Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ARMAZéM LITERáRIO > LETRAS & LEITORES

A crítica dos comuns

Por Diego Viana em 15/02/2011 na edição 629

O sucesso e o impacto de um romance podem ser medidos pela contagem de exemplares vendidos ou pelo tom das resenhas na imprensa. Um novo elemento de medida, mais difícil de controlar e de compreender, foi introduzido na última década, com a chamada Web 2.0, na qual proliferam resenhas amadoras em blogs e breves recomendações em redes sociais. O recurso mais confiável de medição são os comentários de leitores na livraria virtual Amazon. Lançado em outubro, o romance Nemesis, de Philip Roth, mereceu a opinião escrita de 45 amadores. Solar, de Ian McEwan, publicado em março, foi comentado por 144 frequentadores da livraria. O best-seller Freedom, de Jonathan Franzen, foi objeto de nada menos de 752 manifestações de leitores.

As opiniões listadas na livraria virtual oferecem um panorama quase inesgotável das maneiras possíveis de abordar os livros. Um comentário sucinto sobre o romance de McEwan diz que ‘é bem escrito, mas, não sei por que, não gostei’. Outro decreta apenas, talvez elogiosamente, que o texto de Franzen ‘lembra William Faulkner’. Entre essas breves intervenções, uma resenha de sete extensos parágrafos sobre Freedom se abre reconhecendo que ‘críticas negativas não costumam ser bem-vindas’, mas ‘tantas reações favoráveis nos jornais compelem a incluir uma voz de dissenso’.

O impulso de introduzir uma opinião num circuito público é capital para a compreensão do fenômeno das resenhas online. ‘O tempo do crítico com poder de veto já passou’, diz Nízia Villaça, crítica literária e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). ‘Hoje, o diálogo entre diferentes recepções da crítica é positivo e fecundo.’ Porém, não se deve ir longe demais, adverte Fábio Malini, professor de Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a ponto de decretar a ‘morte’ do crítico. ‘Ao contrário, se analisarmos as críticas mais reputadas na rede, veremos que se saem melhor aquelas que se dedicam ao fazer crítico diário, com qualidade e ótima formação humana e especializada.’

Cultura digital tem o poder de subverter

A variedade dos impulsos amadores de diálogo leva Malini a descrever a internet como um ‘dispositivo erótico’ capaz de multiplicar os afetos e os olhares sobre cada coisa que se apresenta, numa objetividade amplificada. Esse triunfo das pulsões está manifesto no comentarista de Freedom e resume o fenômeno digital que se espalha com furor por domínios tão distantes quanto a relação de empresas com consumidores, o chamado jornalismo cidadão e, como revelam as intervenções na Amazon, a literatura, sem deixar de atingir frontalmente seu espelho indefectível, a crítica literária.

Henry Jenkins, professor de Comunicação da Universidade da Califórnia, lembra que ‘a fronteira entre leitor e autor fica embaçada quando todos com acesso à internet podem compartilhar seus pensamentos com conhecidos e desconhecidos. Nem tudo o que escrevem é digno de ser compartilhado, mas a parcela digna é maior do que era quando o acesso à expressão era mais limitado’. Poder se expressar significa, para Jenkins, poder ‘responder ao livro, fazer perguntas aos outros enquanto se lê, citar e comentar, reescrever; são respostas criativas do leitor ao trabalho do autor’. O resultado é um mundo em que o livro deixa de ser um objeto pleno para se tornar ‘o início de um processo expansivo de conversa, assim como já é uma intervenção numa troca corrente com outros escritores e leitores’.

Se Jenkins estiver correto, a cultura digital tem o poder de subverter o sentido de noções tão estabelecidas quanto ‘livro’, ‘escrita’, ‘leitura’ e ‘crítica’. Nesse cenário, todos os atores – escritores, críticos, leitores – enfrentam desafios que põem na berlinda os fundamentos de suas atividades. E cada um faz face a esses desafios como pode, com as ferramentas de que dispõe.

A crise da crítica literária

Ítalo Moriconi, crítico literário e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), assinala que ‘é a própria maneira de se relacionar com um texto que se coloca em questão’. O caso mais contundente é o processo envolvido na leitura crítica. ‘O charme da crítica acontece quando um leitor comum lê um romance e encontra um crítico interessante abordando o romance pelo qual ele se interessou.’ Já num contexto em que o leitor não precisa mais estabelecer uma diferença entre o encontro com um crítico qualificado e o encontro com um comentarista anônimo, o que desaparece é a estrutura espacial na qual esse charme pode acontecer. ‘A questão passa a ser: qual a relação entre o espaço público que transcorre na internet e o espaço público determinado pelo meio impresso?’

