigla do SVP, um partido de extrema-direita local. Com mais dificuldade, entre outros riscos, as letras V e P também podiam ser lidas na barriga.


Um indisfarçável tom de crítica


Os principais meios de comunicação do país repercutiram o fato automaticamente, na mesma linha do blog. Ato contínuo, o ministro das Relações Exteriores manifestou-se contra o que aparentava ser um ato claro de xenofobia, o secretário especial de Direitos Humanos foi veemente ao condenar aquela violência, o presidente da República também entrou em cena para protestar e o governo ameaçou levar o caso à ONU.


Paralelamente, o comportamento da polícia e da imprensa suíças, que não fizeram nada além do que tinham de fazer – recolher os dados para averiguações ‘em todas as direções possíveis’ –, provocou a indignação de autoridades e meios de comunicação brasileiros, que excitaram o sentimento de orgulho nacional ferido por europeus arrogantes e discriminadores.


A situação começou a mudar dois dias depois, diante da notícia de que exames realizados no hospital suíço comprovavam que a moça não estava grávida – pelo menos, não no momento da alegada agressão –, ao mesmo tempo em que ganhavam força as suspeitas de autoflagelação. Talvez na tentativa de justificar o crédito original na denúncia, ou simplesmente para alimentar o noticiário, à falta de informação mais consistente, jornais brasileiros apelaram a fontes secundárias – parentes e amigos da moça, que não podiam ir além de comentários puramente subjetivos e previsivelmente atestavam suas qualidades de pessoa honrada, sensata, competente e com enorme alegria de viver –, mas começaram um movimento de recuo e passaram a relativizar a denúncia, lançando mão do sempre providencial adjetivo ‘suposto’ para não se comprometerem mais do que já estavam.


Naturalmente, não faltaram matérias apontando, com indisfarçável tom de crítica, o recolhimento das autoridades antes tão indignadas, como se fossem elas as únicas culpadas pela precipitação.


Faltou investigação


Na sexta-feira (13/2), às 17h44, Noblat escrevia em seu blog um texto cujo título, ‘O que eu sei sobre o caso Paula‘, já seria surpreendente: acaso saberia algo mais do que revelara inicialmente? De fato, muita coisa: por exemplo, que a moça teria sido deixada apenas com as roupas íntimas após a agressão, e assim teria corrido de volta à estação de trem. Ou que as fotos com as lesões foram tiradas e enviadas pelo namorado. Antes tão seguro das informações, o jornalista agora se via obrigado a apresentar justificativas aos leitores, explicitava sua relação com o pai da moça – o assessor parlamentar pernambucano Paulo Oliveira, principal fonte da denúncia – e concluía com a prudência que lhe faltou no início: ‘Aguardemos novos fatos.’


Enquanto isso, e como é praxe nessas ocasiões, o espaço de comentários no blog e nos vários sites jornalísticos transbordava das mais diversas especulações sobre os mais diversos aspectos do caso – desde a qualidade das lesões, as complicações que envolvem uma gravidez, a violência dos neonazistas, a excelência ou as intenções escusas da polícia suíça, até manifestações de solidariedade à família da moça e de conforto ao pai que tanto sofria. No meio de tudo isso, como não poderia deixar de ser, algumas teorias sobre o papel da imprensa.


Jornalismo, como se sabe, trabalha com fatos. Os fatos, no caso, eram muito estritos: uma jovem brasileira que reside e trabalha na Suíça denunciava ter sido atacada por três skinheads na saída de uma estação de trem, à noite, enquanto falava ao celular com a mãe. Levada a um lugar ermo, disse ter sido torturada por cinco a dez minutos e, em conseqüência, abortara os gêmeos que esperava. Como prova, apresentava duas fotos com os ferimentos na barriga e nas pernas.


O relato do pai, a declaração do namorado – atestando que tudo era ‘100% verdade’ –, a reação das autoridades brasileiras, tudo isso também eram ‘fatos’ porque, ‘de fato’, aquelas pessoas deram tais declarações. Porém, baseavam-se na denúncia original, que pedia mais investigação.


Sobretudo porque outros fatos muito objetivos foram negligenciados desde o início. Por exemplo: o desenho invertido e pouco claro da letra ‘S’ para compor a sigla SVP na barriga da moça, em contraste com a precisão das letras desenhadas nas coxas. A simetria desses desenhos, improvável numa situação de violência na qual a vítima costuma debater-se para se defender. Ou a inexistência de lesões nas costas ou na parte traseira das pernas. Seriam indícios suficientes para aconselhar prudência na divulgação do caso. Sem contar a necessidade de se comprovar a ocorrência do aborto imediatamente após a agressão.


Reações intempestivas


Ao publicar a denúncia como fato indiscutível, inclusive reproduzindo supostas ameaças do policial que teria atendido a moça e que duvidava de seu relato, Noblat bancou a versão de seu informante. Fez isso, certamente, porque confiava nele. Fez isso, também, certamente porque sabia ser um furo de potencial explosivo. Então, assinou embaixo. Passou recibo. E não prestou atenção aos detalhes que poderiam derrubar a história.


Os demais meios de comunicação reproduziram a denúncia nos mesmos termos, sem qualquer apuração própria nem, ao menos, o cuidado da relativização: como qualquer jornalista sabe, a única atitude possível quando não se tem certeza dos fatos é a remissão à fonte. Criou-se um clima de excitação que envolveu diplomatas e outras autoridades cujo status exigiria o comedimento e a discrição, e que reagiram intempestivamente, no calor da hora. Se não o tivessem feito, entretanto, seguramente seriam condenados pelo descaso e insensibilidade em relação ao sofrimento de uma cidadã brasileira.


Vestígios da irresponsabilidade


O imediatismo da era da internet costuma ser apontado como uma das causas principais desse tipo de equívoco. De fato: quando se impõe uma lógica em que a velocidade importa mais do que a qualidade das informações, a tendência é formar-se um círculo vicioso sem perspectivas de ruptura. Porém, este seria igualmente o fim do jornalismo, que não pode prescindir da checagem dos dados e tampouco pode deixar-se levar por emoções que ofusquem o senso crítico indispensável para que o repórter não seja usado pela fonte.


Há, no entanto, outro fator que contribui significativamente para a disseminação irrefletida desse tipo de história: é nossa predisposição em acreditar nela. Como escreveu Jacques Rancière em 2004, a propósito de um caso a todos os títulos semelhante – a denúncia, que pouco depois se revelaria falsa, de uma jovem francesa que carregava seu bebê e, numa estação de trem (sempre ela…), teria sido agredida por um bando de adolescentes magrebinos da periferia parisiense –, vivemos num tempo em que a mentira está adequada à máquina da informação e à sua relação com o poder político. Desse modo, existem ‘interpretações prontas’, que confirma o senso comum, adequadas a certos ‘fenômenos da sociedade’. Um desses fenômenos contemporâneos é, sem dúvida, a xenofobia que se dissemina pela Europa.


Pensemos, então, nos ingredientes do caso específico: uma moça brasileira, branca, bonita, bem-sucedida, trabalhando legalmente numa das maiores empresas da Suíça, vítima de skinheads típicos, um deles com uma suástica desenhada na cabeça. Uma moça frágil, ainda por cima grávida – de gêmeos! – e que aborta em decorrência das agressões. Quem, em princípio, não se sensibilizaria com essa história?


Sem tomar a necessária cautela, os jornais assumiram o episódio com indignação patriótica. Agora fazem malabarismos para apagar os vestígios da própria irresponsabilidade. E para recuperar a credibilidade porque, afinal, a ausência de malícia é fatal para qualquer publicação.

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Jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007).

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