Domingo, 20 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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A dimensão simbólica dos prêmios

Por Raquel Paiva em 12/06/2007 na edição 437

Talvez seja útil, antes de apresentar o processo de implantação dos novos prêmios Intercom, instituídos a partir do ano passado, uma divagação bastante breve sobre o sentido de premiação para nos acercarmos do seu contexto na nossa específica área da comunicação. De pronto, a idéia que me surge é a de considerar o prêmio uma mais-valia honrosa.

Vejamos como exemplo o Prêmio Camões de Literatura – concedido anualmente a um escritor, seja do Brasil ou de Portugal –, um dos mais importantes do gênero. Monta a 100 mil euros (cerca de 300 mil reais). Pois bem, no ano passado, o escritor angolano Luandino Vieira simplesmente recusou a láurea – e o dinheiro, claro. Alegou motivos de foro íntimo. Repetia, na verdade, um gesto de alguma freqüência na história das premiações. É fato mundialmente conhecido a recusa do Prêmio Nobel, considerado o maior de todos, por Jean-Paul Sartre.

Há algo de inútil nesse tipo de atitude. É que, mesmo recusando-se o dinheiro, o prêmio concedido surte efeitos, porque ele implica tanto valor econômico quanto valor simbólico. O econômico já está, aliás, inscrito na etimologia da palavra: o latim praemium inclui, segundo as enciclopédias, os significados de ‘dinheiro, vantagem, bem, despojos, frutos do combate, isto é, da vitória, recompensa, paga’.

Real e imaginário

Mas a inscrição não quer dizer que tenha sido sempre assim, pois na antiguidade se alternava a concessão de bens materiais com honrarias. Os prêmios a autores de hinos, odes e tragédias – a que já se referia Homero – podiam ser uma mera coroa de folhas de louro ou de oliveira. Entretanto, se a coroa era trabalhada em ouro, disfarçadamente aparecia o ‘dinheiro’. Sem falar nos vencedores dos jogos olímpicos, que recebiam uma boa soma de dinheiro, e mesmo alimentação, para o resto da vida. Do século 17 em diante é que prêmio passou realmente a significar dinheiro.

Há, porém, o outro lado, a que aludimos, o simbólico. O que implica este conceito? Como não se trata aqui de dissertação sobre o assunto, deixemos de lado as explicações de Lévi-Strauss ou Lacan para consultarmos alguém mais próximo do campo comunicacional. O francês Jean Baudrillard, por exemplo. Para ele, o ‘simbólico’ não é sequer um conceito, nem uma instância ou uma categoria, nem uma ‘estrutura’ e, sim, um ato de troca e uma relação social que resolve o real, pondo fim à oposição entre real e imaginário. A explicação de Baudrillard é bem mais longa e complexa do que isto, mas vamos guardar apenas esta parte, para acentuar a questão da ‘troca’. Ela tem muito a ver com o prêmio.

É que o merecedor da láurea doa algo (a demonstração de uma realização humana admirável) à comunidade e desta recebe uma recompensa, uma honraria. A troca é simbólica porque ‘resolve’ (extermina) as pressões históricas do grupo social referentes a valor de uso de objetos e comportamentos, valor de troca de mercadorias, convenções meramente práticas etc. O premiado é ao mesmo tempo real e imaginário, ou seja, ele existe objetivamente dentro do grupo, é um ser humano como os outros, mas habita também a esfera do que se imagina, se sonha ou se deseja.

Do Pulitzer ao Esso

Daí, uma certa ambigüidade inerente a essa troca, uma vez que a dimensão simbólica faz com que o prêmio se situe acima do valor de troca material ou monetário. É algo parecido com o presente, também uma doação simbólica: um automóvel dado como presente equivale simbolicamente a, digamos, um lápis. Com ou sem dinheiro, o prêmio surte os seus efeitos junto à comunidade a que pertence o sujeito do mérito. Daí, a mais-valia honrosa!

O campo profissional da comunicação valoriza, e muito, a premiação. Nos Estados Unidos, todo e qualquer jornalista aspira, desde 1918, ao Prêmio Pulitzer, o mais importante da área, criado por disposição testamentária do jornalista Joseph Pulitzer. Trata-se de prêmio em dinheiro e é decidido por um conselho consultivo, a partir de inscrições e indicações recebidas. Há também um prêmio para o jornalismo internacional, instituído em 1939 pela Universidade de Columbia, que consta de dinheiro, gastos de viagem e medalha de ouro. Jornais e jornalistas brasileiros já conquistaram esse prêmio. Alberto Dines, atualmente bastante ativo no Observatório da Imprensa, é um deles.

No Brasil, destaca-se, desde 1955, o Prêmio Esso de Jornalismo, decidido por uma comissão de profissionais. É também um prêmio em dinheiro e costuma ser bastante disputado por repórteres e fotógrafos.

Premiação coletiva

A Intercom é a única sociedade de estudos da comunicação no Brasil a premiar estudantes, professores e pesquisadores. Instituiu os prêmios de Maturidade Acadêmica, Liderança Emergente, Instituição Paradigmática e Melhor Trabalho Acadêmico (estudantil). Não são prêmios em dinheiro, mas a eles concorrem, por inscrição ou indicação, os muitos intelectuais da área. As premiações vêm ajudando, sem sombra de dúvida, a fortalecer, como ‘comunidade do saber’, a multiplicidade dos pesquisadores de comunicação no país.

E se esses prêmios já conferiam uma representatividade plena de significação dentro da área, o que dizer dos novos prêmios, que serão conferidos aos alunos de todas as categorias (graduação, especialização, mestrado e doutorado) desde que inscritos nos eventos do congresso anual? Inicialmente: um incentivo. Mas esta qualificação efetivamente não responde pela representação simbólica que alcança um aluno premiado e, conseqüentemente, seu orientador. Sem sombra de dúvidas, os novos prêmios consolidam uma parceria autoral e fortalecem a filiação identitária do autor. Basta ver o formato do presente livro, em que o orientador apresenta o autor premiado.

Com a publicação do livro Ícones da Sociedade Midiática, a Intercom complementa o processo de premiação e faz debutarem no meio acadêmico os autores, conduzidos por seus respectivos orientadores. Trata-se de uma premiação coletiva em que todos são homenageados, desde o presidente da entidade, José Marques de Melo, à entidade, por apostar nos futuros pesquisadores, valorizar o passado e, principalmente, o presente, e por gerir critérios bastante democráticos; assim como são os dos Novos Prêmios Intercom. Somos homenageados também todos nós que participamos – coordenadores de núcleos e de eventos, membros de comissões julgadoras, enfim, todos os que aceitamos participar do processo e todos os que, ao longo destes 30 anos da Intercom, optamos por não seguir aquele específico exemplo de Luandino Vieira ou Jean-Paul Sartre. Afinal, são muito poucos os momentos em que temos o reconhecimento dos pares na nossa área. Vamos aproveitar esta nova oportunidade apresentando os trabalhos de cada um dos eleitos.

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Jornalista, doutora em Comunicação pela ECO/UFRJ, diretora cultural da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), professora associada da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisadora do CNPq e autora de O Espírito Comum – mídia, comunidade e globalismo

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