Nízia Villaça concorda que o espaço público esteja no centro da questão. Ela diz que o conceito vem sendo discutido com bastante ênfase, tendo nas plataformas eletrônicas seu lugar privilegiado. ‘Dominique Wolton fala em `solidões interativas´ e Jair Ferreira dos Santos diz que `a literatura ainda será um hospital para a doença do automatismo eletrônico´.’

A situação de desconforto provocada pela ascensão de uma nova tecnologia de escrita não significa que o espaço da criação e da crítica literárias fosse confortável até então. Luiz Costa Lima, da Uerj e da PUC-RJ, observa que a crise que enfrentam os escritores e seus juízes tem seu fundo na derrocada dos valores sociais burgueses após a Segunda Guerra Mundial (leia entrevista abaixo). Diante da evidência de que o exercício da crítica literária vive uma crise há décadas, o crítico e filósofo Benedito Nunes, da Universidade Federal do Pará (UFPA), atribui as dificuldades a um ‘efeito exterior de uma crise da própria literatura’.

Internet tem o papel das confrarias literárias do século 19

A crise, escreve Nunes no artigo ‘Crítica literária no Brasil, ontem e hoje’, está nos princípios, na presença pública e na operatividade da crítica como leitura, fruto de um abandono da coragem estética que deve pertencer à literatura. ‘Se a literatura cai, a crítica despenca’, prossegue Nunes. Mas o filósofo mantém no espírito uma nota de esperança, ao afirmar que, ‘no entanto, crise não é catástrofe; crise é incerteza do que fazer agora e do que virá depois’.

Diante da introdução avassaladora das manifestações e da escrita virtual, resta perguntar o que os escritores podem fazer agora e o que podem esperar depois, diante do desafio imposto pela novidade da internet. Se o meio digital for entendido como um universo em que engenheiros e veterinários podem ocupar o mesmo espaço de semiólogos e teóricos literários, sem distinção de especialidade ou experiência, então a marca da rede é a ausência de controle e o questionamento da autoridade. ‘São pessoas que se arvoram em emitir juízos sem compromisso’, resume o sociólogo Sérgio Miceli, da Universidade de São Paulo (USP). ‘Atribui-se autoridade a quem não tem nenhuma autoridade.’

O conceito de autoridade, porém, é problemático para os autores que mergulharam diretamente na rede, tanto para a escrita quanto para a crítica. ‘Talvez a autoridade esteja escapando da figura do `autor´’, argumenta Vanessa Place, poetisa e editora americana. ‘Isto é, talvez estejamos passando para um paradigma em que o que é dito vai importar mais do que quem diz. Isso tem de acontecer o mais rápido possível.’

A indistinção que a internet promove oferece à crítica, no dizer de Malini, seu ‘melhor momento’. ‘A rede hospeda desde a crítica acadêmica até a mais rasa. O filtro feito por esses agentes, que funcionam como editores coletivos, é um dispositivo que faz circular um sentido geral sobre determinada obra. Uma reputação que se faz sem centro, sem editor’, explica. Nízia Villaça aborda a questão do ponto de vista do autor. ‘Ele não só escreve seus livros como se promove junto a leitores de variadas áreas, criando nichos em que as preferências se diversificam progressivamente.’ O nicho, na internet, tem o mesmo papel que as confrarias literárias do século 19, segmentando o espaço social da recepção de acordo com interesses de grupo. A diferença é o rompimento das barreiras geográficas.

Hoje, não existe crítica e metacrítica

Moriconi concorda que não se pode falar em desaparecimento do crítico profissional. ‘Ele muda de figura, mas não é eliminado.’ Mesmo a crítica universitária está mais permeável às formas de escrita típicas da rede. ‘A própria crítica literária ficou com uma aparência amadora, porque não existe uma metodologia única. Cada crítico escreve de seu jeito e isso passa uma impressão de amadorismo. Há mais espaço para um discurso menos rigoroso e amarrado por vocabulários técnicos, mesmo na crítica acadêmica.’

Para a crítica e teórica literária Leda Tenório da Motta, a maior qualidade da internet é ser um refúgio para os bons críticos literários que não conseguem mais espaço em meios tradicionais. Revistas online dedicadas à literatura, como a ‘Sibila’ e a ‘Agulha’, são para Leda o único lugar no qual se podem encontrar, no contexto da crítica literária brasileira, escritos ao mesmo tempo eruditos e bem redigidos. Na universidade, segundo Leda, o texto pode ser erudito, mas raramente será bem redigido. No infinito espaço horizontal da blogosfera e das redes sociais, a erudição não existe, a boa redação muito menos, restando apenas uma frágil abertura a iniciativas de promoção imaginadas pelo mercado editorial.

