Terça-feira, 20 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ARMAZéM LITERáRIO >

A crise de um jornalão

Por Heloiza Golbspan Herscovitz em 19/08/2008 na edição 499

A sede do jornal Los Angeles Times ocupa um enorme quarteirão no centro de Los Angeles. A entrada principal é imponente. Um enorme globo de alumínio gira em tempo real montado sob um compasso de mármore que simboliza a indústria, a religião, a ciência e a arte – herança da família Chandler, ex-proprietária do maior jornal metropolitano dos Estados Unidos.


Publicado desde 1881, o jornal está em crise. Uma crise longa e com muitas causas. Numa sexta-feira, um grupo de estudantes de jornalismo se preparava para registrar a visita à redação, quando um funcionário da casa que passava pelo hall de entrada se ofereceu para bater a foto. A professora de jornalismo agradeceu a gentileza e o funcionário se identificou, sorridente mas tímido: David Hiller, editor-chefe e CEO da empresa.


De queixo caído, o grupo pediu que ele fizesse parte da foto. Uma foto histórica, porque na semana seguinte David Hiller, 55 anos, renunciaria ao cargo, no qual ficou apenas 21 meses. Sua saída coincidiu com a demissão de 250 jornalistas (as redações do jornal impresso e online empregavam 876 pessoas) e a redução do número de páginas do jornal em 15%.


Em Chicago, no mesmo dia, a editora do Chicago Tribune, Ann Marie Lipinski, 52 anos, também deixava o cargo de editora-chefe. Triste coincidência? Não. Os dois jornais pertencem ao grupo Tribune, que reúne 11 jornais, 23 estações de TV, dezenas de websites, um time de beisebol, o Chicago Cubs, e uma enorme dívida. O grupo foi comprado em 2007 por Sam Zell, magnata do ramo imobiliário, por 8,5 bilhões de dólares.


‘Um negócio do inferno’, como definiu o próprio Sam Zell, o irreverente empresário de 66 anos que usa jeans, fala palavrão e pouco se interessa por jornais, estações de TV e menos ainda por um time de beisebol. Especialistas do ramo dizem que a compra do Tribune foi desastrosa, mas Zell acha que o inferno é temporário. Ele tem cacife e experiência no assunto. Há anos investe em negócios que parecem quebrados, reabilita-os e revende-os por uma fortuna. Na lista da revista Forbes, ele aparece como o 52º milionário norte-americano.


Navegação descompromissada


Na sede do Los Angeles Times, o nome do novo proprietário no momento provoca mais críticas do que elogios. Hiller, que é advogado e serviu no governo Reagan por dois anos, deixou o cargo porque não agüentou os cortes na produção do jornal e a queda de anúncios. Ele foi o terceiro editor-chefe do jornal desde que o LA Times foi comprado pelo grupo Tribune, em 2000. Seu antecessor, Jefferey Johnson, deixou o cargo por se recusar publicamente a fazer cortes na empresa em 2006. Pouco depois, outro editor, Dean Baquet, também se demitiu por se opor aos cortes.


O LA Times segue sem um editor-chefe e CEO. O atual editor é Russ Stanton, há 10 anos trabalhando na empresa. Num recente memorando à redação publicado pelo jornal, Stanton explicou:




‘Vocês sabem o paradoxo que enfrentamos. Graças à internet, temos mais leitores para o nosso grande jornalismo mais do que em qualquer momento da nossa história. Mas graças também à internet, nossos anunciantes têm mais opções e nós temos menos dinheiro.’


Segundo Stanton, a crise no mercado imobiliário acertou em cheio a publicidade na mídia impressa. Enquanto isso, a publicidade online cresce, mas em ritmo lento. Para compensar, a empresa vai fazer o que quase todos os jornais já fazem: combinar as redações de mídia impressa e online em uma única operação sob o mesmo orçamento. A crise na mídia impressa norte-americana é geral. Jornalões como o New York Times e o Washington Post seguem o mesmo caminho. Os de médio porte em cidades menores fazem o mesmo.


A crise na mídia impressa americana tem outras causas além dos problemas econômicos enfrentados pelos Estados Unidos – e que incluem o alto preço da gasolina e os gastos bilionários com a invasão do Iraque. Os jovens norte-americanos não gostam muito de jornais impressos nem de noticiários de televisão. Preferem a internet, onde se ocupam com blogs, redes de socialização como o Facebook (a versão americana do Orkut), sítios de vídeos como o Youtube, videogames, sítios de música, celebridades, e-mails e a navegação descompromissada que um clique atrás do outro leva muitas vezes a lugar nenhum. Têm capacidade de concentração curta e são capazes de fazer várias tarefas ao mesmo tempo. Enquanto isso, os jornais perdem leitores, perdem os anúncios classificados, reduzem as tiragens, enxugam as redações, produzem textos mais curtos e se esforçam para atrair anunciantes online ainda sem o sucesso esperado.


Serviço público


Falta, porém, descobrir o caminho para a grande revolução jornalística que vai capturar a atenção das novas gerações, porque, obviamente, os jornais não vão morrer. A história ensina que cada vez que surge um novo meio de comunicação, os outros se adaptam, se transformam e reencontram seu lugar no bazar da comunicação.


Para atrair novos leitores é preciso tirar vantagem da tecnologia e das novas tendências em vez de lutar contra elas. Por um lado, o público americano, que tem acesso a muitas fontes de informação, se fragmenta e gasta muitas horas do dia com a mídia de sua preferência e, entre elas, não está o jornal. Em contrapartida, os jornais buscam uma fórmula híbrida e abraçam a convergência como a grande saída do buraco em que estão metidos. Talvez a solução seja outra. Jornais e anunciantes precisam de um novo pacto que inclua o leitor e suas necessidades.


E o que será feito dos templos onde se alojam as grandes redações que impressionaram a tantas gerações de jornalistas? Pois parece que vão se transformar em condomínios e prédios de escritórios pelas mãos de empresários como Sam Zell, um iconoclasta do mundo dos negócios. Ele planeja vender a torre neogótica do jornal Chicago Tribune, construída em 1925 e que se tornou um marco histórico da cidade. Também quer vender a sede do Los Angeles Times, inaugurada em 1935 e premiada dois anos depois com a medalha de ouro na exposição de arquitetura moderna de Paris.


Parece então que vão-se os anéis e ficam os dedos, ao contrário do ditado popular. Sam Zell é um otimista: ‘É preciso lembrar que um jornal é um negócio. Era um fabuloso negócio com uma margem extraordinária. Agora é um negócio muito bom com margem de lucro apropriada’.


Então, se o negócio não vai tão mal, nós jornalistas educadamente discordamos e apostamos no futuro. ‘Seu’ Zell, jornal também tem uma missão pública, a de educar e informar nem que seja em sedes menos luxuosas, com redações modestas e salários razoáveis.

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Jornalista e professora de jornalismo da California State University, em Long Beach

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