Para confrontar a atitude do grande escritor com o caminho do debutante de hoje, Leda cita o início da carreira de Marcel Proust, atacando a leitura que Sainte-Beuve, considerado o maior crítico do século 19, fazia dos principais autores franceses. Para se tornar o grande romancista que foi, Proust se apoiou sobre uma atitude crítica e metacrítica. O iniciante atual, não dispondo das mesmas ferramentas nem da mesma formação cultural, no julgamento de Leda cresce a partir das boas relações com o mercado editorial e a amizade com uma comunidade de leitores.

***

Por que James Joyce não é Paulo Coelho?

O crítico Luiz Costa Lima é um dos principais teóricos da literatura no Brasil. Professor da PUC-RJ e da Uerj, Costa Lima é autor de estudos sobre o conceito de mímesis, o controle e a cultura de massa, desde Por Que Literatura? (1966) até Controle do Imaginário e a Afirmação do Romance (2009).

Costa Lima sublinha o caso brasileiro particularmente difícil para a crítica literária e a literatura, consequência do descompasso entre o desenvolvimento econômico e o investimento em educação e na formação intelectual. Na falta dessa formação intelectual, ‘o leitor compra gato por lebre’, diz.

Há mesmo uma crise da crítica? Faz sentido atribuí-la à internet?

Luiz Costa Lima – A internet foi um refresco nessa crise, que tem raízes profundas. A literatura foi o grande veículo de comunicação do século 18 até o fim da Segunda Guerra. Adquiria-se renome e dignidade mostrando conhecimento de um objeto comum, a literatura. Após 1945, não só apareceram novos meios de comunicação, como TV e rádio, como a homogeneidade de valores em que se fundava a literatura se rompeu. A essa fratura corresponde, entre as décadas de 1960 e 1980, um movimento de teorização da literatura. A base crítica anterior já não bastava, como se tivesse se convertido num dente cariado que não servia para mastigar.

O crítico tinha uma certa autoridade. Quando saía um suplemento, ele podia fazer o destino de um livro. Hoje isso se perdeu.

L.C.L. – O crítico tinha um papel fundamental na difusão de livros. Até fins do século 20, no Brasil até a ditadura, os suplementos literários tinham uma grande importância, com críticos como Antonio Candido e Décio de Almeida Prado. Guimarães Rosa, tão logo lançou Grande Sertão: Veredas, foi tema de um especial da revista Diálogo e diversos artigos em suplementos. Por isso, foi logo aceito. Existia um papel social do crítico que se manteve nos anos 60, perdeu-se progressivamente e hoje ele não tem nenhuma importância social. A ausência de repercussão é um problema sério. Lê-se muito que o Brasil tem um patamar econômico superior ao do passado, mas todo o sistema educacional se degrada a olhos vistos. Não adianta esse crescimento econômico se não corresponder a um crescimento intelectual.

Já não é mais crise, é falência

O senhor mencionou a internet como refresco. Quer dizer no bom sentido ou no mau?

L.C.L. – Acho que nos dois. Suponha que tem um livro que foi publicado, mas nenhum suplemento deu, não se ficou sabendo, e alguém me avisa pela internet que ele existe e que devo prestar atenção nele. Nesse caso, é positivo. Através dos blogs e redes sociais não há critério algum de publicação. Suponhamos que alguém tem um blog, coloca seu retratinho, dá sua opinião sobre tudo. Isso pode funcionar para difusão, mas sem critério, pode tanto ir num sentido razoável como muito ruim. Ou seja, é um refresco ou razoável ou muito ruim. Muito bom é que não vai ser. Um exame cuidadoso de uma obra num texto que parece uma carta? É impossível.

O amador da internet é encarado como paradigma de renovação e frescor.

L.C.L. – Discordo. Acho que, dos males, é o menor. O maior seria um grupo que se reúne para discutir novela. O mal menor é quem vai para o computador e escreve sobre um livro. É o amador bem-intencionado. Mas amador é amador, não? Do ponto de vista do grande público, o mais sério é o desencontro entre a possibilidade econômica e a capacidade intelectual. Fica difícil tornar algo público sem que seja muito dirigido no espaço público. A sensação de perda no Brasil é evidente, mas não é tão evidente nem mesmo na América Latina. Mesmo com a crise argentina, o Clarín tem um suplemento muito bom. Na Alemanha, o Frankfurter Allgemeine também tem. Nos EUA, tem o New York Review of Books. E mesmo lá existe uma crise da crítica, um encolhimento geral. Mas entre nós já não é mais crise, é falência.

Perda da crítica leva as pessoas a comprar gato por lebre

Nos EUA, reclama-se que as pessoas, em vez de ler as críticas, dispensam os especialistas e vão para a internet dizer o que querem.

L.C.L. – Até ir para a internet, existe a alternativa para quem não queira ir ou queira ir com outra opinião. Não tenho nada contra a internet, eu a uso todo o tempo. Mas não a uso como instrumento profissional.

O caminho de difusão do livro mudou com a internet, tirando o lugar do crítico, substituindo seu trabalho solitário?

L.C.L. – A única falha no raciocínio é que a passagem do livro para a recepção multiplicada e multiplicante da internet se faz a partir de um foco não especializado. Isso significa que é favorecida a obra não especializada. Não é a partir do romance de terceira categoria que o romance vai se sustentar.

Quando a recepção especializada sai de cena, o que é, especificamente, que se perde?

L.C.L. – É o pente fino. Imagine o Ulisses de [James] Joyce. Estamos em 1922 e alguém me convida para escrever uma resenha, dizendo: ‘Você tem 5 mil toques para escrever.’ Eu me recusaria. O que faria o resenhista de hoje? Uma pequena descrição do enredo, um histórico da obra, informações genéricas. O que se perdeu com isso? Ora, perdeu-se o próprio livro. O leitor fica sem saber por que esse livro teve a importância que não teve, por exemplo, W. Somerset Maugham, que era tão traduzido entre nós. Por que Joyce não é Paulo Coelho? A perda da crítica especializada leva as pessoas a comprar gato por lebre.

A carência da difusão

Aí é que entra a formação do cânone?

L.C.L. – Sim e não. Sem um meio refinado de analisar as obras ditas canônicas, elas tendem a perdurar indefinidamente. Não há crítica adequada, então ela perdura, mantém o lastro canônico existente. Só que esse lastro tende a aumentar de acordo com a capacidade que o autor tenha de incorporar prêmios, comentários favoráveis. Veja Mario Vargas Llosa, romancista de terceira categoria. Na justificativa dada para o Prêmio Nobel, constava que ele vinha menos pela qualidade literária do que pela participação pública. É um critério estapafúrdio que mostra a falta que faz o olhar especializado da crítica.

Qual é o destino da linha de grandes textos que suscitam e remetem uns aos outros?

L.C.L. – Fica represada. É como se um rio Amazonas se transformasse num riacho. Um curso d’água gigantesco que se torna um filete. Quem acompanha a obra de Augusto de Campos? Acredito que ele seja o grande poeta brasileiro. Seu nome circula entre pessoas que estão no meio, mas ele é debatido e comentado? Tenho dúvidas. Uma coisa é o conhecimento oral, outra é o conhecimento da obra. Décio Pignatari teve publicada recentemente uma obra que refaz o traçado da sua trajetória, mas não saiu uma única resenha, nada. De Augusto de Campos saiu há pouco uma reedição de seu livro com o artista plástico Júlio Plaza, Poemóbiles. Alguma resenha sobre isso? Nenhuma. Seria como perguntar qual é a diferença entre um grande poeta e o jogador Neymar. Vemos constantemente o Neymar atuando. O poeta, não. Vê-lo atuando seria lê-lo, lê-lo seria discuti-lo.

Transmitindo esse exemplo para novos autores: a difusão e o sucesso deles decorrerão de que, se não for da crítica especializada?

L.C.L. – Penso no exemplo de um artista plástico que também é escritor, Nuno Ramos, autor de Ó. Quem o conhece como escritor? Muito pouca gente. E garanto que é um romance de muita qualidade. A rede de amadores da internet cobre a carência dessa difusão? Isso é brincadeira. Não cobre, não. Acho isso um problema sério. No domínio intelectual, é um problema tão sério quanto os desastres naturais que têm se multiplicado, como na serra fluminense.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 20/02/2011 Teócrito Abritta

    Felizmente nesta edição do Observatório da Imprensa foram publicados três artigos sobre Crítica Cultural, “artigo” que parece “banido” do tal “mercado”. Creio que daqui para frente a Crítica Cultural deve ser mais frequente por aqui, como uma exilada de seus territórios naturais que deveriam ser as publicações ditas culturais. Ah, mas estas só se interessam pelo novo, independente de qualidade… se vender celular então…

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